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GM faz pressão por incentivos para investir no Brasil

Dos governos, a empresa espera benefícios fiscais; dos fornecedores, redução de custos; dos concessionários, menos comissão nas vendas; e dos trabalhadores, corte de salários e dos benefícios

Voante Chevrolet
(Reprodução/Chevrolet)

A General Motors, líder em vendas de carros no País, busca apoio para um novo plano de investimentos na casa dos R$ 10 bilhões, valor próximo aos R$ 13 bilhões aplicados nos últimos cinco anos. Dos governos, a empresa espera benefícios fiscais; dos fornecedores, redução de custos; dos concessionários, menos comissão nas vendas; e dos trabalhadores, corte de salários e dos benefícios. Sem essas "contribuições", a montadora ameaça deixar o País.

O valor do novo plano foi citado por sindicalistas que têm de explicar aos trabalhadores as razões de novos "sacrifícios" pedidos pela GM. Entre eles, estão redução do piso salarial e da participação nos resultados, terceirização em todas as áreas e aumento da jornada de trabalho.

Nem a empresa nem pessoas que participam das negociações confirmam oficialmente o valor do novo investimento. O prefeito de São Caetano do Sul, José Auricchio Júnior, afirma apenas que "o novo ciclo representará garantia de, pelo menos, mais dez anos de funcionamento da planta na região".

A discussão sobre os rumos da montadora começou no dia 18, quando o presidente da GM Mercosul, Carlos Zarlenga, enviou carta aos funcionários dizendo que a situação do grupo depende da volta, ainda este ano, da lucratividade da operação, que está negativa desde 2016.

Na carta, ele reproduz texto em que a presidente mundial da companhia, Mary Barra, demonstra estar insatisfeita com os resultados da América do Sul (Brasil e Argentina). "Não vamos continuar investindo para perder dinheiro", disse ela.

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Zarlenga disse que um plano para viabilizar investimentos na região foi entregue à matriz. "Do sucesso desse plano dependem os investimentos da GM e o nosso futuro."

Na semana passada, Zarlenga iniciou encontros com dirigentes sindicais das fábricas de São Caetano do Sul e São José dos Campos, ambas em São Paulo. O grupo tem mais três fábricas, uma de carros em Gravataí (RS) e duas de autopeças em Mogi das Cruzes e Joinville (SC).

Na terça-feira, 29, será a vez de encontro com fornecedores, de quem Zarlenga espera redução de preços. Dos concessionários já teria obtido corte de 1 ponto porcentual da comissão das vendas.

O prefeito Auricchio diz que está previsto para dezembro o início da produção de um SUV na fábrica de São Caetano, possivelmente a nova Tracker. "A empresa tem novos investimentos definidos, mas precisa saber se tem a garantia dos quatro pilares (governos, sindicatos, concessionárias e fornecedores) que devem trabalhar de forma sincrônica e harmônica", diz.

"Com a conclusão de tudo isso haverá o anúncio positivo dos investimentos", afirma Auricchio. Segundo a Secretaria Municipal de Fazenda, dados preliminares indicam que, do repasse total de ICMS recebido no ano passado, 24% (R$ 80 milhões) foram de responsabilidade direta ou indireta da GM. Em relação ao ISS, a montadora recolheu R$ 6,5 milhões, 3% do total.

Em São José dos Campos, onde a GM é a terceira maior empresa - atrás da Revap e da Embraer -, o secretário de Inovação e Desenvolvimento Econômico, Alberto Marques Filho, diz que "a empresa tem intenção de produzir novos veículos em 2023 e, para isso, teria de fazer investimentos para preparar as linhas a partir deste ano".

Segundo Marques, o município se dispõe a suspender a cobrança de ISS e IPTU da GM, "mas primeiro queremos saber que investimento será destinado à cidade para então avaliarmos prazos e se a renúncia será total ou parcial".

Do governo do Estado, a GM espera receber créditos acumulados de ICMS, retidos há quatro anos. O imposto é pago pelas empresas nas exportações e deveria ser devolvido em forma de crédito a ser descontado de outros impostos. Só as montadoras têm mais de R$ 5 bilhões retidos, dizem fontes do setor. No ano passado, a Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo informou que tinha um calendário para a devolução que iria até 2020. Em 2018, seriam devolvidos R$ 1,2 bilhão às montadoras. Na sexta-feira, o órgão disse que devolveu no ano passado R$ 770 milhões e não informou quando vai liberar os outros R$ 430 milhões.

Sindicatos

O Sindicato dos Metalúrgicos de São Caetano do Sul realiza nesta terça assembleia com os cerca de 8 mil trabalhadores da fábrica da GM. Pouco mais da metade deles, todos da área produtiva, estava em férias coletivas desde 23 de dezembro e retorna nesta segunda-feira.

Segundo o presidente do sindicato, Aparecido Inácio da Silva, o Cidão, as férias foram para preparar a fábrica para a produção de novos veículos.

"Será uma assembleia para informar o que a empresa está propondo", diz Cidão, que na semana passada participou de duas reuniões com a montadora. Ele não adianta as propostas da empresa, mas diz que os funcionários já contribuíram muito no acordo fechado em 2017, quando a empresa também ameaçava sair da cidade. A unidade produz os modelos Onix Joy (antigo), Spin, Cobalt e Montana.

"Não vamos aceitar mais flexibilização do que já fizemos", diz Cidão. Pelo acordo anterior houve, por exemplo, redução do piso salarial, do adicional noturno e suspensão de reajustes pelo INPC. A maioria desses itens consta da proposta entregue pela GM ao Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos na semana passada. O vice-presidente da entidade, Renato Almeida, também afirma que os mais de 4 mil trabalhadores já fizeram sacrifícios em troca de promessas não cumpridas.

Ele cita um investimento de R$ 2,5 bilhões e a produção de novos veículos prometida há quatro anos e que não se concretizou. Nesta segunda-feira, 28, o sindicato tem nova reunião com a empresa. "Queremos saber o que de fato será feito e que garantias teremos desta vez."

Em São José são produzidos a picape S10 e o SUV Trailblazer, além de motores e componentes. É a fábrica do grupo com maior ociosidade desde que a produção de carros menores foi desativada, em 2013. 

 

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