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Brasileiro que trabalhou no Lehman Brothers relembra crise 10 anos depois: "não tinham noção da dimensão do problema"

Mauro Miranda, atual presidente do CFA Brasil, trabalhou na área de renda fixa da unidade londrina do banco e foi demitido na última onda de cortes antes da falência do banco

Mauro Miranda, CFA Society
(Divulgação)

SÃO PAULO – Em 2006, o brasileiro Mauro Miranda, hoje presidente da CFA Society Brazil, foi contratado pela unidade londrina de uma instituição financeira com 158 anos de história, o quarto maior banco de investimentos dos EUA. Era sua chance de desbravar o mercado europeu após uma passagem pelo Banco Central brasileiro e 4 anos fora do país – primeiro trabalhando no Bear Stearns, em Nova York, e posteriormente concluindo um MBA na renomada universidade de Columbia.

Esta experiência no Velho Mundo, porém, durou muito menos que o previsto: aquele banco secular onde Miranda tentou carreira era o Lehman Brothers, que quebraria dois anos depois. A data derradeira, 15 de setembro de 2008, marcaria uma das maiores crises financeiras mundiais, posteriormente apelidada de Grande Recessão. No próximo sábado, o marco mundial completa 10 anos.

“Saí do Lehman de Londres justamente na última onda de demissões logo antes da falência. Era julho de 2008 e eu fui demitido junto com basicamente metade do meu andar. Minha área de renda fixa focada em Leste Europeu tinha seis pessoas e, de uma só vez, ficou com três”, conta Miranda ao InfoMoney. Naquela época, diz, a empresa tentava se salvar de um problema cuja dimensão ainda era desconhecida.

Como instituições financeiras têm seu maior gasto em pessoal, o primeiro efeito da crise, ainda no segundo semestre de 2007, foi o corte no pagamento dos bônus de final de ano a funcionários. Logo depois, começaram de fato as ondas de demissões.“Isso é uma receita tradicional: cortar na própria carne para tentar sobreviver, mas claramente não era a melhor naquele momento”, lamenta. “Não teríamos como prever na época, mas hoje sabemos ser demitido naquela leva foi melhor que ficar até o final. Conheço pessoas que perderam até o reembolso do cartão de crédito corporativo”, conta, sobre colegas que ficaram no Lehman até o último dia.

O caso de Miranda foi ainda mais simples que a média justamente pela nacionalidade. Como o Brasil, em contexto de milagre econômico e pleno boom das commodities, sofreu menos com a crise, foi considerado um porto-seguro para ele e os colegas conterrâneos. Seu retorno ao mercado na carreira desejada foi praticamente imediato naquele momento. “Para quem é norte-americano ou inglês e não conhece outras línguas, fica mais complicado. Com certeza o mercado não reabsorveu as pessoas que saíram da área”, afirma.

Números “deprimentes”

Para o ex-funcionário de um sistema em plena queda, também ficou marcada uma atitude pontual dos meios de comunicação da época: como muitas instituições financeiras sofriam desde 2007 com o colapso das hipotecas “podres” (subprime), a Bloomberg decidiu fazer uma contagem em “tempo real” dos demitidos do setor: todos os dias, o número no site crescia a taxas desesperadoras.

“Era deprimente”, relata Miranda. “Desde a quebra de dois fundos geridos pelo Bearn Stearns, essa cobertura era diária, então eu acompanhava enquanto ainda trabalhava no Lehman. Lembro de as demissões chegarem a centenas de milhares de pessoas [só no setor financeiro]”. No total, em todos os setores da economia, os Estados Unidos demitiram mais de 2,5 milhões de pessoas entre dezembro de 2007 e o mesmo mês de 2008.

Mudança de perspectiva em 48 horas

Historicamente, é possível dizer que a decisão de deixar o Lehman quebrar foi considerada um equívoco pelas próprias autoridades econômicas norte-americanas muito rapidamente.

“Eles foram pelo risco moral no caso do Lehman. Pensaram ‘se salvarmos todos os bancos, eles farão o que quiserem’”, diz. “Mas 48 horas depois, reverteram essa política para a [seguradora] AIG. Na semana seguinte, houve o salvamento do Goldman [Sachs] e do Morgan Stanley, que continuam sendo dois dos maiores bancos de investimentos do mundo”, relembra o analista. Para ele, “não há dúvida” que o próprio Lehman seguiria perto do topo da lista de maiores empresas da área se tivesse ajuda do governo naquele momento.

Além do prejuízo óbvio a milhares de investidores daqueles títulos imobiliários e aos próprios 20 mil funcionários mundialmente, a quebra do banco teve o efeito de retardar a confiança do investidor pessoa física. “Essa confiança já não era tão alta, e foi mais abalada ainda com o fim de uma instituição daquela grandeza”, aponta Miranda. “Isso jogou os EUA em uma recessão tremenda. Tenho certeza absoluta que, se o Lehman tivesse sido ajudado naquele momento, a dimensão da crise seria menor”, opina.

Graças a essa quebra brusca de confiança há apenas uma década, Miranda acredita que, no momento atual – aparentemente distante do ponto do ciclo econômico que levará a uma nova crise financeira -, deve-se trabalhar com o maior afinco possível o fortalecimento da relação entre as pessoas físicas e o mercado de investimentos.

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