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Banco Neon era mira do Banco Central há quase uma década; mas o problema está no 'fin', não no 'tech'

Entrevista exclusiva com o CEO da Neon Pagamentos esclarece o caso do fechamento do Banco Neon

BANCO NEON
(Divulgação)

SÃO PAULO – Abalou o sistema financeiro nesta sexta-feira (4) a informação de que o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Neon. Os problemas da instituição, entretanto, não quebram a fintech Neon Pagamentos – uma empresa separada – e remetem a tempos anteriores às fintechs, envolvendo até mesmo o deputado estadual João Magalhães (MDB-MG).

Existem duas empresas nessa história: Banco Neon e Neon Pagamentos. Ocorre que a Neon Pagamentos emprestou seu nome temporariamente ao Banco Neon – antes conhecido como Pottencial. O banco não tem participação acionária na fintech, mas seus diretores pessoa-física foram investidores-anjo da startup e possuem participação “muito pequena, sem poder de voto” na companhia que permanece em atividade, disse ao InfoMoney nesta tarde o CEO e fundador da Neon Pagamentos, Pedro Conrade.

“Essa parceria existe porque a Neon Pagamentos é uma empresa de tecnologia. A gente precisa de um banco liquidante para bookar as operações. Outros bancos podem ser nosso banco liquidante. Já estamos conversando com outros bancos para serem nosso banco parceiro”, explica Pedro. Até que isso ocorra, a empresa fica impedida de operar contas digitais.

Conrade já adiantou ao InfoMoney que fechará “urgentemente” uma parceria com outro banco para manter todos os serviços que antes eram oferecidos pelo Banco Neon. A conta corrente digital e o cartão de débito seguem funcionando normalmente – mas clientes do cartão de crédito e investidores dos CDBs do Banco Neon deverão procurar auxílio e o FGC para reaver seu patrimônio.

Como o Banco Neon não possui nenhum cliente com investimentos superiores a R$ 250 mil em CDBs, todos os investimentos serão devolvidos, de acordo com Conrade. “Mas o cliente da Neon Pagamentos, que é a nossa empresa, que continuará existindo, tem completo acesso a todo o seu dinheiro. Ele pode entrar agora e sacar tudo se ele quiser”, esclarece. Só não pode fazer novas aplicações nessas contas. "Nós não podemos mexer nesse dinheiro", diz Conrade. A Neon Pagamentos tem 600 mil clientes, apenas 1000 também eram clientes Banco Neon.

Quanto ao aporte milionário anunciado apenas um dia antes da decisão do BC, ele ainda será investido na Neon Pagamentos, essa sim criada pelo empreendedor. Isso porque a rodada de investimento é voltada ao financiamento da empresa de tecnologia, e não do banco. Ele sequer teve de passar pelo crivo do Banco Central.

Histórico

Antes de ser Neon, o Banco liquidado se chamava Banco Pottencial – instituição criada em 1994 que mudou de nome em 2016 após joint-venture com a carteira digital Controly. Sob a primeira alcunha, a empresa já apresentava irregularidades apuradas pela Justiça – Magalhães responde pelo Inquérito 3.027 no STF por crime contra o sistema financeiro nacional em caso conectado ao banco.

Ele seria beneficiário de irregularidades dentro do banco referentes ao "deferimento e condução de operações de crédito em desacordo com os princípios da seletividade, garantia, liquidez e diversificação de riscos e ausência de constituição das provisões exigidas para créditos de liquidação duvidosa e ocultação de créditos bem como adoção de práticas irregulares em operações bancárias (folha 5 a 11 do apenso 1)", conforme consta em Inquérito.

A acusação diz ainda que, em uma conta de titularidade do Deputado, "teria ocorrido depósito em cheque no valor de R$ 860.000,00, prontamente creditado, o que possibilitou a redução do saldo devedor então anotado, embora tenha sido devolvido no dia útil seguinte", procedimento que não foi repetido com outros clientes do banco.

Contatada, a assessoria de imprensa do deputado não respondeu pedidos de comentário da reportagem até o momento da publicação.

Em 2010, o Banco Pottencial foi acusado de registrar ativos fictícios no valor de mais de R$ 6 milhões com objetivo de incrementar artificialmente as receitas do banco. Na época, foram processados seis diretores da instituição por gestão fraudulenta e gestão temerária: Argeu de Lima Géo, Carlos Géo Quick, Cássio Dolabella França e Lauro Baptista Machado Júnior.

Desde essa época, o Pottencial figura na lista de bancos sob “acompanhamento especial” pelo BC. O fechamento agora, em 2018, atribuído a deficiência patrimonial, descumprimento de regras de combate à lavagem de dinheiro e irregularidades "graves" com o dinheiro dos correntistas, provavelmente tem relação com um histórico longo.

Por que o Neon fechou essa parceria

Conrade afirma que todas as pendências conhecidas do banco Pottencial estavam quitadas no momento em que a parceria entre as empresas foi fechada. “Eles sempre deixaram claros esses problemas que eles tiveram. A gente analisou esses problemas específicos, vimos que as multas já estavam pagas. O banco ainda tinha licença para operar, estava tudo certo até onde sabíamos”, explica o CEO, afirmando que foi pego de surpresa pela informação da liquidação.

Como o Banco Neon “não deve satisfação à Neon Pagamentos”, segundo o empreendedor, “até agora a gente não sabe qual o problema atual”, responsável pela liquidação. “Os outros problemas [anteriores] não prejudicavam a nossa operação e achávamos que continuariam não prejudicando”.

“Só o ‘fin’, não o ‘tech’”

Para Rafael Pereira, presidente da Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD), o caso é “triste” e muitas fintechs devem acabar falindo nos próximos meses e anos. Mas esse escândalo em específico tem pouca relação com a parte “tech” do ambiente das fintechs.

“O que precisamos observar agora é o impacto que a liquidação do banco terá dentro da instituição de pagamento – quanto uma contaminará a outra”, disse Rafael. “Quando um banco quebra não é uma coisa pequena, mas o sistema financeiro brasileiro é muito bem regulado”, comenta.

 

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