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Perdeu o encanto? BofA corta preço-alvo de Facebook pela 2ª vez em 5 dias

O Facebook perdeu US$ 100 bilhões em valor de mercado desde o estopim de escândalo

Risco queda
(Shutterstock)

SÃO PAULO - O BofA (Bank of America Merrill Lynch) cortou pela segunda vez em 5 dias o preço-alvo estimado para as ações do Facebook após a confirmação de que a gigante de tecnologia será investigada após o escândalo de vazamento de dados de usuários. O valor estimado para os próximos 12 meses caiu de US$ 230 por ação para US$ 210. Apesar do otimismo enfraquecido pelas notícias recentes, o preço-alvo ainda aponta para valorização de 38% em relação ao valor do pregão de terça-feira (27).

A avaliação do BofA é de que a investigação iniciada pelo órgão de defesa do consumidor do governo dos Estados Unidos aumenta o risco de maiores processos regulatórios sobre os negócios da empresa.

O Facebook perdeu US$ 100 bilhões em valor de mercado desde o estopim de escândalo. Na segunda-feira (26), o papel chegou a ser negociado a US$ 149,02 - queda de quase 20% em uma semana, um tombo e tanto para uma ação que costumava ser uma das queridinhas dos investidores estrangeiros. No pregão de terça e quarta-feira as ações iniciaram um processo de recuperação lenta.

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Entenda o escândalo
As notícias de que a Cambridge Analytica, uma empresa vinculada à campanha do presidente Donald Trump em 2016, obteve dados de 50 milhões de usuários do Facebook de maneiras duvidosas, e possivelmente ilegais, provocaram uma tempestade na gigante de tecnologia. 

A informação sobre o vazamento de dados foi divulgada em 17 de março pelo The New York Times e pelo jornal britânico The Observer e confirmada pelo próprio Facebook, que suspendeu a conta da empresa de análise da rede social. Segundo o Facebook, a Cambridge Analytica violou normas da rede social ao arquivar dados de usuários por anos e ter mentido ao informar que as informações teriam sido destruídas.

Antes disso, em 2017, o Facebook enfrentou acusações semelhantes, com a suspeita sobre divulgação de notícias suspeitas, ou "fake news", sobre os Estados Unidos por russos, fato que foi visto como uma manipulação de eleitores norte-americanos em prol da candidatura de Trump.

Apesar do escândalo na época, o caso atual toma proporções bem maiores. Republicanos e democratas convocaram Zuckerberg para explicar como a consultoria teve acesso aos dados dos usuários. O órgão de defesa dos consumidores norte-americanos iniciaram uma investigação sobre as políticas de privacidade do Facebook para saber se houve violou um decreto de 2011 que exige notificações aos usuários sobre como a rede social usa os dados inseridos nela. Parlamentares da Europa também pediram explicações.

O Ministério da Justiça de Israel informou ao Facebook que está abrindo uma "investigação administrativa" na empresa após o escândalo. Além disso, o ministério comunicou que quer analisar "a possibilidade de violações adicionais das informações de Israel". O país vai investigar “se as informações pessoais de usuários israelenses foram ilegalmente usadas de maneira que viola seu direito à privacidade e viola as leis de proteção da privacidade nacionais", informou o ministério em comunicado.

Não sobraram nem os "colegas de startups tecnológicas". No dia 21 o co-fundador do WhatsApp, Brian Acton, aderiu ao movimento #deleteFacebook que está se espalhando pelo Twitter e estimula que os usuários apaguem seu perfil na rede social. Vale lembrar que o WhatsApp foi comprado pelo Facebook em 2014 por US$ 16 bilhões, o que torna a participação de Acton na campanha mais emblemática. 

Não é apenas uma questão de perder apoio moral. Investidores, que perdoaram meses de manchetes ruins e rumores que colocam em xeque a segurança de dados da empresa, estão ficando nervosos. Entre 16 de março e 21 de março ação da empresa negociada na Nasdaq caiu 8,5%, resultando em perdas de US$ 45 bilhões em valor de mercado. Valor suficiente para comprar o WhatsApp duas vezes. 

Apesar da desvalorização, o Facebook ainda é a empresa de capital aberto mais valiosa do mundo, mas seus acionistas estão preocupados com eventuais restrições onerosas que possam ser impostas - e afetar seu crescimento - por políticos na Europa e nos Estados Unidos, destaca a reportagem da The Economist.

Alguns investidores podem sair para nunca mais voltar. O Banco Nordea, que atende cerca de 11 milhões de clientes, se pronunciou publicamente sobre o caso e informou que não permitirá mais que sua área de investimentos sustentáveis compre ações do Facebook, após o vazamento de dados de mais de 50 milhões de perfis. O anúncio foi dado por Sasja Beslik, chefe de finanças sustentáveis do banco nórdico, em seu Twitter, nesta terça-feria (20).

A atitude do banco se dá devido às “revelações de alto nível e a turbulência em torno da empresa com uma forte reação pública, juntamente com a ameaça pendente de aumentar a regulamentação da plataforma”, disse Sasja Beslik, chefe de finanças sustentáveis do banco nórdico.  “O que nos preocupa são questões sistêmicas e como elas são gerenciadas depois que elas emergem", afirmou o executivo à Bloomberg.

Além disso, acionistas do Facebook processaram a empresa no Tribunal Federal de São Francisco no dia 20 em uma ação coletiva alegando que sofreram prejuízos após as revelações. 

O nascimento de um escândalo
A reportagem da The Economist da semana passada explica que os dados de usuários do Facebook foram obtidos por Aleksandr Kogan, um pesquisador da Universidade de Cambridge, que atraiu cerca de 270.000 pessoas para participar de uma pesquisa em troca de um pequeno pagamento.

Quando esses usuários instalaram o aplicativo de pesquisa, acabaram compartilhando informações sobre si mesmos e - sem saber - também de seus amigos, alcançando cerca de 50 milhões de perfis. O que aconteceu na sequência não era permitido pelo Facebook: o pesquisador teria repassado os dados para a consultoria que, por sua vez, compartilhou as informações com seus clientes, incluindo a campanha presidencial de Donald Trump. 

Coleta de dados para propaganda
A revista inglesa destaca que o Facebook construiu um negócio gigantesco de publicidade envolvendo a coleta de dados de seus usuários. Foram cerca de US$ 40 bilhões captados em 2017 com a coleta e venda de informações detalhadas sobre os usuários e comportamento online. O rastreamento inclui outras redes sociais de Zuckerberg, como o Instagram.

Se mostrar ofertas de sapato para alguém que segue várias páginas de lojas do segmento não é nada chocante, influenciar as publicações que aparecem para determinados perfis em prol de uma candidatura política parece bem mais sinistro, relata a The Economist.

Embora a propaganda política ainda seja minúscula em relação às receitas do Facebook - por volta de 3% -, ela segue crescendo. Mesmo sem usar ilegalmente os dados, as mídias sociais oferecem ferramentas precisas para campanhas políticas, incluindo alcançar usuários no Facebook cujos nomes, números de telefone e endereços de e-mail que eles já possuem. O Facebook também permite que as campanhas segmentem eleitores com interesse nos mesmos problemas.

Vale lembrar que a campanha de Barack Obama teve um papel digital de destaque e o Facebook foi usado de forma sofisticada para alcançar eleitores. Ainda assim, Obama tinha permissão para obter dados sobre
amigos das pessoas ao contrário dos indícios conhecidos na última semana sobre a campanha de Trump.

Posicionamentos
A consultoria Cambridge Analytica anunciou que suspendeu o CEO Alexander Nix, e fará “uma investigação completa e independente” sobre o caso. “A diretoria estará monitorando de perto a situação para garantir que a Cambridge Analytica, em todas as suas operações, represente os valores da empresa e ofereça o serviço de melhor qualidade a seus clientes”, afirmou em nota a diretoria da empresa.

Na quarta-feira (21), Zuckerberg quebrou o silêncio e disse que a maior rede social do mundo “já cometeu erros” e admitiu a possibilidade de introduzir mudanças que farão com que seja cada mais complexo reunir informação sobre os usuários e seus perfis. “Eu fundei o Facebook e sou responsável por aquilo que acontece”, disse Zuckerberg, destacando que tem trabalhado para entender exatamente o que aconteceu para que o problema não se repita. 

Ao que parece, o pedido de desculpas de Zuckerberg não é suficiente para reconquistar a confiança de usuários, investidores, políticos e órgãos reguladores. Os próximos capítulos podem ser longos e cheios de reviravoltas, especialmente se novos rumores envolvendo o compartilhamento de informações vierem à tona.

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