Ganhador do ‘Nobel da Computação’ sai do Google e alerta para rumos da IA

Em sua avaliação, há diversos riscos no horizonte, tanto na perda de empregos quanto na disseminação de informações falsas

Wesley Santana

Geoffrey Hinton é um cientista da computação, que dividiu o Prêmio Turing em 2018 com outros dois cientistas de inteligencia artificial. Foto: Reprodução/Youtube

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Considerado um dos principais estudiosos de inteligência artificial, Geoffrey Hinton decidiu abandonar seu cargo como diretor do Google no mês passado. Ganhador do Prêmio Turing 2018 (conhecido como o Nobel da Computação), em seus 10 anos de atuação na big tech, o executivo teve papel fundamental nas estratégias de AI, mas hoje se diz arrependido do trabalho que desenvolveu.

Em entrevista ao The New York Times, o cientista argumenta que deixou seu cargo no Google para que tenha liberdade de falar sobre os riscos da inteligência artificial. Neste caso, ele se soma a outros críticos do assunto, que juntos têm apontado os erros das empresas de tecnologia na busca rápida e incessante por novos produtos baseados em IA.

Hinton atuava há dez anos na Alphabet, depois que esta comprou a DNNresearch Inc., fundada por ele e dois de seus alunos por algo próximo de US$ 44 milhões. Essa startup surgiu a partir de uma pesquisa científica, feita em 2012, que construiu uma rede neural — um sistema matemático que aprende com dados — com capacidade para analisar milhares de fotos e apontar detalhes em comum.

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Os trabalhos que desenvolvia na empresa abriram caminho para ferramentas como o Google Bard e o ChatGPT. Um dos alunos envolvidos na pesquisa, inclusive, Ilya Sutskever, se tornou cientista-chefe da OpenAI.

Quando venderam, porém, não acreditavam que todas as novidades iriam aparecer em um pequeno intervalo de tempo. “A maioria das pessoas achou que estava muito longe. E eu também pensei. Achei que estava a 30, 50 anos ou até mais. Obviamente, eu não acho mais isso”, apontou.

Em sua avaliação, há diversos riscos no horizonte, tanto na perda de empregos quanto na disseminação de informações falsas. Embora faça mea-culpa sobre participação nas descobertas, diz: “eu me consolo com uma desculpa normal: se eu não tivesse feito isso, outra pessoa teria feito”, comentou ao jornal americano.

Google preocupado

Geoffrey aproveitou para comentar a disputa entre Google e Microsoft, que, acredita, só vai parar por meio de algum tipo de regulamentação global, embora acredite que isso seja quase impossível. Diferente das armas nucleares, não há como saber se empresas ou países estão trabalhando na tecnologia em segredo, comentou.

“A melhor esperança é que os principais cientistas do mundo colaborem em maneiras de controlar a tecnologia. Eu não acho que eles devam escalar isso mais até que entendam se podem controlá-lo”.

Ainda segundo Geoffrey, até o ano passado, o Google atuava como uma espécie de “guardião” da tecnologia, tomando cuidado para não desenvolver sistemas que pudessem causar dano. Mas, com a pressão da concorrente Microsoft, que adicionou o ChatGPT ao seu buscador Bing, a empresa está correndo para implantar a mesma tecnologia, já que seu principal serviço está sob ameaça.

Depois dessas afirmações, o cientista-chefe do Google, Jeff Dean, veio a público, na tentativa de suavizar as afirmações do ex-funcionário. “Continuamos comprometidos com uma abordagem responsável da IA. Estamos continuamente aprendendo a entender os riscos emergentes, ao mesmo tempo em que inovamos com ousadia”.

Hinton também usou o Twitter para tentar apaziguar a situação: “saí para poder falar sobre os perigos da IA, sem considerar como isso afeta o Google. O Google agiu de forma muito responsável”, escreveu.