Outra cilada?

Empresa “mais brasileira” da Bolsa fará grupamento de 50 ações para 1; vale a pena entrar?

Companhia irá reduzir o seu capital social para se adequar às regras de mercado da BM&FBovespa, mas atualmente, suas ações estão cotadas a R$ 0,06 e histórico do mercado brasileiro não ajuda

Por  Equipe InfoMoney

SÃO PAULO – Você pode nunca ter ouvido falar da Metalgráfica Iguaçu (MTIG3; MTIG4), mas certamente já comprou algum produto que tivesse uma embalagem da empresa que fornece latas de alimentos para Cargill, Heinz, Bonduelle e Bunge. Passando por duas crises internas e uma internacional que quase acabaram com ela em 15 anos, a companhia paranaense é a personificação da máxima “sou brasileiro e não desisto nunca”. 

Na onda de grupamentos de small caps, a Iguaçu comunicou ao mercado que fará assembleia com acionistas no dia 29 de abril para aprovar um grupamento de ações na proporção de 50 para 1. Com um papel atualmente cotado a R$ 0,06, eles passariam a valer R$ 3,00 cada. Se na teoria o preço do papel fica mais atrativo ao mercado, o que vemos na prática na Bovespa é que esses anúncios normalmente não são boa notícia nem para a empresa nem para seus acionistas. 

Um caso recente que provou-se uma verdadeira “cilada” foi o dos grupamentos da JB Duarte (JBDU4): a fabricante de bambu e eucaliptos agrupou suas ações ordinárias e preferenciais no dia 15 de dezembro, na razão de 100 para 1, tirando as cotações de ambas da incômoda região abaixo de R$ 0,10. No entanto, no pregão seguinte, as ações da companhia despencaram por volta de 50%. De lá para cá, a desvalorização chega a 41,67%. 

Se o caso da JB Duarte é considerado distante demais das “grandes empresas” da Bovespa, podemos citar a Oi (OIBR4), que no final de 2014 realizou um grupamento na proporção de 10 para 1. No primeiro pregão pós-grupamento, os papéis da companhia de telecomunicações despencaram 10%, e estenderam suas perdas ao longo de 2015.

Grupamento: fugindo da Bovespa
Em uma resposta à “ameaça” da BM&FBovespa de banir ações que valem menos de R$ 1,00 na Bolsa de Valores, muitas “penny stocks” têm anunciado grupamentos de ações, com o intuito de aumentar o valor de face de cada papel através da diminuição da quantidade de ativos negociados na Bovespa. A operação, em um primeiro momento, é vista como positiva no sentido de trazer maior liquidez para ativos que eram negociados próximos de R$ 0,01. Mas o que temos visto na prática é que os grupamentos têm aberto espaço para que aquelas ações que não tinham mais como cair simplesmente… voltassem a cair.

Para explicar isso melhor é só pensar em como funciona um grupamento. O preço da ação nestas situações não foi elevado porque mais pessoas decidiram comprar e ela se valorizou; o que ocorre, na verdade, é que o número de papéis disponíveis no mercado diminuiu. No caso da Metalgráfica Iguaçu, por exemplo, para cada 50 ações que circulam hoje, haverá apenas uma em caso de aprovação. No caso, com 312,516 milhões de ações de capital social, a companhia passará a ter 6,25 milhões. Então, o valor que cada acionista da companhia terá em mãos após a operação será igual ao que ele tinha antes, apenas o número de ações em sua carteira será menor. 

Isso significa que o mercado pode olhar para os fundamentos daquela empresa como endividamento, fluxo de caixa, Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), etc. e enxergá-la como “cara” no patamar pós-grupamento. Com isso, surge uma pressão vendedora, já que o investidor não vai querer ter em suas mãos um papel sobrevalorizado. A consequência direta deste cenário é que os papéis que quase não tinham mais para onde cair quando a ação valia perto de 1 centavo, abriram um espaço enorme para desvalorização. 

A persistente Metalgráfica Iguaçu
No caso específico da Metalgráfica Iguaçu, a empresa paranaense de 300 funcionários já caiu 85% desde a metade de 2008, quando cada ação custava R$ 0,40. Em seu último resultado, no terceiro trimestre de 2014, a empresa reportou um lucro líquido de R$ 1,5 milhão. Apesar disso, nos primeiros nove meses de 2014, a companhia acumula prejuízo líquido de R$ 4,744 milhões. 

Apanhando diversas vezes na sua história, a empresa que surgiu em 1951 só fabricava latas de óleo de soja até o ano 2000, quando os consumidores passaram a trocar as latas por garrafas PET. A Iguaçu se reinventou depois desta crise e passou a fabricar embalagens de alimentos diversos, vendendo-os principalmente para a gigante JBS (JBSS3), do empresário Joesley Batista, que era responsável por 45% do mercado consumidor da Metalgráfica. Em 2010, no entanto, a JBS comprou a Bertin, que também fabricava embalagens e passou de principal cliente a concorrente. 

A receita líquida anual da small cap paranaense, como consequência, foi caindo de R$ 92 milhões em 2010 para R$ 69 milhões em 2011 e R$ 51 milhões em 2013. Mesmo atingindo o fundo do poço, a empresa não desistiu e se reinventou novamente até ver o seu faturamento crescer 66%. “Foi quando iniciou-se a recuperação deste mercado diversificando os clientes”, explica o diretor-presidente da companhia, Rogerio Marins. 

Além disso, no início do terceiro trimestre de 2014, a Iguaçu firmou um contrato com a Metalgráfica Rojek, para fabricar a lata “Abre Fácil Rojek”, aquela usada para alimentos em conserva como azeitonas e picles. Ela responderá por 50% da receita esperada para 2015. 

A empresa também adotou algumas medidas de austeridade fiscal ao se desfazer de imóveis em São José do Rio Preto (SP) e em Palmeirinha, de Ponta Grossa (PR). Diz o comentário do balanço: “a Administração da Companhia vem empreendendo esforços significativos na adequação dos seus custos operacionais e alavancagem de vendas e margens, culminando em orçamento com perspectivas de lucros nos próximos exercícios, compensando os prejuízos acumulados em exercícios anteriores”.

Marins diz que o único objetivo do grupamento de ações é realmente fazer com que a companhia de adeque às novas exigências da BM&FBovespa. “Os objetivos da empresa continuam os mesmos expressos nos nossos balanços trimestrais”, afirma, explicando que quanto a uma possível desvalorização posterior à operação, a companhia não comentaria, já que isso depende das forças de mercado. 

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