Colunista InfoMoney: A crescente participação do Brasil na geração das IFRSs

Foi anunciada a indicação de mais um brasileiro para compor o IASB, que elabora as normas internacionais de contabilidade

Fernando Caio Galdi

O objetivo do IASB (International Accounting Standards Board), declarado em seu website – www.iasb.org -, é o de prover ao mercado de capitais mundialmente integrado uma linguagem comum para os relatórios financeiros.

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O IASB foi criado em 1 de abril de 2001, em substituição ao IASC (existente desde 1973). A criação do IASB teve como objetivo institucionalizar um órgao que emitisse normas contábeis que pudessem ser utilizadas por um amplo número de países e de empresas. Com a oficialização da adoção das normas emitidas pelo IASB pelas empresas da União Européia, esta organização ganhou força e passou a ser o principal órgão emissor de normas contábeis, superando até mesmo o FASB (emissor de normas contábeis nos Estados Unidos).

A participação do Brasil no IASB se iniciou com o ex-presidente da CVM Roberto Teixeira da Costa que era um dos 19 Trustees que compunham a fundação que criou o IASB – e que passou a chamar-se IASC Foundation (IASCF). Em sua substituição, hoje temos o ex-ministro Pedro Malan no IASCF. Outra participação relevante foi a do prof. Nelson Carvalho, que presidiu um dos importantes órgãos de apoio no organograma do IASB, o Conselho Consultivo (Standard Advisory Council – SAC), que se reúne periodicamente em Londres.

“Esses fatores representam o ganho de credibilidade do Brasil”

No último dia 30 de abril foi anunciada a indicação de mais um brasileiro para compor a estrutura do IASB, mas dessa vez a participação é no Board da instituição. Amaro Gomes, que é chefe do departamento de Normas do Sistema Financeiro do Banco Central (Bacen), será o primeiro representante latino-americano no Board IASB. Seu mandato tem a duração de cinco anos e é uma posição que exige dedicação full-time. O Board do IASB é formado por 14 membros que elaboram, discutem e votam as normas internacionais (IFRSs).

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A crescente participação de brasileiros no órgão normatizador da contabilidade internacional reflete a evolução das próprias normas brasileiras e o esforço dos pioneiros já citados e de muitos outros não citados. Adicionalmente, o bom desempenho do setor financeiro brasileiro frente à crise internacional reforçou a visão de que nosso sistema de regulação das instituições financeiras é um dos mais avançados do mundo. O comentário feito por Gerrit Zalm, que é chairman dos Trustees da IASCF reflete essa posição:

“The Trustees are delighted that Amaro Gomes has agreed to join the IASB at such an important time. His expertise and practical experience in financial reporting, particularly in the area of financial institutions, and proven record in areas of international regulatory co-operation will serve the IASB well as it responds to the global financial crisis and advances its efforts aimed at global adoption of IFRSs”.

A indicação de Amaro Gomes tem como foco sua experiência e conhecimento como regulador no sistema financeiro, mas também pode ser entendida como um posicionamento político do IASB em relação ao Brasil e ao processo de adoção das normas internacionais por aqui. Com a importância cada vez maior do Brasil no cenário internacional (Lula é o “cara”), agora temos um representante que participará ativamente na elaboração das normas internacionais. Alguns anos atrás isso era impensável.

Esses fatores representam o ganho de relevância e de credibilidade do Brasil frente aos outros países. As companhias abertas e as grandes empresas brasileiras estão em franco processo de migração para as normas internacionais. As demais empresas, principalmente as não listadas em Bolsa e não reguladas, também precisam atentar para todas essas mudanças.

A não adoção das IFRSs resultará em uma empresa que se comunicará em uma linguagem arcaica e não mais entendida pelo mercado. Isso não pode acontecer. Assim, devemos olhar essa participação dos brasileiros no IASB como uma grande oportunidade de mudança e de ganho de produtividade das empresas nacionais. Para todas as empresas.

Doutor em Ciências Contábeis pela FEA-USP, Fernando Caio Galdi é professor da FUCAPE Business School e escreve mensalmente na InfoMoney, às quintas-feiras.
fernando.galdi@infomoney.com.br