Análise de balanço

Ação do Itaú cai forte e “repete” Bradesco após resultado aparentemente bom: o que desagradou?

Aumento na formação de empréstimos inadimplentes no varejo e desaceleração no crédito foram alguns dos pontos destacados por analistas, que esperam agora resultado das iniciativas de corte de custos

SÃO PAULO – Mais um resultado aparentemente positivo, mais uma reação negativa dos investidores.

Assim como aconteceu com o balanço do Bradesco (BBDC4) na semana passada, ainda que seja em menor intensidade nesta sessão, as ações do Itaú Unibanco (ITUB4) registram baixa durante toda a sessão desta terça-feira, chegando a atingir queda de 3,62% na mínima do dia. Os papéis fecharam perto da mínima, com queda de 3,32%, a R$ 35,77. 

Despontando mais uma vez como o maior lucro do setor, o maior banco privado do País registrou ganhos de R$ 7,034 bilhões no segundo trimestre deste ano, cifra 10,2% maior que a vista no mesmo intervalo de 2018, de R$ 6,382 bilhões e ficando em linha com o consenso do mercado. 

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Enquanto isso, a rentabilidade recorrente sobre o patrimônio líquido médio do banco (ROE, na sigla em inglês) foi de 23,5% ao fim de junho, ante 23,6% em março e 21,6% um ano antes e superando os seus pares. 

Somado a isso, a instituição financeira ainda anunciou um programa de demissão voluntária (PDV). De acordo com Candido Bracher, presidente do banco, o programa deve atingir 6,9 mil funcionários.

O PDV foi visto como um movimento claro de corte de custos do mercado o que, na avaliação do Credit Suisse, foi claramente um dos principais fatores que desapontaram no rival Bradesco.

Assim, apontam os analistas, o banco deve entregar um crescimento de despesas operacionais (opex) abaixo da inflação nos próximos anos e que esta deve ser uma fonte para aumento de lucros. 

Contudo, mesmo com o balanço do banco não apresentando grandes surpresas, a tendência em algumas linhas do resultado desagradaram e deram sinais sobre os desafios que a empresa terá que enfrentar. 

Em comentário de resultados, André Martins, da XP Research, destacou que o banco permanece atrás de seus pares privados em termos de crescimento de carteira e margem com clientes.

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Com relação ao último ponto, o crescimento ficou abaixo do intervalo inferior das projeções do primeiro semestre de 2019 (realizado de 6,7% versus 9% esperado). 

Durante a teleconferência, o banco também destacou que vê sua carteira de crédito crescendo perto do piso das suas estimativas em 2019, em meio às revisões para baixo nas projeções para a expansão da economia brasileira.

Também do lado negativo, a XP ressalta que, embora o segundo trimestre não tenha sido ruim para as tarifas de serviços (alta de 5% versus o primeiro trimestre), a Rede destacou-se com queda de receita de 21,4% na comparação anual, mostrando que a “guerra das maquininhas” segue afetando o setor como um todo.  

Além disso, aponta o Goldman Sachs, Rede pareceu perder fatia de mercado apesar dos descontos de preço agressivos anunciados durante o trimestre. 

O aumento na formação de empréstimos inadimplentes no varejo também foi uma decepção, conforme escreveu o analista Rafael Frade, do Bradesco BBI. “Bons resultados operacionais, mas a qualidade do crédito não foi tão forte”, destacou em relatório. 

Um gestor ouvido pelo InfoMoney também apontou outro movimento dentro do setor financeiro ocorrido na noite da véspera para justificar a queda das ações não só do Itaú, mas também de outros bancos, notoriamente o Bradesco (BBDC3;BBDC4) e Santander Brasil (SANB11). 

Trata-se do aporte bilionário do Softbank no Banco Inter (BIDI11), que faz as ações do banco digital mineiro saltarem até 21% nesta sessão, ao mesmo tempo em que gera preocupação nos incumbentes. Isso porque os assuntos “disrupção” e “competição” registram cada vez mais uma tração maior. 

“O mercado entrou num momento difícil com bancos, sobre a capacidade dos mesmos de manter rentabilidade e concentração de mercado pra frente em meio a tantas transformações”, aponta. 

Nem tudo é ruim…

O gestor destaca, contudo, que o resultado em si foi neutro, sendo a inadimplência de pessoas físicas o que mais preocupou, enquanto as notícias positivas vieram do aumento da carteira de varejo e também das iniciativas de controle das despesas. 

A margem financeira com clientes cresceu 2,8% com a expansão das carteiras de crédito de pessoas físicas e de micro, pequenas e médias empresas. 

Além disso, houve o aumento de 5,1% da receita com prestação de serviços em função de maiores ganhos com administração de fundos e serviços de assessoria econômico-financeira.

Em relatório, o Brasil Plural avaliou que, à primeira vista, os resultados do Itaú ficaram um pouco piores do que o esperado pelos analistas do banco.

Entretanto, em uma análise mais profunda, os especialistas destacam que os números os deixaram “muito mais otimistas”, particularmente com as principais tendências de negócios apontando para melhor segundo semestre, com ganhos provavelmente acelerando um pouco mais rápido.

Para tanto, os analistas apontam tanto a tendência de crescimento do crédito para pessoas físicas e PMEs.

Enquanto isso, a margem financeira (NII, na sigla em inglês) com clientes – que desacelerou de 7,6% no primeiro trimestre para 5,8% no segundo, abaixo do guidance entre 9% e 12% -, teve queda principalmente por conta de menores resultados de capital de giro após o grande pagamento de dividendos em março (referente a 2018) e à redução na curva de juros que afetou a taxa média de capital de giro.

Para o Brasil Plural, o banco deverá chegar pelo menos no limite inferior de 9% do guidance. Isso deve ocorrer em meio ao cenário de aumento da margem para os clientes principais e com os pagamentos de dividendos menos concentrados no segundo semestre. 

Olhando para o curto prazo, o foco dos analistas ficará no controle mais rigoroso de custos, que deve compensar a fraqueza nas receitas de serviços, escreveram os analistas do Safra Luis Azevedo e Silvio Doria. Eles reafirmaram a recomendação outperform (desempenho acima da média do mercado) para a ação. 

Assim, os investidores se dividem entre as perspectivas de corte nos custos e os desafios que o banco enfrentará em meio à “era da disrupção”.

Isso se reflete nas recomendações para as ações do Itaú: enquanto 11 casas de análise recomendam compra, 8 recomendam manutenção e apenas 1 venda. Desta forma, por enquanto, os investidores estão cautelosos com o setor, o que se reflete no desempenho das ações pós-balanço. 

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