6 eleições importantes para acompanhar em 2024

Diversas disputas presidenciais podem alterar a balança de poder na geopolítica global e regional

Roberto de Lira

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A política internacional promete fortes emoções em 2024, com várias eleições presidenciais que podem mudar o mapa das relações bilaterais, os rumos de economias relevantes no cenário global e reequilibrar a balança de poder em termos regionais e até mundiais. O InfoMoney listou seis das principais disputas agendadas, que devem mexer com os mercados e trazer volatilidade aos preços dos ativos.

Da definição do futuro ocupante do Salão Oval na Casa Branca, que pode ter até a volta do republicano Donald Trump, passando por uma estratégica escolha da população de Taiwan – sob a  vigilância da China -, e até uma praticamente definida manutenção de Vladimir Putin à frente da Rússia, o ano terá ainda disputas no México e Uruguai que interessam ao Brasil.

Taiwan

Tapei, capital de Taiwan (Foto: Getty Images)

Embora Taiwan possa não figurar como a mais importante das eleições de 2024, o futuro da pequena nação insular, cuja eleição está marcada para 13 de janeiro, envolve simplesmente o interesse das duas maiores potências globais: os Estados Unidos e a China.

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O regime de Pequim tem insistido no objetivo de recuperar o território, dentro de sua diretriz de “Uma China” e já chegou a considerar o uso da força para reintegrar a região, que é independente desde que os nacionalistas comandados por Chiang Kai-shek lá se instalaram, após a Revolução Chinesa.

Num artigo recente para a revista The Diplomat, Robert Sutter, professor de Assuntos Internacionais na Elliott School da George Washington University, dimensionou a importância estratégica de Taiwan para os EUA lembrando o esforço da China para minar o poder e a influência americana e consolidar seu domínio na Ásia.

Outro ponto sensível citado é a tentativa de Pequim de conseguir o domínio nas indústrias de alta tecnologia do futuro – Taiwan é a grande fornecedora global de microchips. “Tal domínio tornaria os Estados Unidos subservientes à China do ponto de vista econômico, porque essa tecnologia é essencial para a segurança nacional moderna, também do ponto de vista militar”, escreveu.

Segundo a imprensa local, há evidências crescentes que a China tem procurado influenciar a opinião pública de Taiwan por meio de campanhas de desinformação contra o atual governo, visando especialmente o público mais jovem que utiliza a rede TikTok, de propriedade chinesa. O aplicativo está proibido em dispositivos emitidos pelo governo.

O quadro eleitoral espelha essas diferentes visões e a tensão constante no Estreito de Taiwan, constantemente sob a vigilância de navios de guerra chineses.

O líder nas pesquisas é o atual vice-presidente Lai Ching-te (conhecido no país como William Lai), do Partido Democrático Progressista (DPP, na sigla em inglês), o mesmo da atual presidente, Tsai Ing-wen, que chega ao final de seu segundo mandato e não pode mais se candidatar.

O DPP tem estreitado relações com os Estados Unidos, o que desagrada a China, que embora não o faça abertamente, apoia a oposição representada pelo Kuomintang (KMT), que apresentou Hou Yu-ih como seu candidato. Na questão diplomática, as futuras ações de Yu-ih já ficam claras na estratégia dos “3 Ds” sugeridas por ele: dissuasão, diálogo e desescalada. Ou seja, ele defende que o atual estágio de tensões está diretamente relacionado com as opções adotadas pelo DPP.

Uma novidade na disputa é a emergência do Partido Popular de Taiwan (TPP, na sigla em inglês), cujo candidato Ko Wen-je, o popular ex-prefeito da capital Taipei, é abertamente favorável à independência do país, mas também tem evitado da declarações hostis à China.

O partido tem crescido entre os mais jovens e tenta capitalizar a insatisfação com os tradicionais DPP e KMT, concentrando-se em questões internas, como custo de vida, estagnação da renda e acesso à habitação.

Os analistas locais atribuem o ligeiro favoritismo do DPP (William Lai teria hoje cerca entre 35% e 38% dos votos) exatamente à força emergente do TPP, que divide a oposição ao governo. Mas o partido do governo ainda sofre com o desgaste político de acusações de assédio sexual contra vários de seus dirigentes e com as queixas contra a reforma trabalhista promovida por Lai quando ele foi primeiro-ministro, entre 2017 e 2018.

Rússia

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, favorito nas eleições (Kremlin/Divulgação)
o presidente da Rússia, Vladimir Putin (Kremlin/Divulgação)

Entre os dias 15 e 17 de março será a vez de a Federação Russa votar para presidente e praticamente ninguém arrisca outro prognóstico senão a reeleição de Vladimir Putin, no poder há mais de duas décadas. Putin assumiu o governo russo em 1999 como presidente interino, após a renúncia de Boris Iéltsin.

Ele foi eleito ao cargo pela 1ª vez em 2000 e venceu as disputas seguintes em 2004, 2012 e 2018. Putin já é o líder mais longevo do país desde Josef Stalin, que foi secretário-geral do Partido Comunista da antiga União Soviética de 1922 a 1952 e exerceu o cargo de premiê entre  1941 a 1953.

Analistas e observadores internacionais mantêm sérias dúvidas sobre a transparência do processo eleitoral do país, mas a Comissão Eleitoral Central da Rússia (CEC, na sigla em inglês) informou na semana passada que recebeu até agora candidaturas de 16 candidatos para serem oficialmente registados como participantes.

Pelas regras, candidatos podem apresentar seu nomes até de maneira independente na disputa – se a indicação de um partido – mas para isso é preciso recolher, no mínimo, 300 mil assinaturas de eleitores.

Na verdade, não há espaço para uma oposição da Rússia, pois quase todas as figuras críticas ao atual regime estão presas ou exiladas. O maior líder dos políticos contrários a Putin, Alexei Navalny, por exemplo, estava cumprindo pena de mais de 30 anos de prisão, mas seu paradeiro é desconhecido há mais de 15 dias.

Quem ainda se atreve a comentar sobre a política doméstica afirma que Putin pretende transformar a eleição numa espécie de referendo de apoio à guerra na Ucrânia, que deverá completar dois anos em fevereiro.

Aliás, o governo já anunciou que as 4 regiões ucranianas anexadas por Moscou: Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson serão consideradas parte integrante do território russo e sua população poderá votar em março.

Segundo a agência Reuters, os desafios econômicos de Putin para um provável próximo mandato são numerosos, mas superáveis. As sanções imposta ao país após a invasão trouxeram alguns problemas relacionados à escassez de mão de obra, inflação e consequentes altas taxas de juros, mas o próprio Putin disse recentemente que a economia deverá crescer 3,5% em 2023.

A Rússia redirecionou suas exportações de petróleo para destinos como a China e a Índia e utilizou rotas e frotas paralelas para transportar suas commodities e conseguiu até surfar na alta das cotações que a própria guerra causou. Em novembro, por exemplo, as receitas de energia contribuíram com 961,7 bilhões de rublos (US$ cerca de 10,4 bilhões) para os cofres públicos.

Mas ainda problemas como o rublo fraco em relação ao dólar, a inflação elevada e as taxas de juro no horizonte de Putin, fatores que ajudam a reduzir o poder de compra das famílias e que podem reduzir um pouco a adesão à sua candidatura em março.

México

(Pixabay)

A população do México vai às urnas no dia 2 de junho, provavelmente para escolher a primeira mulher a governar o país em sua história.

A favorita é a ex-prefeita da Cidade do México, Claudia Sheinbaum, candidata pelo Movimento Regeneração Nacional (Morena), o partido de esquerda ao qual pertence o atual presidente Andrés Manuel López Obrador, conhecido como AMLO.

A agência AP destacou em um perfil que Sheinbaum tem formação como cientista ambiental, e se situa à esquerda do espectro ideológico, tendo frequentemente elogiado os discursos de López Obrador contra as políticas econômicas neoliberais dos presidentes mexicanos anteriores, culpando-os pela enorme desigualdade e pelos elevados níveis de violência do país.

Contra a candidata do Morena, a Frente Ampla pelo México (coligação que une os partidos PAN, PRI e PRD) lançou a candidatura da senadora de origem indígena Bertha Xóchitl Gálvez. As pesquisas mais recentes têm dado uma vantagem de cerca de 20 pontos para Sheinbaum.

Samuel García, governador do estado fronteiriço de Nuevo León, que se apresentava como uma espécie de terceira via na eleição pelo Movimento Cidadão, desistiu de sua candidatura em novembro, após patinar durante meses em 10% das intenções de voto nas pesquisas.

A favor da candidata governista está a excelente aprovação da gestão de AMLO nos últimos cinco anos, superior a 60%, uma das melhores avaliações da história do país.

O apoio pode ser medido também pelos resultados eleitorais mais recentes – entre 2021 e 2023 – quando o Morena ampliou sua hegemonia nos governos dos Estados, ocupando hoje o comando de 22 das 32 províncias, que respondem por 68% do PIB nacional e 69% da população. A oposição governa nove estados e o Partido Verde Ecológico (PVE), aliado do Morena, está no poder em San Luís Potosí.

No Congresso, o Morena reduziu sua maioria entre os 500 deputados na legislatura 2021-2024, ocupando 202 cadeiras (eram 252), mas consegue governar por maioria simples graças ao partidos aliados.  

AMLO fez uma administração marcada pelo que chamou de “Quarta Transformação” (“4T”) do país, imprimindo reformas no setor de energia, socias e trabalhistas, entre outras. Aliás Sheinbaum já prometeu continuar com essas políticas, acrescentando um apoio crescente a projetos de mudança energética e a causas feministas.

Foi na economia que o atual presidente ele conseguiu apresentar os melhores resultados. Segundo o Centro Estratégico Lationoamericano de Geopolítica (Celag) na gestão de AMLO, a taxa de pobreza caiu de 41,9% da população para 36,3%, ou seja, cinco milhões de pessoas deixaram a linha de pobreza desde sua posse.

Pode parecer pouco, mas isso ocorreu num período que incluiu a pandemia de covida-19 e efeitos da guerra da Ucrânia nas contas públicas. E como comparação, a pobreza havia crescido nas presidências de Enrique Peña (2012-2016) e Felipe Calderón (2006 – 2012).

Desde 2022, o México cresce mais de 3% ao ano, com uma moeda fortalecida em relação ao dólar, perdendo em termos de valorização apenas para o real brasileiro. E a relação dívida/PIB está controlada: em 2018, foi de 43,6% e, em 2023, de 44%.

Uruguai

Bandeira do Uruguai (Crédito: Shutterstock)

Uma disputa eleitoral que deve interessar particularmente ao governo brasileiro é a do Uruguai, marcada para 27 de outubro. A manutenção no poder da Coalizão Multicolor, do atual presidente de centro-direita Luis Lacalle Pou, poderia isolar Luiz Inácio Lula da Silva na região, especialmente entre os sócios do Mercosul, ainda mais depois da vitória do ultraliberal Javier Milei na Argentina em novembro passado.

O atual governo tem insistido em flexibilizar regras do Mercosul que permitam a assinatura de um acordo bilateral coma China, mas sempre encontrou resistência por parte de Brasil e Argentina. A troca de poder na Argentina poderia pender a balança para alguma mudança mais radical, caso a centro-direita vença novamente no Uruguai.

Somente após as primárias (“internas”) dos partidos, em junho, serão oficialmente anunciados os candidatos de cada força política. Mas como Pou não pode se candidatar a um segundo mandato consecutivo, as apostas são que o candidato oficial será o atual secretário da Presidência, Álvaro Delgado. Contra ele, deverá concorrer o professor de história e prefeito de Canelones, Yamandú Orsi.

Um fato inusitado é que as internas estão marcadas para 30 de junho, bem no meio da disputa da Copa América de futebol, o que pode provocar um pedido de antecipação, uma vez que em ocasiões similares, como na Copa do Mundo de 2014, a participação na votação foi inferior a 40%.

As pesquisas mais recentes apontam Orsi como favorito, uma vez que a Frente Ampla tem a preferência de 43% da população, ante 18% de Delgado. Uma vitória significaria o retorno da Frente Ampla ao poder, onde esteve entre 2005 e 2020, com duas gestões de Tabaré Vásquez e uma de José “Pepe” Mujica, que já disse considerar Orsi como um sucessor.

Mas analistas políticos tem comentado na imprensa local que ainda falta muito tempo para a eleição e que a administração de Pou é bem avaliada. De fato, sua aprovação alcançava 48% dos uruguaios, ante uma desaprovação de 32%, segundo um levantamento feito pela Equipos Consultores no final de outubro.

Mas ainda não se sabe a extensão dos danos que um escândalo envolvendo um narcotraficante pode trazer para a eleição. O criminoso foragido Sebastián Marset contou detalhes num vídeo de como conseguiu obter um passaporte do país para entrar nos Emirados Árabes Unidos. A entrevista já derrubou dois ministros e outros integrantes do alto escalão do governo.

Orsi cumpre seu segundo mandato à frente de Canelones, o segundo departamento mais populoso do Uruguai, atrás de Montevidéu (1,3 milhão), com quase 600 mil habitantes – o Uruguai tem pouco mais de 3,3 milhões de habitante. A região que governo tem alta produção agrícola e, nos últimos anos, recebeu fortes investimentos de empresas tecnológicas e farmacêuticas, entre outras.

Ele também tem criticado o que considera uma “obsessão pelo encolhimento do Estado” da atual administração e que as mensagens do país para a política externa estão demasiado condicionadas pela política interna.

Já Delgado tem defendido os vários acertos do governo, em especial o enfrentamento da pandemia de coronavírus, assim como as respostas aos efeitos econômicos da guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Ele tem dito que o atual governo recebeu “um país avariado” pela esquerda representada pela Frente Ampla e que precisou voltar a colocá-lo em operação.

Estados Unidos

Joe Biden e Donald Trump devem repetir disputa de 2020 (Reprodução)

A eleição mais aguardada por todos é a que praticamente fecha o ano das disputas: em 5 de novembro, os Estados Unidos vão escolher seu próximo presidente. E tudo indica que será uma reprise do confronto entre o presidente Joe Biden e seu antecessor, Donald Trump. Ele ainda vão precisar enfrentar meses de viagens, discursos e eventos de arrecadação de recursos, mas são amplos favoritos para conseguir a indicação pelos partidos democrata e republicano.

O ano começa já com os republicanos na “caucus” de Iowa, em 15 de janeiro, e nas primárias de New Hampshire, no dia 23, que vão inaugurar oficialmente a campanha presidencial de 2024. Os mais fortes concorrentes de Trump no partido (o governador da Flórida, Ron DeSantis e  a ex-governadora da Carolina do Sul e ex-embaixadora dos EUA na ONU Nikki Haley), no entanto, não chegam a fazer sombra ao ex-presidente nas pesquisas.

Trump tem redobrado as apostas que fez na campanha vitoriosa de 2016, na sua gestão e também na corrida de 2020, quando perdeu ara Biden: um foco extremado anti-imigração, uma valorização das indústrias locais e uma retórica anti-China cada vez mais forte. Mas também mira suas armas num dos pontos mais sensíveis da administração Biden, a economia.

Para Luiz Cezario, economista chefe da Asset 1 Investment, as eleições americanas de 2024 serão um divisor de águas para definir o cenário econômico  para os EUA no restante desta década.

“A atual política fiscal americana é insustentável e, se não for corrigida a partir de 2025, levará a um forte aumento do endividamento do governo americano e manterá a inflação e as taxa de juros mais elevadas nos próximos anos”, alertou.

Por isso, ele disse acreditar que o processo eleitoral que se iniciará em breve nos EUA definirá qual a probabilidade do próximo governo americano iniciar um processo de consolidação das contas públicas que aponte para uma dinâmica mais sustentável da dívida.

Segundo ele, os resultados das primárias republicanas e a decisão de Biden sobre sua eventual candidatura à reeleição serão eventos muito importantes para as perspectivas de um ajuste fiscal nos EUA. “Avaliamos que uma disputa entre Biden e Trump seria o pior cenário para a economia americana porque os mercados atribuiriam baixa probabilidade de os EUA fazerem um ajuste fiscal sério a partir de 2025”, argumentou.

Ele lembra que Trump ampliou o déficit fiscal com cortes agressivos de impostos, mesmo com a economia a pleno emprego. E o governo Biden, por sua vez, foi responsável pela atual deterioração das contas públicas, com uma política de forte crescimento das despesas e concessões de benefícios tributários para investimentos na agenda verde.

“Logo, deveríamos esperar que um eventual governo “Trump II” buscaria implementar uma nova agenda de cortes agressivos de impostos e maior controle sobre os gastos públicos. E um novo governo Biden provavelmente manteria uma política fiscal baseada na forte expansão dos gastos públicos e aumento da carga tributária”, disse.

Por outro lado, Cezario analisa que a escolha de um candidato republicano mais moderado, ou uma eventual desistência de Biden com a escolha de um candidato democrata mais ao centro do espectro político poderiam gerar maior esperança de que o próximo governo buscaria reduzir o desequilíbrio das contas, o que ajudaria a diminuir a incerteza fiscal nos EUA e melhorar as perspectivas econômicas para os próximos anos.

Para o The Wall Street Journal, além dos desafios econômicos e fiscais, o atual esforço para ajudar os aliados em duas guerras (Ucrânia e Israel) está em jogo no Capitólio. Isso sem contar sobre as investigações sobre seu filho Hunter, que podem até levá-lo à cadeia.

Pelo menos nesse front criminal, Trump também está às voltas com um processo de fraude fiscal. E ainda deve ter sua provável candidatura sendo passada pelo crivo da Suprema Corte, após um tribunal superior do Colorado tê-lo considerado inelegível por ter contribuído para a invasão do Capitólio em janeiro de 2021.

A XP investimentos lembra que a disputa parlamentar é também importante nos EUA, já que a maioria no Congresso será essencial para a capacidade do próximo governo de implementar sua agenda. “A corrida será altamente disputada e, apesar de considerarmos muito cedo para fazer previsões, pesquisas iniciais mostram leve vantagem para o partido Republicano”, diz relatório, destacando que há cerca de 11 meses de corrida eleitoral pela frente e que o cenário ainda pode sofrer mudanças. “De todo modo, o ano eleitoral tende a manter a política fiscal expansionista, deixando as incertezas fiscais elevadas e os preços dos ativos voláteis.”

Venezuela

A Venezuela também tem eleições presidenciais marcadas para 13 de outubro de 2024, um anúncio que fez parte do Acordo de Barbados, que possibilitou o levantamento de parte das sanções econômicas ao país determinado pelos Estados Unidos. No entanto, as informações sobre o processo eleitoral até aqui têm se mostrado pouco transparentes.

O candidato natural da situação é Nicolás Maduro, na presidência desde 2012 e que tem perseguido e calado a oposição ao regime desde pelo menos 2015. Sua reeleição em 2018 foi tão polêmica que o resultado não foi reconhecido, entre outros, pela oposição, OEA, União Europeia, Estados Unidos e Brasil, na época governado por Michel Temer.

A maior opositora de Maduro é a liberal María Corina Machado, mas embora ela tenha recebido mais de 90% dos votos nas primárias de outubro, a política de centro-direita está no momento inabilitada a concorrer a cargos públicos, pois perdeu os direitos políticos por 15 anos por decisão da Controladoria Geral da República proferida neste ano. O poder judiciário venezuelano é amplamente controlado pelas regime bolivariano de Maduro.

Uma pesquisa da empresa Meganálisis divulgada em agosto mostrou que 76,1% dos entrevistados não votariam em Maduro numa eleição. E que Machado, do partido Vente Venezuela, derrotaria o candidato chavista por quase 40 pontos percentuais (50,1% contra 12,1%). Para a ORC Consultores, a vantagem seria e 47,2% a 13,5% para a candidata da oposição.

Enquanto ainda tenta uma decisão que lhe permita entrar na disputa, María Corina aproveitou uma entrevista com o jornal argentino Clarín para dizer que representa a liberdade para a Venezuela, assim como o presidente Javier Milei o faz para a Argentina. Ela disse ter um projeto liberal para um país onde “foi criado o costume do paternalismo estatal”.

Os EUA acompanham com interesse o desenrolar desse caso. Na semana passada, ao responder perguntas sobre o processo de troca de prisioneiros entre EUA e Venezuela, Joe Biden disse a jornalistas que “parece que Maduro, até agora, mantém o seu compromisso com eleições livres, embora ainda não o tenha feito”. O presidente americano previu “um longo caminho a percorrer”.

Um outro ponto de atenção é a atual crise da disputa entre Venezuela e Guiana sobre a região petrolífera do Essequibo, uma vez que uma escalada de tensões poderia interromper o processo eleitoral.