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Museu Nacional: impacto de incêndio é irreversível e poderia ter sido facilmente evitado

"Estamos pensando como vamos recuperar o Museu Nacional no sentido de instituição, que tem que continuar. Agora começa um novo momento, com novas obras e coleções; não tem como resgatar o que se perdeu", diz  Andrey Schlee, presidente substituto do Iphan

Museu Nacional do Rio de Janeiro
(Wikipedia)

SÃO PAULO – O Museu Nacional do Rio de Janeiro, mais antiga instituição científica do país, foi atingido por um incêndio na noite do último domingo (2). Grande parte da estrutura do palacete real virou cinza, mas para Andrey Schlee, presidente substituto do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), o acervo do museu representa uma perda muito maior para a sociedade brasileira. “Temos percebido muitas referências à família Real, mas o valor desse acervo ultrapassa o fato da presença real ali. É muito maior a perda e sobretudo as informações científicas que hoje estão perdidas”, diz.

Sobre os documentos da época do Império, fósseis, coleções de minerais, artefatos greco-romanos e a maior coleção egípcia da América Latina, especialistas concordam que não há como recuperar o que foi perdido. “O impacto é irreversível, porque os restos das escavações sobre a Luzia, que é o espécime humano mais antigo das Américas, por exemplo, foi destruído. Foi perdido praticamente todo o acervo de arqueologia do museu, que inclui o acervo de etnologia. Nele estavam os restos ‘Botocudos’, dos quais foram extraídos há alguns anos DNA de espécimes do século 18 e utilizados para criar um link genético entre populações da Oceania e da América do Sul”, afirma o arqueólogo Gerson Levi Lazzaris, do Departamento de Antropologia da Vanderbilt University, no Tennessee (EUA).

Com grande parte do acervo degradado, o momento agora é de elaborar propostas que consigam reerguer esse patrimônio cultural. “Estamos pensando como vamos recuperar o Museu Nacional no sentido de instituição, que tem que continuar. Agora começa um novo momento de sua história, com novas obras e coleções; não tem como resgatar o que se perdeu”, conta Schlee.

Além do fóssil de "Luiza", dentre os  itens mais conhecidos do museu estavam o esqueleto de um dinossauro encontrado em Minas Gerais e o maior meteorito já encontrado no Brasil, chamado de Bendegó, que pesa 5,36 toneladas e foi achado em 1784, no sertão da Bahia. Apesar de ter resistido ao incêndio, Lazzaris explica que o item pode ter sofrido alterações na composição físico-química. “Qualquer matéria exposta ao calor intenso tem alguma alteração de superfície ou de seu núcleo”, diz.

Também faziam parte do museu a maior coleção de múmias egípcias da América Latina (de crianças, adultos e animais); documentos brasileiros, como a Lei Áurea; Trono de Daomé (do rei africano Adandozan); coleção de arqueologia clássica; artefatos de civilizações ameríndias, entre outros.

Acidente poderia ter sido evitado

Na opinião de Lazzaris, o caso traz diversas perguntas e poucas respostas. “Houve uma cadeia de omissões dentro da gestão pública. Não houve participação público-privada para solucionar isso. Tudo foi por demanda, nada de forma participativa. E seguramente o Ministério Público Federal vai verificar as causas, mas, independentemente das investigações e de uma conclusão, nós já sabemos o resultado: perdemos uma parte significativa da memória do nosso país - e isso é irreversível, ninguém da alçada pública deveria ter feito isso”, afirma.

O especialista explica que a Constituição Federal prevê um Plano Nacional de cultura que protege os bens arqueológicos, patrimoniais, culturais, artísticos e de referência para o Estado-Nação brasileiro, o que não foi seguido. “O que a gente vê é que a União não cumpriu a obrigação dela de proteger esse patrimônio”, diz.

Segundo ele, houve a possibilidade de que o acidente fosse evitado, uma vez que os funcionários sabiam da existência de materiais inflamáveis no museu e da política de retirada - que não foi implementada. Em segundo lugar, ele destaca o papel do governo de deixar a instituição nas mãos da UFRJ que, de acordo com Gerson, também tem problemas orçamentários graves. “Colocaram uma cascata de gestão, de unidade gestora, que faz com que os recursos nunca cheguem no Museu Nacional, já que passam primeiro pela universidade. Então essa centralização tem que ser estudada também”, diz.

Investimentos vieram tarde demais

Em junho, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) assinou um contrato de financiamento no valor de R$ 21,7 milhões para apoio à restauração e requalificação do Museu Nacional.

Os recursos, que fazem parte da terceira fase do Plano de Investimentos para a revitalização do museu, tinham como objetivo garantir a recuperação física do prédio histórico, recuperar os acervos e os espaços expositivos, assim como revitalizar o entorno do museu. O dinheiro, porém, não chegou a ser investido em função da legislação eleitoral, que não liberou os valores. 

“A reforma do Museu Nacional foi postergada, como tudo vem sendo postergado em relação à cultura no Brasil - na parte arqueológica, ainda mais”, afirma Lazzaris. O  arqueólogo explica que o governo colocou muito dinheiro para construir e modernizar tanto o “Museu do Amanhã” como o “Porto Maravilha”, e acabou deixando de lado “o mais importante que temos de referência histórica nacional e na formação da identidade brasileira, que é o Museu Nacional”.

Andrey Schlee afirma que tem percebido um recuo do ponto de vista geral, nos investimentos e na importância dada à cultura. “Tem que mudar essa chave para apostar e colocar a cultura como prioridade no desenvolvimento nacional. Se não mudarmos e acreditarmos que a cultura muda, vamos continuar lamentando eventos terríveis como esse”, diz.

De acordo com o jornal O Globo, o Museu Nacional deveria receber R$ 515 anuais da UFRJ, em três parcelas. Nos últimos três anos, porém, a fração final não foi repassada. “De fato, não é possível que um museu consiga se manter com apenas 10% de seu valor destinado à manutenção, ou seja, com apenas R$ 50 mil por ano”, afirma Schlee.

O incêndio

O incêndio no museu mais antigo do país durou seis horas. Para apagar as chamas, cerca de 80 homens de 12 quartéis do Corpo de Bombeiros foram acionados - que tiveram dificuldade para combater o fogo por falta de água nos hidrantes próximos ao edifício e tiveram que apelar para caminhões-pipa. “Infelizmente a reserva técnica, que esperávamos que seria preservada, também foi atingida. Teremos que esperar o fim do trabalho dos bombeiros para verificar realmente a dimensão de tudo”, afirmou à Agência Brasil João Carlos Nara, diretor de Preservação do Museu Nacional.

Construído em 1818 por D. João VI, o museu completou 200 anos em junho e tem 20 milhões de itens, com coleções focadas em paleontologia, antropologia, etnologia biológica, entre outros. Desde 1946, o museu é vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, o que traz ao acervo um perfil mais acadêmico e científico.

Com a idade e falta de manutenção adequada, rachaduras, infiltrações e fios elétricos à mostra marcam presença nas salas do palacete real. Há anos, o museu vem passando por dificuldades geradas pelo corte no orçamento para a sua manutenção, e alega que desde 2014 não recebe a verba anual de cerca de R$ 500 mil, dificultando a conservação do ambiente.

Em maio deste ano, pouco antes do museu completar o bicentenário, o diretor da instituição, Alexander Kellner, criticou a falta de verbas. Em entrevista à Folha de S. Paulo, ele afirmou que seria necessário investir R$ 300 milhões ao longo de uma década para executar o Plano Diretor do museu.

No período da celebração, cerca de um terço das salas de exposição estavam fechadas ao público. Para reabrir uma das mais populares, a que continha um esqueleto de baleia jubarte e o Maxakalisaurus, primeiro dinossauro de grande porte já montado no Brasil, e que fora interditada após um ataque de cupins, o museu organizou uma campanha de “vaquinha virtual” e arrecadou R$ 58 mil - 48% acima do esperado.

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