Personagens do Mercado: Carlos Slim e a simplicidade da maior fortuna do mundo

A história do mexicano que, sem luxo e tecnologia, mas com gestos simplórios e faro de comércio, se tornou o homem mais rico

SÃO PAULO – Muitos nascem em berço de ouro, porém o Toque de Midas é exclusivo a predestinados.

A afirmação explica como Carlos Slim Helú, mexicano de origem libanesa, emergiu de comerciante local para se tornar o homem mais rico do mundo, conforme a lista da revista Forbes, com fortuna estimada de US$ 53,5 bilhões.

A história do comerciante inicia-se em 1948 quando, com somente oito anos, começa a ajudar seu pai na loja “Estrella do Oriente”, próxima ao Palácio Nacional, na Cidade do México. Aos 12 anos, abriu uma conta bancária com US$ 400,00 – fruto da venda de doces a seus primos, durante os almoços de família aos domingos.

Seis anos depois, Slim entra na Unam (Universidad Autónoma Nacional de México) e sai graduado em engenharia civil, dando monitoria de Álgebra e Programação Linear durante sua estadia na universidade.

Em 1960, aos 21 anos e recém-formado, o comerciante se casa e recebe um terreno de seu pai. Ao invés de construir uma casa luxuosa para sua nova família, Slim vende o terreno a uma construtora e recebe apartamentos em troca, explicitando sua primeira fonte de enriquecimento: o setor imobiliário. 

Dos terrenos ao maior conglomerado latino-americano
Entre 1965 e 1969, o mexicano compra terrenos e condomínios na Cidade do México, para depois vendê-los mais caros, sempre com o faro de comerciante. Prestes a completar três décadas de existência, Slim já possuía mais de um milhão de metros quadrados na capital mexicana.

Com fortuna de aproximadamente US$ 400 mil proporcionados por patrimônio familiar e investimentos em bolsa – Slim já era acionista do Banamex aos 15 anos –, o mexicano continua sua escalada e adquire diversas empresas nos setores imobiliário, de construção civil e de engarrafamento de bebidas.

No entanto, mesmo com várias empresas na manga, o comerciante queria mais. Para ver sua fortuna crescer exponencialmente nos anos conseguintes, Slim precisou remar contra a maré e, quando chegou na praia, deu uma tacada infalível – a qual responde por grande parte de sua riqueza atual.

Em 1982, segue os conselhos de um tal Warren Buffett – investidor bilionário e um dos gurus de Slim –, sobre como obter pechinchas em épocas adversas e, em plena crise mexicana, vai às compras sem medo: adquire lojas de varejo, mineradoras, fábricas de cabos, de charutos, além de diversas outras. Estava dado o início do conglomerado que fatura US$ 8,5 bilhões por ano atualmente.

Home run telefônico
Na década seguinte, acumulou empresas e formou durante a crise o Grupo Carso, cujo nome é montado com as três primeiras letras de seu nome e as duas primeiras do nome de sua mulher, Soumaya Domit Gemayel. O grupo realiza seu IPO (Initial Public Offering) em 1990. Contudo, o fanático por beisebol não fez apenas um home run no ano.

A segunda – e mais importante – rebatida de sua carreira foi a aquisição da “Telefones de Barra Mansa”, privatizada pelo governo mexicano. A compra da empresa, que estava em plena decadência, ocorre em parceria com a Southwestern Bell e a France Telecom e, anos após, se transforma nos diamantes de Slim: a América Movil e a Telmex.

A América de um mexicano
Durante a década de 1990, o comerciante expande seus negócios por toda a América, com participações nas maiores empresas de telecomunicações de todo o continente. No Brasil, controla a operadora de celulares Claro e a Embratel, além de possuir participação na NET, adquirida da Glopobar.

Na maior economia do mundo, diversifica seus investimentos com participações na Philip Morris e na Saks Incorporated. Tornou-se o maior acionista da MCI, a segunda maior operadora de telefonia de longa distância norte-americana. Vale lembrar que Slim addquiriu cerca de 3% da Apple Computer e um ano depois, com o surgimento do iMac, cada ação detida pelo mexicano saltou de US$ 17,00 para US$ 100,00.

A despeito das participações estrangeiras, a fortuna de Slim advém mesmo do México, no qual detém o monopólio virtual do mercado de telefonia fixa, com participação de 91%. A Telmex, empresa que responde por essa dominância, possui faturamento de US$ 16 bilhões e valor de mercado acima de US$ 35 bilhões.

O império que responde pelo maior conglomerado empresarial da América Latina ainda inclui 125 milhões assinantes da América Móvil ao redor do continente americano; o Grupo financeiro Inbursa, que realiza serviços bancários, de seguros e aposentadorias; e o Grupo Carso, que possui faturamento acima de US$ 8,5 bilhões por ano.

Hoje em dia, Slim é presidente de honra e vitalício de sua holding, o Grupo Carso, porém acompanha os negócios de uma distância maior, em decorrência de problemas de saúde provocados por uma doença cardíaca em 1997.  Como um bom patriarca, delegou as posições-chave de suas empresas a seus filhos e genros.

Sem tecnologia, com arte
Paradoxal com o ramo de suas maiores empresas, o comerciante não utiliza computadores, laptops, ou qualquer aparelho tecnológico que acompanhe cotações financeiras. Também não lê e-mails, nem os envia; quando precisa falar com alguém, simplesmente telefona. Recebeu um laptop dos filhos em um Natal, mas apenas sabe ligar e desligar a máquina.

Slim diz que toda informação necessária para tomar uma decisão de negócios tem que ser resumida em uma folha de papel. A simplicidade pela qual vê os negócios se estende à forma com que aparentemente leva sua vida, sem muitos luxos, apenas alguns amores. Como exemplo, usa gravatas de sua loja, a Sanborns, vendidas a US$ 36,00.

Entre as paixões, destaque para o fanatismo pelo beisebol e pela arte. Coleciona quadros de Van Gogh, Renoir e Diego Rivera em seu escritório, porém é apaixonado mesmo por Rodin, sendo o maior colecionador privado do escultor no mundo. Seu acervo só perde para o listado no museu francês dedicado ao artista.

Dez mandamentos
Para entender mais sobre o engenheiro que possui 7,5% do PIB (Produto Interno Bruto) do México e controla mais de 200 empresas, Slim revelou dez princípios que segue, delinados assim: 

<!–[if !supportLineBreakNewLine]–>1- Prefira estruturas simples, organizações com níveis hierárquicos mínimos, flexibilidade e rapidez na tomada de decisões. As vantagens da pequena empresa é que fazem grandes as maiores empresas;
2- Manter a austeridade em tempos de vacas gordas fortalece, capitaliza e acelera o desenvolvimento da empresa. Desse modo, evitam-se ajustes drásticos nas épocas de crise;
3- Permaneça sempre ativo na modernização, simplificação e melhoria incansável dos processos produtivos. Procure aumentar a produtividade e a competitividade, reduzir os gastos e os custos, guiando-se pelas mais altas referências mundiais;
4- A empresa nunca deve limitar-se aos parâmetros do proprietário ou do administrador. Sentimo-nos grandes em nossos curraizinhos;
5- Não há objetivo que não possamos alcançar trabalhando unidos, com clareza de objetivos e conhecendo as ferramentas disponíveis;
6- O dinheiro que sai da empresa evapora. Por isso, reinvestimos os ganhos;
7- A criatividade é aplicável não só aos negócios, mas também à solução de muitos dos problemas de nossos países;
8- O otimismo firme e paciente sempre rende frutos;
9- Todos os tempos são bons para os que sabem trabalhar e têm como fazê-lo;
10- Nossa premissa é que daqui nada se leva. O empresário é um criador de riqueza, que a administra temporariamente.

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