Efeitos da pandemia

Pandemia faz consumidor tomar menos crédito em 2020: baixa em financiamentos de carros impulsiona resultado negativo

Economista diz que a baixa na procura por crédito não foi uma surpresa, dada a pandemia. Consumidor precisou focar em gastos prioritários

Crédito negado, homem faz sinal de negativo com uma mão enquanto segura saco de dinheiro com a outra, problemas financeiros, falta de dinheiro
(Andrii Yalanskyi/GettyImages)

SÃO PAULO – Em 2020, a busca dos consumidores por empréstimos caiu 1% na comparação com 2019. É a primeira vez em seis anos que o resultado é negativo, segundo dados do Indicador de Demanda do Consumidor por Crédito do Serasa Experian. Desde 2015, a procura por crédito vinha aumentando. Em 2019, o aumento na demanda foi de 12,4%. O estudo engloba as principais modalidades de empréstimos disponíveis para pessoas físicas hoje, incluindo empréstimo pessoal, cheque especial, financiamento de imóveis, financiamento de veículoscrediário.

Segundo Luiz Rabi, economista do Serasa Experian, a baixa na procura por crédito não foi uma surpresa. “O resultado não poderia ser diferente, já que vivenciamos um ano atípico e permeado por insegurança econômica”, escreveu Rabi em comunicado.

O principal motivo do resultado ruim foi a chegada da pandemia e a crise econômica que a mesma gerou. “O consumidor precisou focar em gastos prioritários e deixou de lado alguns segmentos que impulsionam a demanda por crédito, como o automotivo”, continua no comunicado.

Veja o histórico anual da demanda por crédito: 

2014201520162017201820192020
-0,5%1%3,7%4,9%6,9%12,4%-1%

 

Rabi detalhou ao InfoMoney que, ao observar a queda na demanda e ao avaliar as principais modalidades de crédito disponíveis, a de financiamento de veículos é que apresentou as maiores quedas ao longo de 2020. “Comprar um carro ficou para o segundo plano. Com a pandemia e o isolamento social, não tinha motivo para fazer uma dívida que poderia durar três, quatro anos sem ter a certeza do emprego no mês seguinte. Foi o destaque negativo.”

Embora o Serasa não tenha um recorte do estudo por modalidade, Rabi destaca os dados do Banco Central, que divulga os valores de concessão de crédito por categoria. No caso de financiamentos de veículos, o volume financeiro de concessão de crédito era de R$ 11,4 bilhões em janeiro de 2020. Assim que a pandemia chegou, em abril esse volume caiu para R$ 4,3 bilhões, menos da metade do que se via no início do ano. Em dezembro, a modalidade de crédito para aquisição de veículos alcançou R$ 13,9 bilhões.

“O volume de concessão de crédito só foi retomado entre setembro. No acumulado do ano, percebemos que o empréstimo de veículos ficou de lado em 2020 na comparação com outras modalidades”, diz Rabi. “O índice do Serasa avalia a disposição do consumidor em tomar crédito e vemos que ainda há um certo receio.”

O empréstimo pessoal, por exemplo, tinha um volume financeiro de R$ 11,7 bilhões em janeiro de 2020 e subiu para R$ 11,9 bilhões em abril. O financiamento imobiliário começou o ano com R$ 640,4 bilhões em volume financiado e em abril também apresentou uma leve alta, para R$ 653,8 bilhões, terminando o ano com R$ 712,8 bilhões registrados em dezembro.

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Apesar das dificuldades, a reabertura parcial do comércio, as renegociações de dívidas e a redução dos juros foram fatores essenciais para a retomada do mercado de crédito e para a recuperação do consumo a partir do segundo semestre de 2020. No acumulado entre julho e dezembro, a demanda do consumidor por crédito apresentou alta de 5,5% – ante queda de 8,1% no acumulado do primeiro semestre do ano passado.

Dezembro de 2019 x dezembro de 2020

O estudo do Serasa mostra que, se considerado apenas o mês de dezembro de 2020, o cenário geral da demanda por crédito é de alta de 14,1% sobre dezembro de 2019. Essa é a quinta alta consecutiva neste critério de comparação. Depois de um 2020 muito difícil para muitas famílias, pode ser que as expectativas se tornaram mais positivas no último mês do ano passado.

É possível ver esse salto no financiamento imobiliário: dezembro foi o melhor mês de 2020 em unidades financiadas (42.222) e também o mês com o maior volume financeiro do ano (R$ 11,6 milhões). Comparando com dezembro de 2019, o resultado do último mês do ano passado representa quase o dobro em unidades financiadas (22.825 em 2019) e valores financiados (R$ 5,8 milhões em 2019). Os dados são da Abecip, associação que representa as entidades de crédito.

Menos renda, menos emprego, menos busca por empréstimo

A análise por renda do estudo mostra que todas as faixas tiveram retração na procura por crédito em 2020, como consequência da crise econômico provocada pela pandemia de Covid-19.

Segundo Rabi, a reserva financeira faz diferença para a participação do consumidor no mercado de crédito, diante da instabilidade econômica. É preciso garantir ao menos parte da capacidade de honrar as parcelas. Porém, boa parte da sociedade brasileira não possui uma. Os efeitos são mais fortes na população mais pobre.

“A população de menor renda geralmente não possui esse recurso, o que aumenta a insegurança e faz com que a sua participação no mercado de crédito se retraia mais intensamente”, diz. A faixa de renda que inclui quem recebe até R$ 500 por mês foi a que apresentou a maior queda, de 2%, em 2020.

Por outro lado, segundo Rabi, aqueles que recebem de R$ 2 mil mensais para cima costumam ter uma reserva em poupança ou em investimentos. “Em momentos de crise, é esse dinheiro que permite que esses grupos continuem consumindo crédito e que a redução na demanda seja menor do que a vista nos grupos de menor renda”, ressalta o economista. A faixa de renda que inclui pessoa que recebem entre R$ 5 mil e R$ 10 mil por mês foi a que apresentou a menor queda, de apenas 0,5%, em 2020.

Confira:

Até R$ 500De R$ 500 a R$ 1 mil De R$ 1 mil a R$ 2 mil De R$ 2 mil a R$ 5 mil De R$ 5 mil a R$ 10 mil Mais de R$ 10 mil 
201912%14%11,7%11,1%10,7%10,7%
2020-2%-0,9%-1%-0,6%-0,5%-0,7%

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Vale lembrar que a pandemia afetou fortemente os empregos do país e as perspectivas não são positivas. Segundo os dados mais recentes do IBGE, a taxa de desemprego ficou em 13,1% no terceiro trimestre de 2020, o que representa 14,1 milhões de pessoas.

A expectativa de economistas é que diante de novos recordes em óbitos por Covid-19, fim do auxílio emergencial e vacinação lenta no país, milhões de brasileiros continuem com a renda afetada em 2021.

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