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Smartphones escutam o que as pessoas falam? A ciência descobriu

Não há evidência científica de que o microfone de smartphones esteja sendo usado secretamente por empresas

Smartphones
(Shutterstock)

SÃO PAULO - Já aconteceu com quase todos: poucos minutos após conversar sobre determinado assunto - colchões de mola, por exemplo -, basta um acesso rápido ao Facebook para encontrar diversos anúncios de colchões de mola. Para o usuário comum, isso é um claro sinal de que o microfone do celular, que esteve no bolso este tempo inteiro, foi utilizado para enviar dados a anunciantes. Cientificamente, porém, esta conclusão não faz sentido. 

Pesquisadores da Universidade de Boston passaram 12 meses realizando um estudo para descobrir de uma vez por todas se apps de smartphone realmente acessam o microfone inadvertidamente para fornecer dados a terceiros. A descoberta chocou adeptos de teorias da conspiração: não há evidência científica que comprove este tipo de atividade - mas outro tipo de mau uso de dados preocupou os estudiosos. 

Mais de 17 mil apps foram objeto da pesquisa, assinada por Elleen Pan, Jingjing Ren, Martina Lindorfer, Christo Wilson e David Choffnes. Entre eles, todos os apps do Facebook e mais de 8 mil que enviam informações ao Facebook. Um programa automatizava a interação de 10 aparelhos Android com cada um destes apps e analisava o tráfico gerado em busca de envios de arquivos de mídia para terceiros - dentre os quais supostamente poderiam estar as gravações de áudio geradas. 

Nesta pesquisa, alguns aplicativos foram flagrados gravando a tela do celular e enviando a terceiros. Um app chamado GoPuff, por exemplo, utilizava o serviço da Appsee - empresa de análise de dados móveis - para enviar gravações da interação do usuário com a tela. 

Embora a Appsee seja abertamente uma empresa que utiliza este tipo de informação como negócio, o grande problema é que o usuário, ao baixar o GoPuff, não é avisado dessa interação e da gravação da tela. Apenas após contato dos pesquisadores, a empresa acrescentou em sua política de privacidade a informação de que o Apsee "pode receber informações pessoais de usuários". 

Considerando que a loja de aplicativos do Google, Google Play, obriga desenvolvedores a revelar aos usuários como seus dados serão coletados, a pesquisa em questão descobriu ao menos uma clara violação das regras neste sentido. 

Além disso "diversos apps enviam fotos e outros arquivos de mídia dos usuários à internet sem explicitamente indicar isto ao usuário", escrevem os autores do artigo. "Também descobrimos que há pouca correlação entre as permissões que um app solicita e as permissões  que precisa para rodar seu código com sucesso. Isso abre o potencial para exposição inesperada em versões futuras", continuam.  

Conclusão inconclusiva

Mesmo com um ano de pesquisa e com a amplitude dos apps analisados, os pesquisadores não sentiram conforto em afirmar categoricamente que o microfone dos smartphones não é acionado sem permissão em todos os cenários possíveis. Um dos maiores motivos disso é o fato de que o uso dos programas por robôs é diferente da interação humana - então alguns cenários não pôde ser coberto pela pesquisa. 

Na publicação, que pode ser lida na íntegra por aqui, os pesquisadores ainda explicam que os aparelhos, a priori posicionados próximos a pessoas em um laboratório, eventualmente foram movidos para dentro de um armário porque a interação constante com apps fazia barulhos incômodos o tempo inteiro. Eles afirmaram que teriam colocado um podcast para tocar em loop ao lado dos aparelhos caso realizassem o experimento novamente - o que também criaria uma interação ainda não coberta por esta pesquisa. Resumidamente: o mito do microfone bisbilhoteiro não está totalmente descartado - e o grupo já está realizando novos experimentos a respeito para ter resultados mais precisos. 

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