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Sócios torcedores ganham mais do que gastam e podem “sustentar” seu clube

Movimento por um Futebol Melhor pretende fazer dos programas de sócios torcedores a maior receita dos clubes

torcida do Palmeiras
(Paulo Whitaker/Reuters)

SÃO PAULO – Os programas de sócio torcedor (ST) têm potencial para superar os patrocinadores em financiamento dos clubes de futebol brasileiro, como mostrou o Itaú BBA em um relatório publicado recentemente. E é isso o que o Movimento por Um Futebol Melhor vem tentando garantir que aconteça.

De acordo com Sandro Leite, gerente de marketing esportivo da Ambev, o Movimento, baseado em ações que fomentam o desenvolvimento do futebol brasileiro, começou com o investimento de receitas da Brahma em melhorias em clubes, criações de ginásios, reformas e outras obras de infraestrutura relacionadas aos clubes. Mas logo se percebeu o potencial do próprio torcedor para fomentar ainda mais esse desenvolvimento.

“Temos vários parceiros que podem participar não só investindo diretamente na melhoria [dos clubes], mas também no engajamento. E foi pensando nisso que criamos o pacote de benefícios para o sócio torcedor, fomentando que mais pessoas assinassem os pacotes de seus times”, explica Sandro. “Hoje a gente entrega mais em desconto do que [o sócio torcedor] tem de custo com o seu plano”, comenta. A matemática é simples: o tíquete médio dos descontos mensais conseguidos na compra de produtos de marcas participantes é de R$ 30 mensais. Há programas de sócio torcedor que custam a partir de R$ 9,90 – o torcedor nesse cenário acaba "lucrando" R$ 20,10 ao mesmo tempo em que ajuda a financiar seu clube e ganha descontos na entrada dos jogos - vendida individualmente por valores cada vez mais caros.

Entre os parceiros do programa estão marcas de alimentos, bebidas, bares, supermercados, artigos esportivos, higiene, papelaria e até TV por assinatura. Qualquer parceiro eventual é bem vindo, de acordo com Sandro, desde que não entre em conflito com nenhum dos já filiados.

“No ano passado fechamos o ano estimando uma receita do clube através do sócio torcedor de R$ 400 milhões no Brasil: o ST vai ser a maior fonte de receita desses clubes”, vislumbra o executivo. Já no início de 2015, o presidente do Palmeiras Paulo Nobre disse que “o torcedor Avanti chega a ser um segundo (patrocínio) máster” para o time. Faz lógica para o Palmeiras, que hoje possui 126.898 cadastrados no programa e fica atrás apenas do rival Corinthians, com 143.648 fiéis. Contudo, clubes como o Botafogo, com 13.521 sócios, ainda precisam de aumentar sua base antes de lucrarem quantias significativas.

Os participantes realmente já começaram a ver os retornos. “Pego todas as promoções que vejo, tenho uma economia de mais de R$ 100 por mês”, diz Fabio Jorge, torcedor do Palmeiras que tem um plano Avanti de R$ 110 mensais e usa os benefícios no supermercado até para abastecer seu bar, em Campinas. “Como eu vou a todos os jogos sem pagar, tenho 100% de aproveitamento. Antes, com meu plano de meia entrada, eu gastava entre R$ 600 e R$ 700 por mês”, complementa o palestrino, cuja esposa também aproveita os descontos com seu próprio plano Avanti. "Isso porque [os ingressos] eram bem mais baratos [até dois anos antes]".

No ano passado, foram R$ 30 milhões em descontos – número que, se somado desde 2013, quando o programa foi inaugurado, chega a R$ 80 milhões.

Com essa movimentação pró-torcedor, as ambições do Movimento aumentaram muito. “O Inter, por exemplo, tem 2,3% da torcida como sócio torcedor. Se a gente visse isso nos 12 maiores times do país, a receita com sócios torcedores seria de R$ 1,2 bilhão por ano. Não é uma previsão irrealista”, diz Sandro.

Engajamento racional

Analisando as taxas de engajamento por clubes no site do Movimento, nota-se um fato curioso: o primeiro clube carioca no ranking – Flamengo, é claro – aparece apenas na oitava posição, atrás de paulistas, gaúchos e mineiros. Isso acontece por um fator muito importante, que o movimento luta para mudar: o engajamento dos torcedores com o clube ainda se dá muito em torno da emoção.

É vantajoso pra ele, ele precisa saber disso, é uma transição que a gente precisa fazer

“O momento dos clubes impacta muito nesse incremento do sócio torcedor”, explica Sandro. “Os 3 maiores [times] de São Paulo têm arena, estádio, estão disputando a Libertadores, enfim, estão em momentos que ainda impactam mais no movimento de sócios torcedores. Precisamos mostrar que [a participação] é vantajosa para ele, essa transição da emoção para a razão é algo que a gente precisa fazer”, analisa.

Para ele, a partir do momento que o fã passar a ver os programas com racionalidade, ele nunca mais deixará de ser ST e, ao mesmo tempo, o movimento conseguirá um “crescimento realmente sustentável”.

Os clubes que faltam

Desde a sua concepção, a proposta do Movimento é conseguir abarcar todos os clubes do país e, com isso, melhorar a governança e a transparência do futebol como um todo.

Entretanto, apesar de estar em todas as partes do Brasil, não são todos os times que participam dos benefícios. “A gente vai do Flamengo ao Sergipe, todos sustentados por essa plataforma, mas alguns clubes que não têm programas [de ST] bem desenvolvidos e/ou possuem alguma parceria que conflita com as marcas do movimento”, explica. Para isso, não há jeito: ou o clube mudaria de parceria, ou não participaria do Movimento, que não deixa de ser sustentado por marcas.

 

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