Vert testa uso de contratos inteligentes para financiar agricultura familiar

Projeto é um dos nove selecionados pelo Banco Central para mostrar possíveis utilidades para o real digital

Paulo Barros

(Tim Mossholder/Unsplash)
(Tim Mossholder/Unsplash)

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O produtor rural vai a uma cooperativa para conseguir Wi-Fi e, usando um smartphone simples, obtém um empréstimo, recebe o dinheiro em segundos e já pode gastar na hora para comprar insumos. Isso ainda não acontece, mas deve virar realidade em breve com a chegada do real digital, a moeda virtual brasileira desenvolvida pelo Banco Central.

A techfin VERT, em parceria com Digital Asset, Oliver Wyman e DuAgro, testa uma inovação para o mercado de crédito rural usando a adoção de dinheiro programável e contratos inteligentes. A solução cria uma espécie de “dinheiro carimbado digital” para melhorar o financiamento de agricultores familiares, que hoje enfrentam barreiras para acessar capital da maneira convencional.

“Eles têm dificuldade de acessar linhas crédito mesmo elas sendo teoricamente disponíveis. Uma coisa é a disponibilização, outra coisa é a tomada”, explica Martha de Sá, co-CEO da VERT.

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O projeto roda no âmbito do LIFT (Laboratório de Inovações Financeiras Tecnológicas), um programa do BC que visa criar casos de uso do real digital, dando cara para possíveis utilidades da nova versão da moeda. Os trabalhos do laboratório começaram em setembro de 2022 e vão até fevereiro de 2023. Um piloto do real digital, junto com pelo menos um dos nove projetos do LIFT, tem lançamento previsto para o segundo semestre do ano que vem.

O objetivo do projeto liderado pela VERT é resolver um dos gargalos para a concessão de empréstimos ao pequeno produtor rural, que é a dificuldade da instituição financeira em verificar o uso do dinheiro para a atividade à qual ele foi destinado. A aposta é no uso de dinheiro programado para ser aceito apenas em fornecedores específicos, algo que hoje é impossível de ser feito via Pix.

“O Pix é uma forma de transferência, não é possível carimbar [o dinheiro comum] para comprar fertilizante, linkar isso a um empréstimo e acompanhar todos os recursos. É muito difícil não ter uma moeda digital por trás e ter a mesma segurança e eficiência do processo inteiro”, conta a executiva da VERT, justificando a necessidade de um ativo digital para tirar um mecanismo como esse do papel.

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Para o plano se tornar realidade, a empresa planeja lançar um marketplace conectando produtores com instituições financeiras e fornecedores, agilizando e expandindo a oferta de crédito e, ao mesmo tempo, dando capilaridade a bancos, que passam a ter mais uma forma de chegar a locais mais isolados do país.

Com uso de uma criptomoeda lastreada em reais, como as que BC já prevê que bancos poderão emitir no futuro, a instituição poderia verificar as despesas do tomador do empréstimo de maneira detalhada e com custo reduzido, já que não seria necessário gastar com auditorias.

Diante da redução de custos no processo e maior transparência, diz a VERT, surge um ganha-ganha: a instituição financeira teria mais segurança para ofertar o crédito, e o tomador localizado no interior do país, com pouca presença de agências bancárias, teria nãos mãos mais opções de instituições financeiras para escolher.

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“Na ponta do produtor, esse processo vai ser mais fácil para acessar o crédito. Na outra ponta, também soluciona uma dificuldade dos bancos para chegar nesse agricultor familiar, além de resolver muita ineficiência de custos, tarifas e intermediários no meio do caminho”, explica Martha.

“Tem muito espaço para redução do custo final. A taxa é tabelada do crédito em si é tabelada, mas o custo final é bem diferente. A hora que você começa a melhorar essas ineficiências, você barateia [o crédito]”, comenta a executiva.

A plataforma já deve nascer acompanhando as regras do manual de crédito rural editado pelo BC. “A ideia é transformar o dinheiro que o produtor conseguiu em tokens, e que ele possa gastar esses tokens garantindo que as regras estão sendo respeitadas”, explica Leonardo Moura, um dos responsáveis pelo projeto dentro da VERT.

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Por já seguir as regras existentes para concessão do crédito a produtores rurais, a solução teria poucos entraves para se transformar em um produto final. “A única coisa que o Banco Central precisaria fazer seria verificar quais são as regras, o que o smart contract diz. E a gente garantiria que os gastos estariam sendo feitos adequadamente”, conta.

Uma prova de conceito da plataforma de crédito para agricultores familiares baseada em contratos inteligentes, diz a VERT, estará pronta até fevereiro de 2023.

Paulo Barros

Editor de Investimentos