Pechincha ou furada?

Alta de 161%? Veja por que o BBI acha que a ação da OceanPact pode quase triplicar de valor em 2021

Com queda de 45,75% desde o IPO, em fevereiro, a ação da OceanPact realmente pode subir 161% em 2021? Veja análises

Navios de apoio offshore da OceanPact
(Divulgação/Imprensa OceanPact)

SÃO PAULO – O Bradesco BBI iniciou a cobertura das ações da novata na Bolsa OceanPact (OPCT3) no fim de março, com recomendação de compra. E um ponto da análise chamou atenção: mesmo em um ano de Ibovespa de lado, o banco jogou o preço-alvo da empresa lá para cima, em R$ 20, o que representava, na época, um potencial de alta (upside) de nada menos que 110%. De lá para cá, as ações caíram, e o upside se ampliou para 161% (considerando a cotação de quinta-feira, dia 20).

A empresa estreou na B3 em 12 de fevereiro deste ano e foi precificada em R$ 11,15 na oferta pública inicial de ações (IPO), piso da faixa estipulada pelos coordenadores da operação, que ia até R$ 13,85. Desde então, o papel caiu para R$ 7,65 até o fechamento de quinta-feira (20), baixa de 45,75%, e a ação não encerrou nenhum pregão acima dos R$ 11,15 do IPO até agora.

Nesta sexta-feira (21), porém, as ações subiam até 6,4% manhã, para R$ 8,14, por volta das 10h30, puxadas pela alta do petróleo e da Petrobras (PETR4).

Diante do início de vida difícil na Bolsa, chama ainda mais atenção o otimismo dos analistas do Bradesco. Mas eles não estão sozinhos. O único outro banco que iniciou a cobertura das ações, o Itaú BBA, tem recomendação de compra para os papéis e um preço-alvo de R$ 17, que representa um upside de 122%.

O InfoMoney destaca abaixo os argumentos usados pelo BBI para justificar tamanho otimismo, a partir da leitura de três relatórios do banco (de início de cobertura, sobre compra da UP International e sobre o balanço do primeiro trimestre). Em seguida, veja também a tese do Itaú BBA. E, por fim, a opinião de um consultor de investimentos independente, formado em engenharia naval, contrário à compra das ações.

O que faz a empresa?

A OceanPact é uma empresa que presta suporte a plataformas em alto-mar e serviços ambientais, como estudos, proteção e monitoramento para uso sustentável do mar. Ela conta com 1.800 colaboradores e 24 embarcações offshore (que prestam serviços à plataformas).

A companhia atua em três segmentos principais: logística e engenharia, com serviços como bases de apoio offshore, além de obras de dragagens e limpeza industrial; meio ambiente, prestando serviços de proteção aos mares, levantamentos oceanográficos, licenciamentos ambientais e remediação de danos causados por acidentes em setores como óleo, gás e mineração; operações submarinas, com estudos de geofísica, geotecnia, inspeção, reparo, manutenção e suporte à construção.

A tese do BBI

No relatório de início de cobertura, assinado por Vicente Falanga, o BBI destacou que a OceanPact é uma das líderes de mercado do Brasil na prestação de serviços offshore. Depois de operar em 2020 com 19 navios de apoio OSRVs (sigla para Oil Spill Response Vessel, barcos usados para combater vazamento de óleo), diz o banco, a OceanPact tem um “plano ambicioso” de dobrar o tamanho de sua frota em dez anos.

Para justificar a recomendação, o BBI separa os argumentos em passado, presente e futuro da empresa.

Passado

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Sobre o passado, o banco diz que a OceanPact é uma lição de bootstrapping (empresa que levanta capital com receitas próprias), reaproveitamento de recursos e de limpeza dos oceanos.

Segundo o BBI, na última década, enquanto empresas construíram navios de apoio do zero, a OceanPact já buscava navios e peças no mercado secundário. Além disso, ao contrário do resto da indústria, a OceanPact cresceu com dependência mínima de crédito subsidiado. “Como resultado, embora a indústria tenha encolhido de um mercado endereçável total de cerca de 500 navios, em 2015, para 360, em 2020, a OceanPact cresceu de quatro navios, em 2011, para 23 atualmente, com níveis de Retorno Sobre o Capital Investido (ROIC) acima da média da indústria e um balanço mais saudável.”

Presente

Em relação ao presente, os analistas dizem que há muito crescimento no radar. “A OceanPact está entrando em uma fase de crescimento mais intenso após ganhar a confiança da Petrobras em 2016”. Considerando que o Ebitda por navio médio foi de cerca de R$ 6 milhões em 2020, com cinco novos contratos com a Petrobras em 2020 (com Ebitda médio anual de cerca de R$ 20 milhões cada), o Ebitda para os próximos dois anos deve crescer para R$ 308 milhões, alta de 58,76%, diz o BBI.

Entre 2019 e 2022, o banco prevê crescimento anual de Ebitda de 25% para a empresa, contra 11% dos pares. Também estima um ROIC de 15% para 2021, contra 4% dos concorrentes, como Tidewater e Seacor Marine. E diz ainda que a OceanPact é negociada a um múltiplo de 6,6 vezes o EV/Ebitda (valor de mercado mais dívidas sobre Ebitda) para 2021 e de 5 vezes para 2022, o que representa 30% e 40% de desconto em relação aos pares, respectivamente.

Além disso, na divulgação do relatório, em março, eles citavam que a empresa tinha concordado com um memorando para comprar o grupo UP International. A compra de fato se concretizou no dia 10 de maio, por US$ 30,2 milhões.

No relatório sobre a aquisição, o BBI disse que a empresa adicionou à frota três embarcações, já sob contrato da Petrobras, além de cinco PSVs (Platform Supply Vessel, navio que leva suprimentos às plataformas offshore) que não têm contratos – dentre eles quatro que serão docados (levados à doca para manutenção) e reformados – mas que vão disputar oportunidades no futuro. Para o banco, o negócio diminui os riscos do plano de negócios da OceanPact e pode adicionar R$ 0,80 ao preço da ação.

Futuro

E sobre o futuro da empresa, o BBI destaca oportunidades de consolidação e maior exposição ao tema ESG (sigla em inglês para sustentabilidade, social e governança).

Segundo o BBI, com caixa em mãos e uma relação dívida líquida/Ebitda de 0,8 vez, bem abaixo da média dos pares, a OceanPact é “uma grande peça na consolidação do mercado brasileiro de navios de apoio offshore”. “Com vários leilões para novos navios no pipeline, alimentados pela perspectiva de forte crescimento do pré-sal brasileiro, e com players que foram severamente prejudicados pelo último ciclo de baixa, acreditamos que a empresa está bem posicionada para prosseguir com seu plano de dobrar sua participação no mercado em dez anos (de 7% para 14%).”

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Com isso, o BBI espera que a OceanPact alcance líderes de mercado de alta qualidade, como CBO, com participação de mercado de 16%, e BRAM Chouest, com participação 20%.

Os analistas acrescentam ainda que a empresa deve continuar buscando ampliar a exposição ao ESG, apoiando potenciais projetos eólicos offshore no Brasil e via prestação de serviços para evitar e reparar desastres ambientais.

“As embarcações da empresa seguem disponíveis para agir caso ocorra algum derramamento de óleo (se solicitado pela reguladora ANP). A companhia também fornece serviços que ajudam as empresas a desenvolver planos para minimizar impactos sobre o meio ambiente. A OceanPact possui uma joint venture com a Witt O´Brien no Brasil, líder mundial em consultoria especializada em respostas a emergências e crises. A joint venture forneceu importantes serviços no passado, em acidentes como de Macondo, no Golfo do México [explosão de plataforma] e à Samarco em Mariana, e também no derramamento de óleo que atingiu o Nordeste brasileiro.”

Riscos

Sobre os riscos, o relatório de início de cobertura do BBI sobre OceanPact cita: os preços do petróleo estruturalmente mais baixos, que afetam indiretamente as taxas diárias no longo prazo; a deterioração da situação financeira e potencial da Petrobras; mudanças na regulamentação que poderiam prejudicar o apelo da indústria; disciplina de capital (sustentação do ROIC via crescimento); e execução para crescer e manter uma alta qualidade de serviço com baixo capital investido.

Profissionais em navio de apoio à plataformas offshore da OceanPact
(Divulgação/Imprensa OceanPact)

Resultado do primeiro trimestre

A empresa divulgou o balanço do primeiro trimestre de 2021 no último dia 13 e reportou prejuízo de R$ 20,1 milhões no período, aumento de 6,5% sobre o prejuízo do primeiro trimestre de 2020. A receita líquida caiu 3,5%, para R$ 155,1 milhões. O Ebitda ajustado caiu 36,5% na comparação anual, para R$ 33,4 milhões.

As despesas operacionais cresceram 40,5%, para R$ 19,5 milhões. O resultado operacional (antes do financeiro e dos tributos) caiu de R$ 36,7 milhões para R$ 5,35 milhões. E o resultado financeiro líquido foi negativo em R$ 40 milhões, melhora de 24,5% ante o resultado negativo de R$ 64,5 milhões no primeiro trimestre de 2020.

Após a teleconferência sobre os resultados, a despeito dos números negativos, o BBI focou no que está por vir e disse que a empresa forneceu “conclusões positivas para a tese de investimento”. “Esperamos que os resultados melhorem ao longo do ano, à medida que novos contratos sejam incorporados à carteira de pedidos da empresa.”

O banco afirmou que as licitações de navios de apoio da Petrobras estão acontecendo e que a “superlicitação”, que deve totalizar 13 embarcações, está bem encaminhada, já que a OceanPact acredita que está bem posicionada para ganhar três navios, que podem ser anunciados em junho.

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Após a docagem de seis navios no primeiro trimestre, diz o BBI, a expectativa da empresa é de uma taxa média de utilização de até 74% no segundo trimestre (contra 63% no primeiro trimestre). Os analistas dizem ainda que a expectativa de aproveitamento da empresa está em 80% em junho e deve melhorar ao longo do ano. E a compra da UP International está na fase final e o fechamento da aquisição deve acontecer em junho.

A visão do Itaú BBA

O Itaú BBA comentou que os resultados da empresa no primeiro trimestre foram neutros. Os analistas reconhecem que a ação vem sofrendo desde o IPO, devido ao impacto de uma série de atrasos e contratempos operacionais que pressionavam os resultados de curto prazo.

Mas ponderam que, embora seja provável que o ritmo lento se arraste pelo primeiro semestre, não acreditam que a tese sobre o investimento mudou após o balanço e esperam que a empresa comece a mostrar “seu verdadeiro potencial durante o segundo semestre, quando prevemos uma grande aceleração de resultados e momentum”.

O BBA também afirma que o início de novos contratos pode levar a um segundo trimestre melhor. “De acordo com a empresa, ela iniciou vários novos contratos durante o primeiro trimestre. Além da entrega de duas embarcações (e uma terceira prevista para o segundo trimestre), a empresa também assinou: contrato com a Vale (VALE3) para implementação de procedimentos de gestão de crise, emergência e continuidade de negócios; acordo com a Petrobras para a preparação e operacionalização de um plano de emergência logístico em casos de explosões; e um contrato de monitoramento de cetáceos com a Exxon.”

O que diz um consultor independente?

Paulo Bittencourt, consultor de investimentos independente, com formação em engenharia naval pela Poli-USP, tem uma visão bastante pessimista sobre a OceanPact.

O primeiro argumento citado por ele para justificar seu ceticismo é o alto risco de concentração na atuação da companhia. “É uma empresa que praticamente só tem um cliente, que é a Petrobras, em um só espaço geográfico, que é o Brasil”, diz Bittencourt.

Sem um portfólio diversificado de clientes, a empresa fica sujeita “por tabela” aos riscos associados à estatal e, consequentemente, ao mercado de petróleo. E o contexto atual não é dos mais favoráveis.

Diante das perspectivas de estabilização do preço do petróleo (veja mais aqui), a atividade das plataformas tende a diminuir, já que o preço de combustível menor torna menos vantajosa a extração. Assim, com seu principal cliente bombeando menos petróleo, a OceanPact pode ver a demanda pelos seus serviços cair.

O segundo ponto citado por Bittencourt é que a prestação de serviços offshore é um tipo de negócio que gera alto custos operacionais. “A plataforma é um ser dependente dos barcos de suporte, como os da OceanPact, que trabalham 24 horas por dia, sete dias por semana, para fornecer comida, água potável, combustível e tudo que a plataforma precisa. Então, esses barcos ficam no mar 45 dias direto e, para manter uma embarcação como essa em alto-mar, são US$ 10 mil por dia ou mais.”

Além da complexidade no planejamento de custos, os equipamentos usados ficam obsoletos muito rapidamente e podem ser superados facilmente, afirma o consultor.

Ainda que a empresa seja líder de mercado, Bittencourt lembra que companhias que atuam em setores que utilizam alta tecnologia ficam sob a constante ameaça de players estrangeiros. “Não estou tirando a liderança e o espaço que ela tem no mercado. Tem lugares em que ela atua, que não compensa o estrangeiro entrar. Mas, por exemplo, os dinamarqueses e os noruegueses têm embarcações fantásticas, muito superiores às usadas no Brasil, se eventualmente um competidor desses entra no mercado, pode ganhar espaço facilmente.”

Sobre os potenciais novos contratos com a Petrobras, citados pelo BBI e BBA para justificar o otimismo com a ação, mesmo diante dos resultados fracos, Bittencourt afirma que existe um alto risco em apoiar decisões de investimento sobre algo que ainda não se concretizou. “Se a licitação sair, claro que tem uma reversão para cima. É como a Embraer: quando ela fecha contrato, a ação dá uma ‘porrada’. Então dos R$ 7,65 a ação pode ir para os R$ 10, mas à medida que o tempo passa, esses contratos expiram em questão de um ano, por aí. A Petrobras não se arriscaria a fazer contratos como esse por cinco anos.”

Em relação às atividades da OceanPact focadas no tema ESG, o consultor defende que apesar de ser um mercado com forte potencial, dois aspectos devem ser observados: a empresa tem capacidade de atuar em reparos ambientais, mas não é possível modular quantas vezes esses eventos vão acontecer no tempo, desastres não acontecem toda semana; e o segundo ponto é que os reparos ambientais e a limpeza de oceanos são atuações complementares. “O core dela são os barcos de suporte, esse é o ‘filet mignon’, o resto gera menos receita.”

Mesmo com todos os argumentos colocados, o fato de a cotação estar bem abaixo do valor do IPO, com bancos calculando preços-alvos perto dos R$ 20, pode atrair investidores que buscam “pechinchas” e ações baratas. Mas Paulo Bittencourt acredita que o investimento pode não valer a pena nem para os mais arrojados. “É melhor não tentar pegar a faca caindo. Para quem gosta da ação, minha recomendação é esperar ela se aproximar do preço do IPO e aí, sim, avaliar se vale a pena entrar”, finaliza.

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