Oportunidade ou cilada?

“Tempestade perfeita” na CVC piora e ações caem quase 50% em 2020: a companhia conseguirá se recuperar?

Problemas para a empresa de turismo se acumulam, mas analistas divergem sobre oportunidades de investimento nas ações após forte baixa no ano

SÃO PAULO – Uma verdadeira “tempestade perfeita”, que só vem piorando. É assim que os analistas de mercado definem a situação da ação da CVC (CVCB3): após ser a segunda maior queda do Ibovespa em 2019 ao cair 28% (enquanto o índice subiu mais de 31%), a empresa viu seus papéis despencarem 29,51% em fevereiro. Em janeiro, a ação já havia despencado 16,67%.

E, logo no primeiro pregão de março, as ações da companhia de turismo registraram a maior baixa do Ibovespa, com queda de até 15%, para fechar em baixa de 10,61%, com mais uma má notícia para a companhia, fazendo com que os papéis acumulem queda de 47,49% em 2020. Se, neste ano, até então, os papéis tinham caído fortemente por conta dos temores do surto de coronavírus nas operações da companhia, nesta sessão uma outra notícia afetou a empresa.

A CVC informou ter constatado, em uma avaliação preliminar, indícios de erros em seus balanços publicados entre 2015 e 2019, com potencial de impactar o resultado da companhia do quarto trimestre de 2019.

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De acordo com a empresa, os equívocos têm a ver com a diferença entre os valores provisionados no momento da contratação de um serviço turístico e os recursos que foram realmente transferidos após a realização das viagens.

O impacto potencial acumulado dos ajustes na receita líquida de vendas da companhia é estimado em cerca de R$ 250 milhões entre 2015 a 2019, o que equivale a uma quantia equivale a aproximadamente a 4% da receita líquida no período acumulado até setembro de 2019.

De acordo com a Eleven Financial Research, esses erros terão forte impacto nas estimativas do quarto trimestre de 2019 e do ano passado. O impacto na receita líquida estimada no trimestre será de uma redução de cerca de 60% e de 14% no ano de 2019. O impacto sobre o lucro é estimado na ordem de R$ 30 milhões. “Dado que nossa estimativa de lucro para o quarto trimestre é de R$ 33 milhões, o impacto basicamente zera o lucro trimestral da companhia”, avalia a casa de análise.

O Conselho de Administração da companhia determinou a realização de uma apuração independente em relação ao tema, a ser conduzida pelo comitê de auditoria, que será assessorado por consultores independentes e especializados. A CVC ainda destacou que está trabalhando para divulgar os números referentes a 2019 dentro do prazo. A previsão é que os dados do quarto trimestre de 2019 sejam divulgados no próximo dia 12 de março, após o fechamento de mercado.

“Se confirmados, esses erros poderão implicar em ajustes contábeis significativos nos resultados reportados pela companhia. Uma das ações mais afetadas pelo temor com o coronavírus, o impacto negativo no preço das ações da CVC deve se manter no curto prazo”, destaca a equipe de análise da Levante Ideias de Investimento.

Conforme avaliam os analistas, a CVC sofre em várias frentes: dólar na máxima histórica (o que reduz a propensão da população a viajar), aumento da concorrência, derrota (de até agora) R$ 127,6 milhões no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf]) clientes postergando viagens devido ao coronavírus e agora indícios de erros contábeis.

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Sobre a questão do Carf, no início de fevereiro, o Conselho entendeu que a empresa é uma agência de turismo e, dessa forma, incide sobre a sua receita o PIS/Cofins, que foi repassada como comissão para as redes de lojas e também as fornecedoras de serviços turísticos. Contudo, os advogados apontam que a empresa é apenas uma intermediadora entre o cliente e as aéreas e hotéis. Se a CVC não conseguir vencer nenhum processo, o prejuízo pode ser de R$ 440 milhões no total. A CVC, em nota, afirmou que o processo administrativo ainda está em andamento no Carf, sem decisão final, e ainda será discutido na esfera judicial, portanto, sem prejuízo algum no momento.

Ação já caiu demais?

De qualquer forma, todo esse ambiente adiciona ainda mais dificuldades para a companhia, levando a uma nova revisão nas previsões já não muito otimistas para a companhia.

O Bradesco BBI reduziu o preço-alvo para as ações CVCB3 de R$ 60 para R$ 42 (upside de 63,23% frente o fechamento do dia 28 de fevereiro). Já a Eleven cortou a recomendação para os ativos de neutra para venda, com um preço-alvo de R$ 24,00 para os ativos (ante R$ 41), o que configura uma projeção de queda dos ativos de 7%, mas uma alta também de cerca de 7% considerando a forte baixa dos ativos nesta sessão, em que operam na casa dos R$ 22,00. No fim de janeiro, a Eleven já havia cortado a recomendação para os ativos de compra para neutra.

De acordo com Giovana Scottini e Daniela Bretthauer, analistas da Eleven, mesmo considerando o desempenho da ação em relação ao Ibovespa (uma queda de mais de 40% dos ativos CVCB3 frente à queda de cerca de 10% do índice no ano), a revisão ocorreu pelo fato de que as falhas da contabilização geram desconforto com relação à “qualidade” dos números informados e limita uma análise financeira e de valuation de forma adequada.

“Nosso sentimento em relação a ação da CVC só piorou nos últimos meses”, avaliam as analistas, destacando que, nos últimos meses, por conta da alta do dólar e do aumento de competição, as estimativas de lucros foram reduzidas sucessivamente pelo mercado e o valuation comprimiu. Assim, dado o cenário de incertezas para o negócio em que a companhia atua e o noticiário negativo recente, Giovana e Daniela estimam maior volatilidade para os papéis no curto prazo.

Por outro lado, apesar de cortar o preço-alvo e destacar que a “tempestade perfeita piora”, o analista do Bradesco BBI Richard Cathcart manteve a recomendação outperform (desempenho acima da média) para as ações da companhia principalmente em meio à recente queda das ações.

“Apesar dos ventos contrários, continuamos construtivos no CVC na expectativa de que sinais de melhora (como um ponto de inflexão no crescimento de vendas nas mesmas lojas) possam chegar ao final do primeiro trimestre de 2020, uma vez que as vendas se deterioraram significativamente em março do ano passado [o que leva a uma menor base de comparação”, avalia.

Cathcart ressalta que, mesmo com as dificuldades, a CVC continua líder de mercado em viagens de lazer e com uma forte rede de distribuição. “Acreditamos que esses são ativos atraentes de longo prazo, capazes de suportar desafios. Portanto, permanecemos construtivos, embora com uma visão mais a longo prazo do que anteriormente”, avaliam.

Problemas se acumulam

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Vale lembrar que, em 2019, a companhia havia sofrido por dois fatores em especial: (i) recuperação judicial da Avianca, principal parceiro aéreo da CVC, cujo cancelamento de voos ocasionou despesas não-recorrentes para a companhia no montante de R$ 137,4 milhões nos primeiros nove meses do ano; e (ii) decepção do mercado com o crescimento de reservas.

André Alírio, economista da corretora Nova Futura, destacou em entrevista recente ao InfoMoney que a companhia está inserida em um setor em transformação e passou a sofrer com a concorrência de agências de turismo virtual. “A CVC tem um custo caro e capital imobilizado por canto da rede física. Isso eleva o custo de captação dos clientes, diferentemente das concorrentes, que possuem uma estrutura mais leve. É um mercado em mudança”, avaliou.

Já o ano de 2020 começou com o coronavírus, que a cada dia mostra mais os seus efeitos sobre o turismo global. Conforme aponta a XP Investimentos, caso os impactos do surto se prolongassem no médio prazo, a expectativa era de uma pressão nos preços de ações ligadas ao setor. Não por acaso, as ações de CVC e das aéreas Gol (GOLL4) e Azul (AZUL4) registraram as maiores baixas do Ibovespa de fevereiro, com queda superior a 20%.

Desta forma, com tantos problemas se acumulando em meio ao cenário de aversão ao risco com o coronavírus, os investidores preferem por enquanto ficar longe da companhia – mas já atentos às oportunidades que possam surgir mais à frente.

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