Ainda que com riscos

SulAmérica (SULA11) sobe 15% e Rede D’Or (RDOR3) cai 7%: movimentos são divergentes, mas união é positiva, dizem analistas

Companhias de saúde juntas devem trazer avanços em crescimento e sinergias, mas alguns problemas estão no radar, como com órgão reguladores

Por  Vitor Azevedo -

As ações ordinárias da SulAmérica (SULA11) ignoraram todo o clima negativo causado pela guerra na Ucrânia e operaram durante todo o dia em alta de mais de 10% – fechando o pregão desta quinta-feira (24) com avanço de 15,19%, a R$ 35,64.

Os papéis da seguradora estenderam fortemente os ganhos da véspera, que foram de quase 25%, quando a união das suas operações com as da Rede D’Or (RDOR3) foi anunciada. Os papéis ordinários da rede de hospitais, porém, recuaram 7,66%, a R$ 51,25, chegando a ter  apagando os ganhos da quarta, quando as ações fecharam em alta de 8,82%.

A queda é explicada majoritariamente pelo fato de como a operação será feita. A Rede D’Or emitirá 307,7 milhões de novas ações, diluição de cerca de 15% do seu capital, que serão transferidas para os acionistas da SulAmérica. Com isso, cada ação desta companhia valerá, segundo o valuation atual da rede de hospitais, aproximadamente R$ 42,60.

O recuo das ações da Rede D’Or, então, é explicada por um movimento de ajuste de mercado e não por pessimismos ou visões negativas sobre a combinação de negócios – para analistas, pelo contrário, a percepção da operação é majoritariamente positiva, ainda que traga alguns riscos no radar.

União de SulAmérica e Rede D’Or deve criar sinergias

“Para a SulAmérica, nós definimos a transação como positiva, dado que o valor da negociação está muito em linha com o que vemos como um ‘preço-justo’ para as ações”, comenta Marcio Osako, analista do Bradesco BBI, em relatório. “Já para a Rede D’Or, nós vemos a operação como um movimento estratégico e financeiramente positivo”, completa.

Segundo Osako, a nova companhia usufruirá de sinergias fiscais, que podem chegar até R$ 1,9 bilhão, e operacionais, com a SulAmérica reduzindo em até 15% suas despesas gerais e administrativas.

Economias na frente de crescimento também são esperadas pelo BBI, com as duas empresas trabalhando em conjunto no “desenvolvimento de novos produtos, na entrada em novos mercados e em fusões e aquisições”.

Por fim, a D’Or, para o BBI, deve diminuir também a sua dependência daqueles que contratam seus serviços, podendo aumentar seu poder de barganha.

O Credit Suisse destaca que a SulAmérica deve conseguir avançar no oferecimento de planos em regiões onde ainda não está presente, mas que contam com unidades da Rede D’Or. Esta, em sua parte, poderá contar com maior fluxo de pacientes provindos dos segurados da seguradora, aumentando sua taxa de ocupação e diminuindo seus custos fixos.

Contudo, também há riscos no radar

Os analistas do Credit, porém, apontam alguns riscos que a operação pode trazer. A Rede D’Or, por exemplo, pode ter problemas com outras operadoras que contratam seus serviços ao avançar em planos verticalmente integrados com a SulAmérica. Bradesco Seguros e Amil, concorrentes diretos da seguradora que será incorporada são responsáveis por, respectivamente, 25% e 10% das receitas da companhia de hospitais.

Além disso, para o banco suíço, os planos verticais com a SulAmérica podem ainda aumentar a importância de hospitais menos lucrativos do grupo, prendendo a rede em ativos pouco atraentes.

Por fim, há um risco relevante de a negociação ter problemas com políticas antitrustes. Isso porque a rede de hospitais já teria, aos olhos do Credit Suisse, um poder de barganha considerável contra seus pagadores e é uma prestadora importante em muitas geografias.

O Morgan Stanley, apesar de afirmar que a operação se trata de uma união de “duas ótimas companhias”, começa sua análise dizendo que há até então “mais dúvidas do que respostas”.

“Após a reação positiva de ontem, achamos que o mercado pode questionar a estratégia por trás dessa fusão”, comentam.

Apesar de os negócios serem complementares e da união trazer vantagem competitiva, os interesses das duas companhias, para o banco, são difíceis de convergir pela questão das culturas diferentes por de trás dos mundos de seguros e médico. “Há uma lacuna, por exemplo, entre inflação e inflação médica”, finalizam.

Em teleconferência, CEO da SulAmérica fala sobre operação

Após divulgar também seus resultados na noite de ontem, a SulAmérica realizou pela manhã sua teleconferência com analistas. O foco, contudo, esteve muito mais sobre a operação com a Rede D’Or do que nos números do quarto trimestre de 2021.

“A união entre SulAmérica e Rede D’Or abrirá oportunidade de desenvolvimento e  crescimento. As operações devem ser mantidas independentes e depende da aprovação de acionistas e regulatórios”, abriu Ricardo Bottas, diretor-executivo (CEO) da seguradora.

Bottas destacou que a seguradora, com a incorporação, deve avançar ainda mais em sua agenda de crescimento. “Com anúncio de transação, seguimos mais fortalecidos em nossa agenda de M&As e de crescimento inorgânico”, comentou.

Conforme falas do executivo, a combinação dos negócios facilita o avanço da SulAmérica sobre carteiras nas quais eles já “possuem interesse” e abre ainda espaço para crescimento orgânico através dos planos verticais.

“É complicado falar em integração. A Rede D’Or sempre foi um dos nossos grandes parceiros e isso deve continuar. Continuaremos, porém, nos relacionando com outros prestadores. Está no acordo que as operações seguem independentes”, defendeu o CEO.

Quanto ao prêmio que acionistas da seguradora ganharão, Bottas se declarou satisfeito. “É um prêmio diferente do que se tem visto em recentes transações no mercado. Estamos bastante satisfeitos”, disse. “”Reforço minha confiança na transação em gerar valor para stakeholders e demais acionistas da companhia”.

A combinação dos negócios deve ainda ser aprovada em assembleia de acionistas. Após isso, para sair do papel, faltará a permissão dos órgãos reguladores, sendo eles o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), Superintendência de Seguros Privados (SUSEP) e Banco Central do Brasil.

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