Entrevista

Sigma dobra produção de lítio em MG para suportar demanda com “corrida verde” dos carros elétricos

Executiva fala sobre os planos de começar a produzir em 2022 e saltar de 220 mil para 440 mil toneladas até 2023

Planta da Sigma em Minas Gerais (crédito: Divulgação)

SÃO PAULO – O carro elétrico não é mais um sinônimo de sustentabilidade sozinho. Os questionamentos a respeito da matriz energética usada para recarregar a bateria e, posteriormente, as preocupações com o processo de fabricação da bateria e extração do lítio usado nela tornaram-se as novas preocupações de ambientalistas e entusiastas das tecnologias limpas.

É nesse cenário que a Sigma quer ganhar espaço, usando a seu favor a “corrida verde” dos carros elétricos, fenômeno que ocorre principalmente na Europa. “O consumidor na Europa é consciente, porque ele tem que pagar mais pelo carro elétrico. Ele quer saber se esse veículo, para tirar carbono nas ruas da Alemanha, não vai só deslocar esse carbono para outros países”, explica Ana Gardner, co-presidente e diretora de estratégia da Sigma.

De acordo com Ana, essa demanda por menor impacto ambiental ao longo da cadeia de produção e de fornecedores dos carros elétricos favorece a Sigma, uma vez que a empresa busca atender aos critérios ESG (governança corporativa, social e ambiental) em todo o seu processo produtivo.

“Nossa planta é green tech porque usamos 100% de energia limpa [matriz hidrelétrica]. Nas minas de lítio do Atacama e da Austrália as mineradoras usam gerador a diesel. Já no nosso caso temos um cuidado muito grande com a matriz energética e com o recurso hídrico. O circuito é back to back com empilhamento a seco”, destaca a executiva.

Esse empilhamento a seco, garante ela, evita a contaminação da água pela salmoura (a água saturada de sal onde se encontra o carbonato de lítio em lagos salgados) e dispensa a necessidade de construção de barragens de rejeitos.

“Por conta da natureza dos depósitos e das tecnologias que desenvolvemos com os australianos obtivemos a tecnologia de separação por meio denso. É melhor que o circuito de flotação, que redundaria em químicos”, completa Ana.

Todo esse cuidado com o meio ambiente já está gerando frutos e, somado a uma demanda crescente por veículos elétricos na Europa, fez com que a Sigma fosse obrigada a dobrar sua planta do Vale do Jequitinhonha (MG).

De acordo com dados da Benchmark Mineral Intelligence, de abril de 2020 a maio de 2021 os preços do lítio saltaram 59%. Isso dentro de uma realidade em que o presidente americano, Joe Biden propõe US$ 174 bilhões para mobilidade elétrica dentro de seu plano de infraestrutura, o que sinaliza um aumento da demanda também nos Estados Unidos.

“Nosso maior desafio hoje é fazer frente a essa demanda de lítio sustentável e verde. Precisamos produzir o metal com pureza no grau bateria. Depois ele passa pelo processo enriquecimento, que custa. E quando a demanda disparou ficou claro que não tem tanto lítio saindo com grau bateria no mundo”, diz.

Expansão

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Ana conta que a Sigma já pré-vendeu 220 mil toneladas de lítio em contratos de 5 a 6 anos, o que equivale a toda a capacidade da planta atual, mas devido à explosão da demanda no último ano, foi necessário fazer a fase 2 da unidade de mineração, com a qual a capacidade sai de 220 mil toneladas para 440 mil toneladas do metal.

No último dia 10, a companhia anunciou o investimento de R$ 859,4 milhões para essa expansão, que se soma aos investimentos já realizados e que totalizam R$ 1,2 bilhão. Com isso, foram iniciadas as obras de terraplanagem na Grota de Cirilo, em Itinga.

O cronograma para a conclusão e início das operações da primeira parte da planta, contudo, está em dia, garante Ana. “Tudo o que nós planejamos foi executado, e com louvor. Avançamos na pré-produção da planta, que está com a engenharia realizada. Estamos em fase final, já no início do processo de montagem eletromecânica. Já produzimos em escala de demonstração, mas por enquanto essa produção é entregue para amostras de pureza do produto”.

As expectativas são de que já em 2022 se inicie a produção em larga escala e que em 2023 essa capacidade já seja dobrada.

Sobre o licenciamento ambiental do projeto, a executiva conta que teve bastante facilidade com o governo de Minas Gerais devido às características da produção da Sigma. “Aplicamos para a licença em dezembro de 2018 e a recebemos em maio de 2019. A licença de ampliação também está sendo muito bem apreciada pelas autoridades em Minas. Fomos considerados junto com uma empresa russa como referências no setor mineral em proteção ambiental”.

E o negócio, por conta dessa demanda adicional surgida recentemente, está mais rentável do que o previsto, pois o custo de produção do lítio é de US$ 261 por tonelada e a tonelada do metal vale hoje US$ 760. No ano passado, quando o InfoMoney conversou com a Sigma pela primeira vez, o preço do lítio estava na casa dos US$ 450.

A logística, apesar do enorme gargalo que o Brasil possui neste sentido, não preocupa tanto a empresa na avaliação de Ana Gardner. “Estamos em Minas Gerais, e o estado é todo pronto para mineração. A rodovia asfaltada leva da porta da mina direto para o porto de Ilhéus. Nosso custo é o mesmo da Austrália”, defende.

Sem perspectiva para elétricos no Brasil

Em relação ao mercado, a diretora da Sigma admite que os planos são de exportar o metal para a produção desses veículos lá fora, uma vez que a demanda e a infraestrutura para eletrificação de carros no Brasil beira a inexistência atualmente.

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“Aqui somos um fornecedor global, nosso mercado é o mundo. Temos qualidade, custo, pureza e trouxemos o atributo verde. Entregamos para os maiores players, concorrendo com empresas maiores. Se o Brasil precisar do nosso lítio nós entregamos, mas hoje não há demanda local”.

Por outro lado, Ana ressalta que o Brasil tem características que permitem que o país tenha uma frota sustentável sem precisar apostar na eletrificação como fazem os países desenvolvidos. Isso porque o etanol brasileiro daria conta de suprir o mercado. “Contanto que não polua não importa se é elétrico ou movido à combustão, mas com álcool”.

Vale lembrar que como o etanol é um combustível renovável, suas emissões de gás carbônico são neutralizadas pela cana-de-açúcar plantada, que retira o CO2 da atmosfera e libera oxigênio no lugar.

É certo que em carros Flex os motores são calibrados para emitir a mesma quantidade de poluentes, então faria pouca diferença abastecer com álcool ou gasolina em termos de emissão de gases do Efeito Estufa. No entanto, a vantagem do etanol, nesse caso, seria que o álcool não expele resíduos tóxicos como o benzeno, ao contrário da gasolina.

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