Reação do mercado

Se tanto os resultados de Minerva quanto de BRF foram bons, por que uma subiu 3,3% e a outra caiu 7,2% nesta sexta?

Combinação de preocupações com o aumento dos preços de grãos e histórico do preço de cada papel ajuda a entender a discrepância

(Shutterstock)

*Texto atualizado às 18h59 para inclusão das cotações de fechamento das duas ações. 

SÃO PAULO – Dois gigantes frigoríficos brasileiros divulgaram seus números referentes ao quarto trimestre de 2020 ontem: BRF (BRFS3) e Minerva (BEEF3). Ambas as demonstrações financeiras foram consideradas fortes. Contudo, só as ações de uma dessas empresas subiram.

Os papéis ordinários da Minerva avançaram 3,3% a R$ 9,70, ao passo que as ações da BRF caíram 7,16% a R$ 21,64.

Segundo Leonardo Alencar, analista da XP Investimentos, pela óptica de fundamentos, há uma preocupação sobre o futuro das operações da BRF diante do cenário de preços mais altos de grãos, o que impacta muito especialmente o negócio de frangos, que é o foco da BRF e não da Minerva.

“O quarto trimestre foi uma surpresa positiva porque não teve ainda compressão de margem. A BRF usou bem o estoque estratégico e não teve a compressão esperada. Porém, a dúvida para 2021 continua”, avalia.

Na mesma linha, analistas do Credit Suisse escrevem em relatório que a pressão sobre os preços dos grãos e a falta de um novo auxílio emergencial são desafios para o setor de frigoríficos. Entretanto, o banco diz avaliar que, mesmo neste cenário, o preço de alimentos processados continua a subir, o que ajuda a manter as margens.

Larissa Pérez, também analista da XP, citou que algo que pode ter poluído a reação dos investidores ao resultado é a expectativa que se criou em torno do plano de 10 anos da empresa, que foi anunciado em dezembro do ano passado e traz todo um projeto para aumentar o trabalho em processados, internacionalizar, vender mais ração para pets e aumentar a penetração no mercado de comida vegetariana.

Alencar, contudo, explica que boa parte da reação pode ser explicada não por fundamentos, mas pela cabeça dos operadores. “O mercado já estava antecipando um resultado positivo. Como ainda fica no radar a incerteza para o que a empresa fará em 2021 com custos mais altos pode ter havido essa realização de lucros depois da valorização recente no papel [o papel sobe perto de 12% em seis meses].”

Na outra ponta, as ações da Minerva despencam 26% em seis meses, o que torna os papéis mais atrativos para compras depois de bons números trimestrais.

Todavia, a visão da XP para a BRF segue positiva e o resultado do quarto trimestre foi muito bem visto pelos analistas. “A empresa parece ter obtido sucesso na melhoria do seu mix de produtos, já aumentando o número de inovações em seu portfólio. Nesse sentido, entendemos que uma combinação de marcas fortes, portfólio diversificado, inovação, e bom posicionamento dos produtos podem ser ferramentas melhores e mais eficientes do que o hedge de custos apenas”, escreveram em relatório.

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A XP tem recomendação de compra para os papéis BRFS3 com preço-alvo de R$ 30, o que corresponde a uma valorização de 38,6% sobre o fechamento desta sexta.

Menos otimista, a equipe de análise do Credit Suisse tem recomendação neutra para as ações da BRF, justificando essa visão pela baixa clareza a respeito das margens em 2021 diante dos custos mais altos. Entretanto, o banco suíço também reconhece o bom trabalho realizado pela administração da companhia no ano passado.

Comparação de resultados

Em 2020, a Minerva registrou um lucro de R$ 697 milhões, bem acima dos R$ 16,2 milhões registrados no ano anterior. No quarto trimestre, contudo, o lucro foi de R$ 114,1 milhões, valor 53,2% menor que o do mesmo período do ano anterior.

Sobre o resultado da Minerva, o analista Ricardo Alves, do Morgan Stanley, destacou o Lucro Antes de Juros, Impostos, Depreciações e Amortizações (Ebitda, na sigla em inglês) de R$ 617 milhões, que foi 11% superior às projeções do banco.

“Apesar do pico nos preços de gado no Brasil, a Minerva continua a navegar bem devido a seu forte poder de mercado mesmo em um cenário de maiores custos de produção”, comentou o analista do Morgan Stanley. Ele ressalta que os volumes vendidos pela Minerva no Brasil aumentaram em 8% mesmo com os preços da carne 27% superiores na comparação anual.

Ricardo Alves analisa que isso possa ser consequência dos ganhos em market share (participação de mercado) em um momento no qual os frigoríficos menores reduzem o ritmo de abate devido à pressão advinda do recorde nos preços de gado.

A margem Ebitda, indicador obtido pela divisão do Ebitda pela receita líquida, da Minerva ficou em 10,8% no quarto trimestre, valor 1,6 ponto percentual inferior ao do mesmo período em 2019, porém 0,4 ponto percentual acima do que previa o Morgan Stanley.

O banco americano tem recomendação overweight (desempenho acima da média do mercado) para Minerva e preço-alvo de R$ 13,00 para as ações BEEF3, o que corresponde a uma valorização de 34% em relação ao patamar no qual os papéis fecharam nesta sexta.

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Para a equipe de análise da Levante Ideias de Investimentos, a receita líquida de R$ 5,7 bilhões nos últimos três meses de 2020, o Ebitda elevado, a margem Ebitda acima das expectativas e o anúncio do pagamento de dividendos em R$ 0,73 por ação foram os pontos positivos do balanço da Minerva.

Na ponta negativa, o desempenho da divisão Brasil, que teve menos de 70% de utilização nas unidades de abate, o desempenho fraco da Athena Foods e o resultado financeiro abaixo do esperado em razão da linha de derivativos acabaram impactando a margem líquida do frigorífico.

“A forte participação do mercado interno foi responsável pela queda na geração de caixa da companhia, isso porque nas transações realizadas com clientes internacionais a Minerva costuma receber adiantamento de seus clientes, diminuindo sua necessidade de caixa, ao contrário do que acontece com as relações no mercado interno, quando a Minerva fornece prazo de pagamento maior para seus clientes e/ou aceita receber o dinheiro após a entrega dos seus produtos”, comentam os analistas da Levante.

Já a BRF teve um lucro líquido de R$ 902 milhões no quarto trimestre de 2020, acima da média das expectativas dos analistas de R$ 572 milhões, com impulso da forte demanda da China e no Brasil. No ano, o lucro foi de R$ 1,39 bilhão, elevação de 14,6%.

O Ebitda foi de R$ 1,496 bilhão, excluindo efeitos fiscais, o que veio em linha com a previsão dos analistas, enquanto a receita líquida teve alta de 23,5%, para R$ 11, 47 bilhões. A receita líquida cresceu 18% em 2020, para R$ 39,47 bilhões, ante R$ 33,44 bilhões em 2019.

Diana Stuhlberger, analista da Eleven Financial Research, avalia que o segmento Brasil foi o destaque do trimestre, com crescimento de 3,4% do volume total de vendas na comparação anual impulsionado pela expansão de 6,8% na categoria de processados, algo que compensou a queda nas vendas de carne in natura.

“Vale destacar também o aumento de 10% nas vendas de produtos comemorativos apesar da pandemia. Já os preços médios cresceram 21,6% na comparação, o que decorre da estratégia comercial acertada e melhor mix de produtos e canais”, argumenta Diana.

Apesar da maior participação das vendas brasileiras no total, a analista da Eleven lembra que a demanda da China continuou forte ainda em consequência da peste suína africana, que afetou bruscamente o plantel de suínos do país. As vendas aos chineses cresceram em 20% na base anual.

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Já no segmento Halal (carne voltada a países do Oriente Médio que consomem alimentos segundo os preceitos do Corão), houve impacto do embargo da Arábia Saudita para importação da planta Kizad e também da redução da produção da Turquia devido à desvalorização da lira turca, de modo que o volume vendido pela BRF caiu 0,3% na comparação anual.

Nas exportações diretas, por sua vez, Diana explica que apesar do aumento dos preços, o forte crescimento nos custos de grãos acabou afetando a margem Ebitda negativamente, de modo que o Ebitda internacional caiu 16,4% em relação ao mesmo período de 2019 e a margem Ebitda recuou em 4,4 pontos percentuais na mesma base de comparação.

Para a analista, o resultado em geral foi muito positivo e mostrou que a BRF atingiu um novo nível de rentabilidade. “A companhia também permanece investindo em inovação e produtos de maior valor agregado, o que a torna ainda mais distante de uma companhia dependente essencialmente dos preços das commodities”, aponta.

Diana diz que apesar dos impactos da pandemia se estenderem para 2021 o ano será mais uma vez positivo graças ao melhor desempenho no mercado doméstico e a demanda asiática ainda aquecida. “O principal risco na nossa visão permanece o custo elevado dos grãos o qual a companhia, por enquanto, tem conseguido repassar no mercado doméstico.”

A Eleven tem recomendação de compra para as ações BRFS3 com preço-alvo de R$ 30,00, o que corresponde a uma valorização de 38,6% sobre o valor pelo qual os papéis encerraram as suas operações hoje.

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