Redução nos juros do rotativo do cartão está no radar e é mais fator de risco para bancos: qual o impacto no setor?

Analistas do Goldman Sachs fizeram análises de sensibilidade e apontam maior impacto no Nubank e no Banco Inter

Lara Rizério

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O noticiário sobre eventuais medidas do governo que podem afetar os bancos segue no radar dos analistas de mercado, aumentando a incerteza para os investidores do setor.

“Essa ainda é uma história em desenvolvimento, mas foi a principal preocupação dos investidores em nossa recente viagem ao Brasil”, aponta o Goldman Sachs.

Neste sentido, no último fim de semana, o jornal O Globo informou que a equipe técnica do Ministério da Fazenda estuda medidas para reduzir os juros do rotativo do cartão de crédito, enfrentando forte resistência do setor financeiro, que rejeita o tabelamento das taxas. Diante disso, estão na mesa alternativas com potencial para aliviar o custo das famílias que usam com frequência essa modalidade de crédito, apesar do custo elevado.

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Segundo a publicação, uma das ideias é exigir que as operadoras passem a diferenciar os clientes que usam o rotativo em dois grupos: um que cai no rotativo esporadicamente e logo quita a fatura e outro que vive pendurado. O primeiro teria uma taxa mais baixa, dentro do princípio de que os bons pagadores deixem de financiar os inadimplentes. Outra proposta é estimular a competição entre os bancos no crédito rotativo; a ideia é que as administradoras criem alternativas de financiamento para evitar que o cliente fique pendurado no rotativo por um mês.

Embora um projeto final ainda seja incerto, os analistas do Goldman Sachs executaram um cálculo preliminar para um limite potencial variando de 8% a 10% ao mês para todos os clientes versus a média do setor de 14% hoje.

Através dessa análise, a equipe do banco americano apontou ver um maior risco de baixa para o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE, na sigla em inglês) esperado para 2023 do Nubank (NUBR33), entre 1,6 e 2,3 pontos percentuais, e Banco Inter (INBR32), enquanto os bancos incumbentes – tradicionais de varejo – teriam variação entre 0,5 ponto e 1,3 ponto percentual de impacto.

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O impacto como uma porcentagem dos lucros esperados para 2023 provavelmente é influenciado por uma base de ganhos comprimida em Nubank, Inter, Bradesco (BBDC4) e Santander (SANB11).

“Ainda assim, dessa perspectiva, vemos maior risco de queda nos ganhos do Inter (38%-56%) e Nu (16%-24%), enquanto os incumbentes teriam variação negativa entre 2% e 9%”, apontam.

O Goldman baseou suas premissas de mix de empréstimos rotativos na divulgação das empresas (Nu, Itaú ITUB4 e Inter) e na média do setor para empresas que não divulgam essas informações (Bradesco, Banco do Brasil e Santander Brasil). Também assumiram índices de inadimplência (NPLs) de 60 dias de 50% em vez de NPLs de 90 dias de cerca de 45%, o que implica que aproximadamente metade da carteira rotativa não acumula juros.

Por fim, utilizaram as mesmas premissas de juros atuais para todas as empresas (14,2%), com base na média do setor com média de 20 dias nas linhas rotativas. “Notamos que o impacto no resultado e no ROE também pode ser maior se houver também um teto para as parcelas que rendem juros, que atualmente têm taxas médias em torno de 9% ao mês. No entanto, nada foi finalizado ainda e não há um projeto final de como isso poderia acontecer”, avalia o banco.

Os analistas seguem vendo que a implementação de um teto para as taxas do cartão de crédito rotativo pode ser um desafio, dado o uso generalizado de parcelamento sem juros, o que pode impactar negativamente não apenas os bancos, mas também os lojistas e consumidores.

Isso porque os cartões de crédito no Brasil são estruturados para que o parcelamento sem juros seja viável para os clientes.

“De fato, as transações sem juros representam a maioria das transações totais, em 73%. Portanto, para ser viável aos emissores de cartões, todo o risco de crédito é precificado nas parcelas do rotativo e do financiamento. O produto é complexo e cheio de nuances: os clientes não podem permanecer no limite rotativo por mais de 30 dias, o que significa que as taxas de juros anualizadas não são uma representação precisa do uso do produto, pois a maioria dos consumidores tenta limitar o uso de linhas de crédito rotativo e muda para linhas de parcelamento de juros mais baixos após um mês”, ressalta o Goldman.

Além disso, os índices de inadimplência na parcela rotativa são elevados (acima de 40% por 90 dias, com perdas efetivas possivelmente acima desse patamar). Embora as taxas do cartão de crédito rotativo pareçam altas (acima de 400% anualizadas), isso é distorcido pelo percentual relativamente baixo de cartões de crédito rotativo, curta duração e alto percentual de parcelamento sem juros.

O banco também aponta que o teto das taxas pode levar a consequências não intencionais, pois 1) os bancos podem deixar de oferecer essas linhas aos consumidores, como visto recentemente com o crédito consignado para aposentados; 2) interromper a oferta de limite do cartão de crédito pode afetar diretamente o gasto do consumidor, já que o cartão de crédito representa 40% do consumo das famílias; 3) a adoção do cartão de crédito está diretamente ligada à inclusão financeira no Brasil (os cartões em circulação saltaram para 190 milhões em 2022 de 100 milhões em 2019); e 4) o governo poderia observar uma redução na arrecadação de impostos tanto pela redução da atividade econômica quanto pela redução do imposto de renda/receita das instituições financeiras.

“Em nossa visão, spreads menores e sustentáveis só podem ser alcançados por meio da redução dos custos de captação, da carga tributária e da melhoria das garantias, entre outros fatores. A longo prazo, acreditamos que o Brasil precisaria mudar para um modelo de empréstimo de cartão de crédito mais tradicional, com uma porcentagem maior de linhas rotativas, a taxas de juros muito mais baixas”, avalia.

Em conferência com os investidores e bancos do setor, o Bradesco BBI destacou preocupações recentes, sendo uma delas a probabilidade de implementação do limite potencial para o rotativo dos cartões de crédito, enquanto os bancos disseram que estão conversando com o Ministério da Fazenda sobre isso.

“A nosso ver, trata-se de um risco para os bancos, embora acreditemos que uma alternativa para o setor seria propor uma nova estrutura de cartão de crédito, com mudanças nas modalidades (parcelado com juros e parcelado sem juros), para evitar potenciais limites”, avalia o BBI.

Outras preocupações no radar são a qualidade dos ativos, condições de crédito e reforma tributária.

“Mantemos nossa visão cautelosa sobre os bancos para 2023, pois esperamos não apenas pressão sobre a inadimplência no segmento de pessoas físicas, mas também normalização/deterioração de NPLs corporativos de níveis historicamente baixos, especialmente tendo em conta as condições macroeconómicas difíceis. Além disso, apontamos uma forte regulamentação, com discussões sobre possíveis novos tetos para as taxas de juros, enquanto possivelmente uma concorrência mais acirrada dos bancos estatais pode impactar o sistema financeiro”, avalia o BBI.

Sobre o tema específico, o BBI aponta que o resultado potencial da mudança do rotativo ainda é incerto e possui muitas variáveis a serem definidas e possivelmente discutidas com os bancos. Ainda assim, mantém a visão de que os limites são sempre negativos para os bancos, sendo que um potencial teto nas taxas do cartão de crédito rotativo para níveis semelhantes aos do cheque especial (cerca de 8,0% ao mês) levaria a um impacto anual no lucro líquido de cerca de 8,0% em média para Bancos brasileiros.

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.