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“Damos nosso jeito, e nos damos bem”: queda do Bitcoin é vista com indiferença por quem abraçou a cripto em El Salvador

Ao contrário dos brasileiros, salvadorenhos não veem a moeda digital como investimento – e, por isso, escaparam da crise nos preços

Por  Paulo Alves -

Nahuizalco é um pequeno município com cerca de 50 mil habitantes no sudoeste de El Salvador, a cerca de 70 quilômetros da fronteira com a Guatemala – e, até nessa localidade remota, os salvadorenhos seguem utilizando Bitcoin (BTC) para pagamentos desde que o Congresso aprovou e o presidente sancionou, em 7 de setembro de 2021, a polêmica legislação que ficou conhecida como “Lei Bitcoin”.

Na prática, a lei obrigou estabelecimentos a aceitarem BTC, além do dólar, que até então era a única moeda do país, para receber pagamentos dentro do território. Um dos beneficiados foi Miguel Martínez, comerciante de 41 anos que há mais de dois anos tem um negócio de venda de gás GLP em Nahuizalco e, desde o ano passado, aceita a criptomoeda dos clientes.

“No início foi bastante complicado porque as pessoas não assimilavam isso, pensavam que seria uma moeda única, muitas complicações. O sistema foi implementado da noite para o dia, as pessoas não conheciam nada. Mas, com o passar do tempo, muita gente passou a aceitar porque a chegada do Bitcoin lhes favoreceu de alguma maneira”, contou Miguel ao InfoMoney CoinDesk, em conversa por meio de uma chamada de vídeo no celular, conectado em uma lan house que é um dos poucos locais de Nahuizalco com conexão Wi-Fi (parte do bate-papo pode ser conferida no player acima).

Apesar da precariedade tecnológica na localidade, Miguel tem tudo o que precisa para aceitar Bitcoin de seus clientes, a maioria formada por outros pequenos comerciantes da região, como padarias e lanchonetes que vendem tortilhas e pupusas, prato típico salvadorenho que consiste em uma massa de tortilha com recheio salgado.

Se antes ele era obrigado a cobrar os clientes presencialmente, com o Bitcoin tudo mudou. Há menos de um ano, ele passou a receber o pagamento à distância antes de sair, de moto, para efetuar as entregas do dia. Quando é preciso cobrar presencialmente, ele usa uma máquina de pagamentos com Bitcoin desenvolvida pela Paxful, uma empresa cripto com forte presença em El Salvador.

Mas, a maioria dos salvadorenhos usa a carteira Chivo, lançada pelo governo no ano passado para promover o uso da moeda digital. Todos que baixaram a Chivo ganharam US$ 30 em Bitcoin para gastar como quisessem, e comerciantes como Miguel aproveitaram para angariar clientes dispostos a testar a novidade.

No final, quem abraçou a tecnologia continuou usando a criptomoeda mesmo com o fim do bônus dado pelo governo. “Mais ou menos a metade paga em dólares, e a outra metade em Bitcoin”, revela o comerciante.

Inclusão financeira é um problema profundo no pequeno país da América Central. Segundo dados do Banco Mundial, apenas 30% da população possuía uma conta bancária em 2017. A partir de 2021, com a transformação do Bitcoin em moeda de curso legal, essa realidade começou a mudar para parte da população, mesmo com a dificuldade de acesso à tecnologia.

A experiência do país foi contestada logo de cara por entidades como o Fundo Monetário Internacional (FMI), e só ficou pior com o resultado ruim do Bitcoin nos últimos sete meses. De US$ 69 mil novembro do ano passado, a criptomoeda chegou a despencar para menos de US$ 18 mil há poucos dias, uma desvalorização de quase 75%.

Mas, ao contrário do que se possa pensar, a queda brutal de preço da moeda digital não parece ter feito diferença para o usuário médio de Bitcoin em El Salvador. Os preços dos produtos vendidos no país são denominados em dólares, e quem recebe em Bitcoin costuma converter o ativo na hora para a moeda americana como meio de escapar da volatilidade.

Diferentemente do Brasil, onde as criptomoedas não têm espaço como solução de pagamentos pela enorme penetração do Pix, em países como El Salvador o BTC opera como uma rede de pagamentos aberta para todos, que funciona 24 horas por dia.

O experimento de El Salvador é inspirado no principal propósito descrito pelo inventor do Bitcoin no paper que introduziu a ideia da moeda digital, publicado em 2008. Nele, o inventor descreve a tecnologia como um dinheiro digital que funcionaria sem intermediários e sem necessidade de estabelecer confiança entre as partes. Por isso, poderia dispensar bancos privados ou bancos centrais.

Em El Salvador, Bitcoin não é investimento, é o Pix.

“Se essas pessoas forem a um banco pedir uma máquina de cartão, o banco não vai dar a eles. Então eles usam o Bitcoin como uma rede bancária independente”, explica Will Hernández, diretor de negócios da Paxful para a América Latina. “Empresários e comerciantes que já conhecem a tecnologia, que já foram educados, que já entendem o que é o Bitcoin, guardam todo o Bitcoin que recebem. Mas a maioria converte imediatamente para dólares”.

Ao contrário do que aconteceu com as reservas do governo em Bitcoin, que caíram mais de 50% nos últimos meses, o povo salvadorenho parece ter passado ileso pela crise da criptomoeda. Ao menos, é assim na pequena Nahuizalco, onde mora e trabalha Miguel Martínez.

“Nós que usamos o sistema do Bitcoin já nos adaptamos às mudanças que aconteceram. É verdade que o quanto pode subir também pode cair, mas fomos nos adaptando. A mim pessoalmente não afeta se sobe ou desce, damos nosso jeito, e nos damos bem”.

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