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Greve dos caminhoneiros: governo inicia semana "entre a cruz e a espada" para evitar movimento

Há um profundo descontentamento entre os caminhoneiros, mas a categoria se divide sobre a conveniência de uma paralisação no momento

Onyx e Bolsonaro
(Marcos Corrêa/PR)

SÃO PAULO - Apesar do pacote de concessões anunciado pelo governo na semana passada, o incômodo dos caminhoneiros voltou a crescer com a efetivação de um aumento de R$ 0,10 no preço do litro do diesel pela Petrobras na última quarta-feira (17), após ter sido suspendido dias antes pelo próprio presidente Jair Bolsonaro (PSL). Diante do incômodo da categoria, o governo ensaia novos movimentos de aproximação, em uma tentativa de debelar os riscos de uma crise.

Nesta segunda-feira (22), integrantes da CNTA (Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos) serão recebidos pelo ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas. Ele foi uma das principais figuras do governo na articulação do pacote de medidas para os caminhoneiros autônomos, anunciado na última terça-feira (16). A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, também deve se encontrar com líderes de caminhoneiros.

Dentre as iniciativas apresentadas há uma semana pelo governo, estão a criação de uma linha de crédito de R$ 30 mil por caminhoneiro para a manutenção de veículos e compra de pneu, além de um cartão para pagamento prévio de combustível – o que mitigaria os efeitos da flutuação dos preços – e a liberação de R$ 2 bilhões para reparo de rodovias federais.

O reajuste de 4,84% do diesel, somado ao não cumprimento de regras de piso mínimo para o frete desde o ano passado, no entanto, coloca a atual gestão sob o risco de uma nova greve da categoria, previamente agendada para a próxima segunda-feira (29). Em meio à ameaça, o governo inicia a semana se movimentando, receoso de que a paralisação contamine sua agenda legislativa e mine ainda mais a frágil atividade econômica observada nos últimos meses – o que também atingiria sua popularidade em queda.

Ontem, conforme noticia o jornal Valor Econômico, o caminhoneiro Wandrelei Alves, o Dedeco, uma das lideranças da categoria, disse que só há duas saídas para evitar uma greve. "Ou o governo faz valer o piso mínimo em todo o país no prazo máximo de três dias após essa reunião, ou reduz em torno de R$ 0,50 a R$ 0,60 o preço do diesel até que o piso comece a valer", disse.

Tal postura, contudo, não é consenso entre os caminhoneiros. Também há na categoria quem, embora incomodado com a situação, reconheça boa vontade nos gestos do governo e defenda que falar em greve no atual momento seria prematuro. Foi o que disse o líder do CNT (Comando Nacional do Transporte), Ivar Schmidt, em entrevista ao Broadcast na semana passada. Ele avalia que novos ajustes no valor do diesel podem desencadear uma paralisação nacional na mesma dimensão que a ocorrida há pouco menos de um ano, durante a gestão Michel Temer (MDB).

Internamente, há uma disputa entre Wallace Landim, conhecido como Chorão – um dos principais líderes da greve do ano passado e que se aproximou do governo Bolsonaro – e Dedeco, que tem como base os estados da região Sul e menor interlocução com o Planalto. O racha na categoria representa risco adicional ao governo em meio à possibilidade de a ala descontente conseguir implementar uma greve. Neste caso, o temor gira em torno de um possível "efeito-dominó".

Na avaliação do ministro-chefe da Secretaria de Governo, Carlos Alberto dos Santos Cruz, o governo Bolsonaro está "entre a cruz e a espada" na negociação com os caminhoneiros, entre uma decisão política que pode evitar uma paralisação do transporte de cargas no país e o limite econômico. Em entrevista ao jornal O Globo, ele defendeu que cabe à categoria entender as restrições matemáticas do Executivo para atender todas as reivindicações.

"O governo precisa entender os segmentos sociais, no caso um segmento importante que é o de transporte de cargas, mas o setor também tem de entender a conjuntura em que vive, que não é isolada da conjuntura nacional. Toda essa carga de sacrifícios tem que ser da responsabilidade de todos", afirmou o ministro.

"Os caminhoneiros são trabalhadores, as condições de transporte de carga no Brasil são difíceis, é um trabalho desgastante e honroso que move uma grande parte da economia do Brasil. Tem problemas, e o governo tem de procurar ajudar na solução, mas a categoria também tem de entender que isso tudo existe dentro dos limites do contexto econômico, de legislação, que precisa ser entendido também", completou.

Há um profundo descontentamento entre os caminhoneiros. Segundo um levantamento feito pela CNTA com sua base de associados (140 sindicatos, nove federações e uma associação colaborativa), a conclusão é que há uma "insatisfação generalizada" da categoria. Mesmo que o setor mostre divisão interna, as sinalizações já são suficientes para colocar o governo em estado de alerta, dados os efeitos esperados caso uma greve se confirme.

"Uma nova greve dos caminhoneiros, impactados em suas atividades pelo cenário econômico adverso, virou um tema de risco na agenda de curto e médio prazo do governo Jair Bolsonaro. Isso porque 'colocaria na mesa' do presidente uma pauta com potencial explosivo sobre a economia e a política", observam os analistas políticos da consultoria Arko Advice.

Segundo eles, além de afetar negativamente ainda mais o PIB (Produto Interno Bruto), teria o potencial de impor novos obstáculos à tramitação de agendas como a reforma da Previdência no Congresso Nacional. A proposta, apresentada há mais de dois meses pelo governo, ainda patina em sua tramitação, com dificuldades para passar pelo primeiro desafio da votação na CCJC (Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania) da Câmara dos Deputados.

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