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Solução ou tiro no pé: atacar Bolsonaro ajuda ou atrapalha Alckmin na eleição?

Para reaver faixas do eleitorado, Alckmin avança sobre Bolsonaro, mas estratégia pode trazer danos colaterais à campanha do tucano

Geraldo Alckmin e Jair Bolsonaro
(Bandeirantes)

SÃO PAULO - A cerca de um mês do primeiro turno, Geraldo Alckmin (PSDB) é o candidato tucano que pior aparece nas pesquisas para uma corrida presidencial desde 1994. O insucesso até o momento verificado se dá em grande medida pela perda de apoio de eleitores que endossaram um nome do partido em outros carnavais, mas hoje olham com bons olhos para outras opções ou se dizem frustradas ou indecisas.

Um dos herdeiros desta insatisfação com os tucanos é o deputado Jair Bolsonaro (PSL), líder na corrida presidencial nas simulações que desconsideram o nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), preso há quase cinco meses por corrupção passiva e lavagem de dinheiro e que teve seu pedido de registro indeferido pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Parte da estratégia da campanha de Alckmin se constrói a partir desta constatação. É preciso reconquistar território perdido para avançar ao segundo turno.

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De acordo com a última pesquisa Datafolha, realizada nos dias 20 e 21 de agosto, Bolsonaro tem 22% das intenções de voto, contra 16% da segunda colocada, a ex-senadora Marina Silva (Rede). Alckmin, nesta simulação, conta com a preferência de apenas 9% dos entrevistados. Nem mesmo em redutos tradicionalmente tucanos ele tem resultado satisfatório.

No Sudeste, Alckmin aparece com 12% das intenções de voto, ao passo que Bolsonaro tem 22%. Nem mesmo em São Paulo, estado que governou por mais de uma década, o tucano supera seu adversário. Segundo a mesma pesquisa, o candidato do PSDB é apoiado por 18% dos eleitores em seu colégio eleitoral, contra 21% do deputado, situação de empate técnico. Eis um mapa dos problemas enfrentados por Alckmin a partir das intenções de voto por região e em cinco unidades da federação:

Candidato Sudeste Sul Nordeste Centro-oeste Norte SP RJ MG DF PE
Jair Bolsonaro 22% 30% 14% 29% 26% 21% 28% 21% 28% 12%
Marina Silva 16% 10% 19% 16% 23% 12% 20% 17% 17% 18%
Ciro Gomes 9% 8% 14% 5% 10% 8% 10% 9% 10% 9%
Geraldo Alckmin 12% 6% 5% 8% 6% 18% 4% 8% 7% 5%
Álvaro Dias 3% 13% 2% 2% 1% 3% 3% 3% 3% 2%
Fernando Haddad 5% 2% 5% 1% 2% 6% 3% 4% 5% 3%
Brancos, nulos e indecisos 25% 27% 34% 27% 24% 23% 23% 31% 22% 43%

Fonte: Datafolha (BR-04023/2018)

Para crescer na corrida eleitoral, Alckmin terá de reaver parte dos eleitores simpáticos a candidatos do PSDB em tempos passados. Nos primeiros dias de campanha no rádio e na televisão, campo em que conta com expressiva vantagem em relação aos adversários em função da ampla aliança construída para a disputa, o tucano iniciou ataques a Bolsonaro – alguns sutis, outros mais duros.

A estratégia, porém, não é consenso entre aliados. Há quem desconfie que usar a televisão contra o capitão reformado poderia dar legitimidade a ele como concorrente em públicos distintos com os quais hoje dialoga. É possível que, no afã de abater o adversário, Alckmin pode ver sua rejeição crescer e ficar de fora de eventual movimento de migração de votos na centro-direita.

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Tal preocupação foi compartilhada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em entrevista concedida ao jornal Folha de S.Paulo no último domingo (2). "[Dizer que] Bolsonaro apoia o regime militar. Já acabou! Reforça os deles. Como muda? Não é atacando. O povo, no fim, não gosta de ataques, sobretudo ataques pessoais. Atacar Bolsonaro é gol contra", disse.

Para o cientista político Jairo Pimentel, pesquisador do CEPESP (Centro de Política e Economia do Setor Público) da FGV, Alckmin poderia optar por centrar ataques ao PT. Seria uma estratégia para recuperar o espaço perdido no antipetismo. Muitos analistas políticos chamam atenção para o fato de o PSDB ter perdido o monopólio desta narrativa como uma das causas do enfraquecimento da sigla. Os tucanos também viram a sombra da Lava Jato bater à sua porta, o que gerou desgaste entre eleitores tradicionais.

"Pode ser que a melhor estratégia para Alckmin não seja bater direto em Bolsonaro, mas formar uma estratégia de polarização com o lulismo, atacar Lula e Haddad, formar a ideia de que ele representa o antipetismo, que também é considerado por boa parte dos 'eleitores azuis' um mal necessário a ser combatido", observou durante o programa Conexão Brasília.

O especialista observa que, caso Alckmin queira atacar Bolsonaro, as ações terão que ser cirúrgicas, para não retrair ainda mais o eleitorado antipetista que votou em um candidato tucano nas últimas eleições, mas hoje está decepcionado.

"Se Alckmin pensar nessa estratégia de polarização e subir, pode ser que na última semana, ele tendo maior possibilidade de vencer Haddad no segundo turno do que Bolsonaro, uma parte dos eleitores do deputado, mas não muitos, somada a uma parte dos indecisos pode migrar para Alckmin", complementou.

Pimentel acredita que o tucano terá a difícil missão de convencer um eleitor que hoje observa o PSDB como "partido muito mais parecido com o PT do que era no passado". Atacar diretamente a nova escolha destes eleitores descrentes poderia ter efeito contrário.

De acordo com pesquisa XP/Ipespe realizada entre 27 e 29 de agosto, 17% dos eleitores de Bolsonaro dizem que apoiariam Alckmin se o deputado não participasse da disputa. A migração ao tucano supera o fluxo para outros candidatos, como Álvaro Dias (Podemos), com 12%, Marina Silva, com 11%, e João Amoêdo (Novo), com 10%. Apenas o grupo dos brancos, nulos e indecisos receberia transferência maior neste momento: 41%.

Apesar das ressalvas, aliados de Alckmin dizem que pesquisas qualitativas encomendadas pela coligação indicaram que a campanha acertou o tom das primeiras propagandas apresentadas no horário eleitoral gratuito na televisão, dividindo ataques menos enfáticos a Bolsonaro com a apresentação positiva do candidato tucano, sua biografia e ideias. Reposta mais efetiva será dada na próxima rodada de pesquisas eleitorais.

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