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Eleições 2018: de autoritários a manipuladores, a linguagem corporal dos candidatos no debate presidencial

A pedido do InfoMoney Alexandre Monteiro, especialista em linguagem corporal, analisou uma série de reações dos candidatos

Cabo Daciolo
(Reprodução autorizada Band)

SÃO PAULO - Na semana passada, aconteceu o primeiro debate com os candidatos à presidência da república pelas Eleições 2018. Estavam presentes: Álvaro Dias (Podemos), Cabo Daciolo (Patriota), Ciro Gomes (PDT), Henrique Meirelles (MDB), Jair Bolsonaro (PSL), Geraldo Alckmin (PSDB), Guilherme Boulos (Psol) e Marina Silva (Rede). Todos eles tiveram a oportunidade de apresentar suas propostas para o governo - mas será que acreditam mesmo no que dizem?

Muitas vezes o eleitor deixa passar alguns sinais corporais dos candidatos. Por exemplo, você sabe o que significa quando alguém coloca as mãos à mostra? Ou quando o dedo toca o rosto? Os gestos podem significar muita coisa. Com o objetivo de estudar as reações de cada um, o especialista em linguagem corporal Alexandre Monteiro fez uma análise a pedido do InfoMoney dos principais momentos do debate.

Ele explica que, através da linguagem corporal, é possível conhecer as características comportamentais mais evidentes dos candidatos, o que os influencia, como reagem sob pressão, quais os seus valores fundamentais, motivações, objetivos e quais os seus maiores receios. Por meio dos gestos dos candidatos durantes suas falas, o especialista examinou diversas reações e explicou o que significam. 

Início do debate 

Na abertura do debate, a primeira observação de Monteiro é que todos os candidatos estão em pé, menos Jair Bolsonaro. "Estar sentado demonstra cansaço ou desinteresse e são caraterísticas que não indicam liderança", afirma o especialista.

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Outro ponto que chamou a atenção do especialista foram as roupas. Se vestir bem não é só usar terno e gravata ou um vestido formal, mas adequar a sua forma de vestir à imagem que quer passar para o público. Quase todos os candidatos se vestem de forma formal. Além disso, segundo o especialista, a cor da gravata é adaptada ao tipo de impressão que quer passar: usar a cor vermelha transmite energia, poder e domínio; a cor azul-escura busca passar credibilidade e confiança; verde para transmitir esperança ou patriotismo e azul-clara é relacionada aos sentimentos de serenidade e paz.

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"No caso das mulheres, o terno e a camisa têm o mesmo impacto em relação às cores e se aplicam as mesmas regras das gravatas para adereços como lenços, colares e pulseiras. Candidatos que usam camisa e arregaçam as mangas podem querer se identificar com a classe trabalhadora, para que pensem 'sou como você'".  

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No primeiro debate presidencial, a blusa de Marina Silva é vermelha, a gravata de Ciro Gomes tem riscas vermelhas, a gravata de Geraldo Alckmin é azul clara, Guilherme Boulos está com as mangas arregaçadas, Henrique Meirelles está com a gravata com detalhes em verde, e Jair Bolsonaro usa gravata azul escura. 

Jair Bolsonaro  

De acordo com a análise de Monteiro, a linguagem corporal de Bolsonaro indica que ele procura autoridade e controle sobre pessoas ou situações. Seu discurso é claro e rápido, conciso e breve, com tom de voz firme e elevado.

"Ele usa linguagem afirmativa, mais afirmações do que questões, inclina-se para a frente, interrompe frequentemente, ao falar tem tendência a mover a mão na vertical, faz movimentos como fosse cortar o ar ou com as palmas das mãos para baixo, pões as mãos na cintura, faz contato visual firme e intenso, aponta com o dedo esticado, postura ereta e pés afastados, enruga a testa frequentemente, não inclina a cabeça para o lado, e sob pressão aumenta o tom de voz", diz Monteiro. 

Segundo ele, pessoas que apresentam esse tipo de linguagem são objetivas, orientadas pela racionalidade e resultados. "Não gostam de perder tempo, são confiantes, responsáveis, gostam de arriscar, são rigorosas, manipuladoras, gostam de confrontar e pressionar, não gostam de acumular problemas, em geral não pensam muito antes de agir, gostam de liberdade, são competitivas, não gostam de repetir tarefas, de burocracia ou de delegar. Sob pressão confrontam e se tornam mais exigentes e rigorosas". 

"Quando o nosso inconsciente não gosta ou não acredita no que dizemos gera micro-coceiras", diz Monteiro. Em um momento de sua apresentação, Bolsonaro faz justamente este gesto. Durante a "coceira", ele diz: "nunca me integrei ao [poder] executivo", na frase, "Nossa missão aqui é mais que dar esperança ao povo, é dar certeza que faremos um governo realmente diferente. Nunca integrei o executivo, entre outras medidas...". 

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"Apesar de imagem de autoridade, ele se apresentou muito nervoso e ansioso, comportamento refletido pelos lábios que indicam um estado de tensão emocional. Quanto maior é a pressão exercida pelos lábios, maior é a tensão", diz o especialista. Esse gesto aparece na primeira frase, quando diz: "Agradeço a Deus pela oportunidade". 

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Outro momento destacado por Monteiro é quando Bolsonaro ouve a pergunta de Álvaro Dias. "Seguramos a cabeça quando estamos aborrecidos. Técnica que descredibiliza o que o outro esta dizendo", explica. 

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"Quando estamos ouvindo e não gostamos coçamos o ouvido”, explica Monteiro. A pergunta de Dias era sobre a equidade de salários para homens e mulheres. 

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Álvaro Dias 

Segundo o especialista, Álvaro Dias (Podemos) e Jair Bolsonaro (PSC) têm o mesmo perfil de liderança e partilham de muitos comportamentos semelhantes. "No entanto, o candidato do Podemos apresentou menos sinais de nervosismo e demonstrou mais gestos territoriais como apoiar ambas as mãos na mesa com os dedos abertos, que serve para demonstrar autoridade, confiança e que não quer ser desafiado. Quanto maior for a inclinação do corpo para a frente, maior é a autoridade que quer exercer", explica Monteiro.  

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Monteiro destacou a postura dominante de Dias. "As pessoas que têm uma personalidade dominante observam mais e falam menos, arregalam os olhos para exercer seu poder. Ele também virou os olhos em sinal de superioridade ou desdém algumas vezes, porque estava em desacordo com o que foi dito ou feito por outro candidato", explica o especialista.

Ciro Gomes

Ao analisar a postura do candidato Ciros Gomes (PDT), Monteiro afirma que ele é energético, espontâneo, criativo e dedicado às pessoas. "Além disso, é o tipo de pessoa quer ser ouvida, é inovador, julga as pessoas e toma decisões guiado por instintos ou sentimentos. Valoriza a harmonia, a empatia e não segue regras rígidas, aceita bem as exceções, gosta de ser o centro das atenções, usa o humor, é distraído, impaciente e curioso. Sob pressão confronta, verbaliza sentimentos, culpa os outros a nível pessoal e demonstra emoções", diz o especialista.

Segundo ele, Ciro pertence ao grupo de pessoas que querem ser aceitas e que gostam de se conectar com os outros. "Ele faz muitos gestos com as mãos e os braços, manifesta emoções e apresenta muitas expressões faciais de alegria e tristeza. O tom de voz é alto, o diálogo é focado nas pessoas e nas relações, faz movimentos rápidos, não fica quieto por muito tempo no mesmo local e o contato visual é inconstante", finaliza. 

Segundo Monteiro, falar com as palmas das mãos para cima revela colaboração e vontade de ajudar. Nesse momento Ciro saudava a audiência. "Boa noite à família brasileira que apesar de estar tarde ainda está com paciência de nos assistir", disse. 

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O especialista destacou outro momento, em que Ciro estava com as mãos na barriga. "Falar com as mãos na frente da barriga indica uma afirmação pragmática", diz. Quando faz o gesto, ele estava falando que, caso eleito, "o Brasil terá uma política industrial de comércio exterior que não alimente a ilusão de que expondo o país à competição externa vamos melhorar de vida". 

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Monteiro identificou também o candidato lambendo os lábios na parte superior. "Fazer isso antes de falar é um indicador que a pessoa vai tentar deixar a história a seguir mais agradável. Além disso, pode ser visto como uma tentativa de manipulação", afirma o especialista. Nesse momento, Ciro fez o gesto antes de começar a falar sobre suas propostas para o primeiro ano de governo. 

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Geraldo Alckmin

Segundo Monteiro, Alckmin é um pessoa racional, frio nas relações, organizado, pontual, minucioso, conservador, lógico, detalhista e com dificuldades de adaptação a mudanças. "Ele não gosta de ser pressionado, valoriza regras, sistemas, responsabilidades, justiça, igualdade entre as pessoas e gosta de ficar sozinho. Sob pressão atrai a atenção para fora do problema, foca em outras coisas, controla as emoções e receia não estar certo", afirma o especialista.

Assim, ele pertence ao grupo de pessoas que querem sempre estar certas. "Tem postura rígida, entra nos locais com o queixo na horizontal, faz poucos movimentos com os braços e mãos, exibe poucas expressões faciais, tem tom de voz baixo, geralmente fala com as palmas das mãos viradas para baixo, usa mais gestos de reprovação (como acenar negativamente com a cabeça), usa expressão facial de desprezo e nojo e só faz contato visual intenso quando a sua opinião é contrariada, quando está tenso confronta o outro", explica Monteiro. 

Assim como Bolsonaro, Alckmin também demostrou nervosismo. "Os lábios que indicam um estado de tensão emocional", afirma Monteiro. O gesto acontece quando ele afirma: "quero cumprimentar vocês mulheres e homens que nos assistem" no início do debate. 

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Monteiro destaca um sorriso torto de Alckmin. “Ao levantar apenas um dos lados do lábio, sorrindo assimetricamente, ele mostra uma microexpressão de desprezo", explica. O gesto aconteceu durante uma pergunta sobre desemprego, mais especificamente na frase "O Brasil precisa gerar emprego e renda". 

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Marina Silva

De acordo com a análise, Marina Silva (Rede) tem uma linguagem corporal de uma pessoa ouvinte, organizada, que não corre riscos, que gosta de consenso, preocupada, que valoriza as pessoas, trabalha bem em equipe, gosta de agradar os outros, que em geral pensa bastante antes de agir, pois tem medo de se arrepender. "As relações de amizade são importantes para ela, gosta de delegar, é tradicionalista, para ela a felicidade está acima dos resultados. Sob pressão, ela paralisa", explica Monteiro. 

Pertence ao grupo de pessoas que buscam serenidade e alianças. "Este tipo de liderança é percebido como moderada porque tem um comportamento calmo, com tom de voz baixo, gestos condicionados e perto do tronco. Suas expressões faciais de alegria são tímidas e questiona mais do que afirma", diz. 

Para Monteiro, um dos maiores desafios de Marina é o tom de voz agudo. "Ter um timbre mais grave faz com que a pessoa seja percebida como mais confiante. Por  outro lado, o timbre de voz mais agudo está relacionado com submissão. Candidatos a cargos de poder, que naturalmente tenham a voz mais grave têm de saber que têm uma vantagem. São competências inatas que muitos não aproveitam para demonstrar confiança e liderança", explica.

A voz é indicador de estados emocionais e reflete o perfil comportamental. A forma como as palavras serão percebidas depende bastante do tom de voz, volume, velocidade e timbre.

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Na foto abaixo, o especialista compara as posturas de Marina e Alckmin. "Quem apresenta uma postura de cabeça e voz baixa, expressão fechada e fazem poucos gestos são pessoas nervosas, inseguras, medrosas e muito ansiosas", explica. Marina se demonstrou assim em alguns momentos do debate. 

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Esse movimento da mão de baixo para cima, com as pontas dos dedos unidas em forma de concha significa que a fala será assertiva e analítica, segundo o especialista. Nesse momento Marina estava falando sobre desemprego. "Quatro anos atrás as mortes violentas estavam em torno de 59 mil por ano. Hoje temos 63 mil pessoas assassinadas em um país que tem 13 milhões de desempregados. E para ter emprego precisa ter investimento e para recuperar investimento precisa ter credibilidade", afirmou a candidata.  

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Guilherme Boulos 

  • Segundo a análise de Monteiro, Guilherme Boulos (PSOL) pertence ao grupo de pessoas que procuram justiça e desafiam o status quo. "São verdadeiros idealistas procurando o melhor das coisas, mesmo nas piores pessoas e situações. Enquanto eles podem ser vistos como calmos, reservados, ou tímidos, defendem com muito afinco suas ideias e causas", explica. 

Boulos gesticula demais com as mãos ou braços e isso são sinais de pessoas manipuladoras, segundo Monteiro. Além disso, novamente, falar com as palmas das mãos para cima revela colaboração e vontade de ajudar. 

Nesse momento com as palmas das mãos para cima, Boulos falava sobre as primeiras medidas caso seja eleito. "Vamos revogar as medidas tomadas pelo governo Temer. A reforma trabalhista que agravou a situação dos trabalhadores e tirou direitos, reforma previdenciária que tentaram aprovar e nós não vamos deixar isso acontecer", diz. 

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"Gesto com as mãos em pinça, revela que tem informação bem fundamentada e exata", explica Monteiro. Nesse momento Boulos estava no mesmo tópico citado acima explicando seus primeiros passos, caso eleito. 

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Cabo Daciolo 

Cabo Daciolo (Patriota) pertence ao grupo de pessoas que procuram autoridade e ter controle sobre pessoas ou situações, segundo Monteiro. "Tem discurso muito rápido, usa linguagem acusatória, sempre com o queixo levantado e reclama frequentemente. Ao falar, tem a tendência de mover a mão na vertical, faz movimentos como fosse a cortar o ar, não faz contato visual e grita", diz Monteiro. 

Este comportamento indica que gosta confrontar, em geral não pensa muito antes de agir, prefere se arrepender, gosta de liberdade e gosta de resolver tudo do seu jeito. "É muito competitivo, foca no problema, não procura racionalidade, se sente incompreendido muitas vezes", afirma o especialista. 

Segundo Monteiro, falar rápido geralmente deve ser avaliado em conjunto com o restante da linguagem corporal. "Aqueles que apresentam falas rápidas, têm postura aberta, queixo levantado e falam com as mãos revelam raciocínio rápido, ansiedade e raiva. São pessoas mais emocionais", explica se referindo a Daciolo. 

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Ele aponta com o polegar no momento em que se refere a Álvaro Dias, que se apresentou antes dele e não comentou sobre a pergunta de desemprego feita por Ricardo Boechat. "Isso significa que ele não o reconhece como adversário", diz o especialista. Daciolo diz: "Esses aqui representam a velha política do Brasil. Eu tenho a minha direita um candidato que tem mais de 50 anos de vida pública", afirmou se referindo a Dias. 

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"Ao se referir a Alckmin, ele fala com a palma da mão virada para cima, o que demonstra colaboração ou amizade", diz. O candidato afirma: "Do meu lado esquerdo tem o Alckmin com 46 anos de vida pública", diz.

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"Ao citar Ciro Gomes, ele aponta o dedo indicador, o que demonstra agressividade e concorrência", diz. "Eu vou para Ciro que tem 36 anos de vida pública. Chega. Essa é a velha política que engana o povo", afirmou Daciolo. 

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"O gesto de uma 'pistola' com as mãos, significa opinião contrária", diz o especialista. "Eles [outros candidatos] têm solução pra tudo, falam tudo, mas não mudam nada. E nesse exato momento o povo brasileiro tem a oportunidade de mudar e trazer o novo par a nação", diz Daciolo ao fazer esse gesto. 

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"Levantar o queixo e olhar para a câmera para falar indica um discurso estudado ou decorado", afirma. Ele faz esse gesto quando diz: "Tem um direito que está dentro da Constituição Federal no artigo n°6 que vai falar dos direitos sociais - você tem direito ao trabalho e eu vou te dar o trabalho", afirma. 

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Henrique Meirelles 

De acordo com Monteiro, "Henrique Meirelles (MDB) revela muita incongruência na sua linguagem corporal, o que pode significar que ele esconde seu verdadeiro perfil". 

O candidato é racional, frio nas relações, conservador, estrategista, tem dificuldades de se adaptar a mudanças, é rigoroso, demora para tomar decisões e não gosta de ser pressionado. "Além disso, ele valoriza regras, sistemas, responsabilidades, a justiça e a igualdade entre as pessoas e é detalhista", afirma o especialista. 

"Gestos com as mãos acima do tronco indicam pessoas desorganizadas", afirma Monteiro. 

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Ele identificou também o candidato lambendo os lábios na parte superior. "Fazer isso pode ser visto como uma tentativa de manipulação", afirma o especialista. Meirelles estava se apresentando e falando sobre o desemprego. "Eu tenho que me apresentar porque nunca fui candidato, nunca exerci nenhum mandato", diz ao fazer o gesto. 

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"Quando vemos a palma da mão de uma pessoa inconscientemente virada para frente percebemos que ela não é uma ameaça. Mas nesse caso, este gesto estava fora de contexto e a mão muito elevada indica que a intenção do gesto pode não ser verdadeira", explica. No momento em que faz esse aceno, Meirelles estava falando sobre si mesmo. "Eu comecei a vida no setor privado e cheguei a presidência de uma grande organização internacional", afirmou. 

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