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Sem "plano B": Os 5 fatores que explicam por que o PT insiste na candidatura de Lula

Mesmo com crescentes chances de ex-presidente ser impedido de disputar as eleições pela Lei da Ficha Limpa, partido tem motivos políticos para insistir na candidatura

SÃO PAULO - Desde que teve sua condenação confirmada em segunda instância pelos crimes de lavagem de dinheiro e corrupção passiva, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem recebido más notícias para sua candidatura ao Palácio do Planalto. Com os crescentes riscos de ser enquadrado pela Lei da Ficha Limpa e até possivelmente iniciar o cumprimento de pena de 12 anos e 1 mês de prisão, o líder petista tem observado acenos negativos à possibilidade de disputar as eleições que hoje lidera. Por outro lado, quem observa as movimentações e discursos de dirigentes e lideranças do PT pode ter a impressão de que Lula terá sua foto nas urnas em outubro. Como muitos têm sustentado, se depender do partido, não haverá alternativa: a sigla irá às últimas consequências com o nome escolhido para representá-lo na corrida presidencial.

"Nós não temos hoje a hipótese de 'plano B'. Acreditamos na candidatura do ex-presidente Lula", afirmou o deputado federal Vicente Cândido (PT-SP) em entrevista concedida ao InfoMoney na última sexta-feira (2). "Evidentemente que o foco do PT hoje é a defesa do ex-presidente. A campanha sem ele para nós é fraude", complementou. A fala do parlamentar resume a estratégia do partido na guerra discursiva.

Para o cientista político Marcelo Issa, que participou da entrevista, existe uma estratégia política articulada nesse contexto. "Manter a candidatura do ex-presidente Lula é vital para o PT se manter como uma corrente relevante, um partido ainda na cúpula do sistema partidário brasileiro. Talvez essa insistência na candidatura do ex-presidente tenha justamente por trás esse cálculo político", observou.

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A seguir, listamos 5 fatores políticos que explicam a manutenção da candidatura de Lula pelo PT, mesmo com os crescentes riscos de impugnação pela Justiça Eleitoral:

1. Competitividade
Nenhum nome hoje no PT chega perto do desempenho de Lula nas pesquisas de intenção de votos. As principais alternativas atualmente ventiladas na imprensa apresentam pontuação baixa e elevado nível de desconhecimento do eleitor. O ex-presidente, por outro lado, lidera com folga em todos os cenários em que aparece como candidato.

Para o partido, tendo em vista a disparidade de chances de vitória entre uma disputa com Lula no páreo e outra com um nome alternativo dentro da sigla para substituí-lo, pode fazer sentido assumir o risco e manter a candidatura do ex-presidente até as últimas consequências.

2. Transferência de votos
Apesar de ter mantido pontuação intacta na última pesquisa Datafolha mesmo após a condenação em segunda instância, Lula viu sua capacidade de transferência de votos perder intensidade. Segundo o levantamento divulgado na última quarta-feira (31), subiu de 48% para 53% o percentual de eleitores que não votariam em um candidato apoiado pelo ex-presidente. Já os eleitores que votariam com certeza em um indicado de Lula oscilaram de 29% para 27%, dentro da margem de erro de 2 pontos percentuais.

A percepção de que Lula é resiliente ao noticiário negativo mas pode perder força como cabo eleitoral reforça sua posição como candidato e pode dar menos espaço para que planos alternativos floresçam enquanto seu nome não for impedido pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) a participar do pleito.

3. Timing
Por mais que se diga que não há "plano B", futuramente é possível que o partido abra essa possibilidade. Contudo, antecipar esse movimento seria ação precoce e poderia prejudicar os próprios planos eleitorais petistas. Quanto mais conseguir procrastinar eventual substituição de candidatura, maior pode ser a eficácia na transferência de votos de Lula ao herdeiro do partido na disputa.

O timing, associado ao discurso da vitimização, pode ser elemento central da estratégia do PT para outubro. Nesse sentido, quanto mais próximo do primeiro turno a candidatura de Lula for mantida, melhor para o partido. Isso se faz importante não apenas para a corrida presidencial, mas também para as candidaturas a governos estaduais e legislativos. Quanto mais tempo Lula participar do período de campanha como candidato, melhor para o PT e seus aliados.

4. Discurso
A manutenção da candidatura de Lula também reforça a narrativa de resistência pregada pelo partido, que se diz alvo de uma "perseguição" política. O discurso da vitimização tem potencial eleitoral, sobretudo quando se observa a avaliação negativa que também recai sobre a Justiça brasileira. Segundo o Datafolha, há uma majoritária percepção do eleitorado de que o Judiciário beneficia mais os ricos e prejudica os pobres. Levando-se em consideração a imagem que o ex-presidente busca manter junto ao eleitorado de menor renda, a perseguição política pode ser eixo discursivo de alguma força. Analistas políticos, no entanto, têm dúvidas sobre como se comportaria o líder petista nas pesquisas eleitorais caso tenha prisão decretada.

5. Cabo eleitoral
A candidatura de Lula é vista como ativo importante para a própria eleição de deputados federais e estaduais, senadores e governadores do PT. Em meio aos alertas de riscos de desidratação do partido nessas eleições, o ex-presidente pode ajudar a mitigar tais efeitos. Uma candidatura presidencial forte contribui no êxito de outras campanhas, majoritárias e principalmente proporcionais.

Para se ter uma ideia da força do ex-presidente como cabo eleitoral, candidatos do MDB em estados em que o petista mantém elevada popularidade já sinalizam fazer campanha por sua eleição, independentemente do nome a ser apoiado oficialmente pelo partido. Já fizeram acenos nesse sentido figuras como os senadores Eunício Oliveira (CE) e Renan Calheiros (AL).

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