Divergência na Bolsa

Plano de concessões anima o mercado, mas analistas não entendem por quê

Investidores vão às compras com anúncio de investimento em infraestrutura, mas, para especialistas, promessa tem cheiro de déjà vú até que se prove o contrário

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SÃO PAULO – O anúncio da segunda etapa do Programa de Investimento em Infraestrutura do governo gerou reações diversas entre os especialistas do mercado financeiro na sessão desta terça-feira (9). Em meio à falta de diretrizes que apontassem com clareza o que poderia ser esperado daqui para frente e a um retrospecto controverso do governo em parcerias com a iniciativa privada, analistas tiveram dificuldades para fazer avaliações mais assertivas sobre as ações da equipe econômica da presidente Dilma Rousseff (PT) para alavancar a produtividade e eliminar gargalos na economia nacional.

Os investimentos do pacote de concessões dividem-se em: rodovias, R$ 66,1 bilhões; ferrovias, R$ 86,4 bilhões; portos, R$ 37,4 bilhões; e aeroportos, R$ 8,5 bilhões. A nova etapa de concessões de infraestrutura projeta investimentos de R$ 198,4 bilhões, sendo R$ 69,2 bilhões entre 2015 e 2018, e R$ 129,2 bilhões a partir de 2019.

“O pacote veio maior do que esperávamos”, afirmou o economista da Elite Corretora Hersz Ferman. Durante a manhã, poucos instantes depois do anúncio oficial, o Ibovespa, após abrir em queda, chegou a registrar alta de 0,91%, puxado por expressivos ganhos das blue chips Petrobras (PETR3; PETR4), siderúrgicas e bancos. Na máxima diária, os papéis da petrolífera estatal chegaram a apresentar avanços na próximos de 5%, muito embora seja necessário lembrar que o noticiário da companhia está cheio, com expectativas pela divulgação do Plano de Negócios e com a forte alta do petróleo hoje. O barril do Brent sobe 3,51%, a US$ 64,89. 

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Apesar da aparente euforia dos investidores, os ativos das companhias mais expostas ao sucesso ou fracasso de uma nova rodada de concessões amargavam expressivas perdas. Caso da Rumo (RUMO3), cujas ações, às 15h40 (horário de Brasília) atingiram a mínima do dia ao marcarem queda de 7,91%, a R$ 1,28. Acompanhando o movimento, também apresentavam queda os papéis da CCR (CCRO3, R$ 15,29, -2,43%) e Ecorodovias (ECOR3, R$ 8,23, -1,79%), conforme cotação das 16h13. “O que vale daqui para frente é como vai ser a atratividade desses projetos. Tem que saber como o BNDES vai ajudar a financiar”, ponderou Ferman, ressaltando que é preciso ficar de olho nos detalhes a serem apresentados nos próximos capítulos da nova rodada de parcerias com a iniciativa privada.

Segundo Ferman, disparada das concessionárias antes do plano seguida por queda foi exemplo de “sobe no boato e cai no fato”, quando os investidores aproveitam para embolsar os lucros obtidos com a alta ante uma notícia quando ela se confirma, uma vez que o fato novo já estava precificado. Para o futuro destas empresas, o importante vai ser saber se os contratos das concessões serão feitos de maneira a favorecê-las. Neste sentido, o assessor de investimentos da Monte Bravo Investimentos Bruno Madruga ressalta um histórico de incertezas sobre a capacidade do atual governo de promover concessões. “Existe uma espécie de efeito traumático com alguns equívocos cometidos anteriormente”, observa. “Essa gestão não era muito aberta e não tinha muita experiência com concessões. O ministro Levy está fazendo uma mudanças um tanto quanto radical”.

Para o analista da Spinelli Elad Revi, o mercado embute riscos significativos em suas expectativas, exatamente pelo histórico da gestão da presidente Dilma Rousseff em relação a concessões. Segundo ele, apesar das avaliações que levam o mercado a derrubar as ações das principais companhias do setor de infraestrutura nesta sessão já serem esperadas e estarem no preço, o fato de o anúncio ter ocorrido hoje pode gerar uma pressão adicional sobre os preços. “O mercado sempre trabalha nos fatos”, explica. “Mas acredito que os preços devam voltar após a queda de hoje, digerindo a notícia e avaliando a questão sob outra ótica”, projeta Revi.

Em um momento de poucas certezas pela falta de detalhes sobre os projetos, permanecem as dúvidas e ações instintivas por parte dos investidores. Em se tratando de política e mercados a situação dá vazão mais a comportamentos emocionais e julgamentos ideológicos do que análises mais frias sobre dados empíricos, com pouca abundância no momento. Com isso, a recomendação dos especialistas caminha no sentido da prudência antes de se assumir posições convictas. “É muito cedo para tomar conclusões específicas”, declarou João Pedro Brugger, analista da Leme Investimentos, lembrando que, neste caso, os detalhes de cada contrato farão toda a diferença.