Cerco se fecha

Passos da China para frear setor de tecnologia movimentam mercado

Governo de Pequim ordenou que 3 empresas suspendam registros de novos usuários e disse às lojas de apps que removam o serviço da Didi de suas plataformas

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(Bloomberg) — A China avançou em sua campanha para frear o poder do setor de tecnologia. Além do aplicativo de transporte Didi Global, o governo chinês incluiu outras duas empresas que recentemente abriram o capital em Nova York, em um golpe contra investidores globais enquanto aumenta o controle sobre dados online confidenciais.

Em uma série de anúncios que começaram na sexta-feira e escalaram durante o fim de semana nos Estados Unidos, o governo de Pequim ordenou que as três empresas suspendam os registros de novos usuários e disse às lojas de aplicativos que removam o serviço da Didi de suas plataformas. A investida regulatória vem poucos dias depois de a gigante de aplicativo de transporte ter completado uma das maiores listagens dos EUA na última década e semanas após a estreia de outras empresas visadas: a Full Truck Alliance e a Kanzhun.

Investidores responderam com a venda de ações chinesas de tecnologia em Hong Kong. As ações do SoftBank, que investe na Didi e na Full Truck, caíram para a menor cotação em sete meses em Tóquio.

Embora observadores da China já estivessem em alerta máximo para choques regulatórios desde que o governo de Pequim suspendeu em novembro a oferta pública inicial da Ant Group, de Jack Ma, a medida contra a Didi e outras empresas de tecnologia traz uma nova dimensão – segurança cibernética – a uma campanha que até agora tinha como foco questões de fintechs e antitruste. O jornal Global Times, apoiado pelo Partido Comunista, disse em coluna na segunda-feira que o acúmulo de dados da Didi representa uma ameaça à privacidade individual e à segurança nacional, especialmente porque seus dois principais acionistas – SoftBank e Uber Technologies – são estrangeiros.

O fato de o governo chinês ter como alvo listagens recentes nos EUA pode paralisar o fluxo de IPOs no exterior, que enriqueceram Wall Street e empresas privadas chinesas. Isso poderia, por sua vez, gerar preocupações de uma dissociação econômica entre China e EUA, pelo menos em áreas sensíveis como tecnologia, já que tanto o presidente Xi Jinping quanto o líder Joe Biden tomam medidas para limitar o fluxo de capital e know-how entre as duas superpotências. Ajudar companhias de tecnologia a vender ações em Nova York tem sido um negócio lucrativo para firmas como Goldman Sachs e Morgan Stanley, ambos os principais subscritores do IPO da Didi.

Entre as questões ainda pendentes para investidores globais, líderes de tecnologia chineses e reguladores dos EUA: quais empresas seriam as próximas na mira do governo chinês? E, no caso da Didi, os investidores deveriam ter recebido avisos mais explícitos sobre o escrutínio da China antes do IPO?

“A Didi parece ter acelerado o processo de IPO, indicando que pode haver sinais iniciais de escrutínio do governo em breve”, disse Shen Meng, diretor do banco de investimento boutique Chanson & Co., com sede em Pequim “A investigação da Didi, juntamente com outras investigações anunciadas hoje, mostra como as tensões entre China e EUA estão se espalhando para o mercado de capitais. O incidente vai frear o desejo de empresas chinesas de abrir o capital nos Estados Unidos.”

©2021 Bloomberg L.P.