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O Brasil não enfrenta uma crise, mas sim um ajuste recessivo

A próxima crise econômica brasileira, muito provavelmente, será cambial e ainda não começou. Ela potencialmente será detonada no momento em que os fluxos de capitais internacionais inverterem de sentido

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Colunista convidado: Rogério Mori, professor da Escola de Economia da FGV

Recorrentemente os economistas, a mídia e a classe política têm se referido ao momento atual como uma crise econômica. Na verdade, a economia brasileira não atravessa uma crise econômica típica de economia emergente no momento. O que o País enfrenta, de fato, são os reflexos de um ajuste recessivo promovido pelo governo, orientado por uma política monetária contracionista e por um ajuste das contas públicas.

Nesse sentido, vale lembrar que as crises típicas de economias emergentes (como é o caso da economia brasileira) são cambiais, bancárias ou de dívida pública (interna e/ou externa). O que ocorre na economia brasileira no momento não se enquadra em nenhum dos casos mencionados.

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Sob essa perspectiva, o que vivenciamos atualmente na nossa economia decorre da inversão da política econômica a partir de janeiro deste ano face a falência da estratégia adotada durante o período 2014-2015. Naquele período, o governo, com vistas a manter a demanda aquecida e evitar a recessão, optou por dar uma sobrevida aos estímulos ao crédito para as famílias, conjugada a diversos incentivos fiscais.

Esse processo foi associado a um ciclo de redução da taxa de juros, iniciado em 2011, irreal face ao quadro inflacionário que já se desenhava no País. Mesmo com a alta da inflação, já delineada em 2012, o governo decidiu não apenas manter suas apostas, mas aprofundá-la, concedendo descontos na energia elétrica e isenções fiscais adicionais em impostos indiretos visando segurar a inflação.

Por trás desse programa, estava uma grande aposta do governo que era a retomada dos investimentos produtivos no País em bases mais elevadas, o que não acabou ocorrendo.

O resultado desse processo ficou mais evidente para a sociedade e para o governo em 2014, com a aceleração da inflação, decorrente de um ciclo de afrouxamento de política monetária exagerado anteriormente, e contas públicas totalmente desajustadas.

Em razão disso, antevendo um desastre maior, o governo optou por um ajuste na economia, abandonando sua aposta original e focando de forma mais clara no controle da inflação, e em um ajuste das contas públicas. Ambos os processos, reconhecidamente, são recessivos, uma vez que a alta da taxa de juros desacelera o consumo das famílias e os investimentos privados e o ajuste fiscal implica aumentos de impostos, que retiram renda disponível das famílias, e corte de gastos, que implicam redução da demanda do setor público na economia.

Nesse sentido, o que o Brasil enfrenta no momento é uma recessão decorrente de um ajuste recessivo promovido por conta de uma inversão da estratégia de política econômica.

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A próxima crise econômica brasileira, muito provavelmente, será cambial e ainda não começou. Ela potencialmente será detonada no momento em que os fluxos de capitais internacionais inverterem de sentido e começarem a sair maciçamente do Brasil. Nesse sentido, um aperto da política monetária norte-americana, que já está no horizonte, pode ser o elemento detonador desse processo.