Em mercados

Reeleição, poder: o que está em jogo para Trump e Xi Jinping na guerra comercial

O presidente americano vai disputar a reeleição em 2020, e sua grande plataforma (talvez a única) é a economia. Já o presidente chinês pode governar indefinidamente -- desde que não mostre fraqueza

Donald Trump Xi Jinping
(Reprodução)

NOVA YORK - Em uma pesquisa realizada na primeira semana de agosto pelo The Wall Street Journal, 87% dos economistas ouvidos pelo jornal chamaram de “guerra comercial” as tensões cada vez maiores entre Estados Unidos e China.

Um ano atrás, as opiniões estavam divididas ao meio: metade dos entrevistados preferia usar termos menos dramáticos, como escaramuças, tensões, batalha e disputa. Mas, se havia alguma dúvida de que as coisas tendem a piorar antes de melhorar, elas desapareceram nos últimos dias.

O presidente Donald Trump anunciou tarifas adicionais sobre bilhões de dólares de importações da China. Em retaliação, os chineses permitiram que o iuane passasse da barreira de sete para um em relação ao dólar, um patamar de desvalorização da moeda de enorme importância simbólica e que não era atingido desde 2008.

Os americanos denominaram os rivais oficialmente como “manipuladores de moeda”. Os mercados mundiais tremeram, e a Bolsa americana teve o pior dia do ano na segunda-feira 5 de agosto.

As duas maiores economias do mundo estão em rota de colisão, num cenário clássico da teoria dos jogos. Quem será o primeiro a piscar? Ou será que o choque é inevitável, prenunciando dias sombrios para a economia mundial?

“Os investidores ainda não têm certeza de que o conflito será muito prejudicial (o que incluiria atritos em relação a moedas e regulação de tecnologia), mas começaram a precificar riscos significativos”, escreve o colunista John Authers, da Bloomberg.

É importante entender as posições dos dois protagonistas. Xi Jinping, o presidente chinês, não está sujeito às urnas, muito pelo contrário. No começo do ano passado, o Congresso Nacional do Povo acabou com os limites para os mandatos presidenciais, o que significa na prática que Xi pode governar o país indefinidamente. E os protestos em Hong Kong representam um “enorme incentivo para que ele não mostre fraqueza”, diz Authers.

Trump vai disputar a reeleição no ano que vem. A campanha presidencial americana é longa, e efetivamente já começou, com a disputa interna pela candidatura presidencial do Partido Democrata.

A grande plataforma de Trump – talvez a única – é a economia. Um aprofundamento da guerra comercial pode custar caro para o presidente americano, com preços mais altos para os consumidores e impacto em estados de base agrícola que podem determinar o vencedor da eleição no colégio eleitoral.

“Trump está tirando notas baixas em termos de confiança, de unir o país”, diz Brian Winter, editor-chefe da revista America’s Quarterly e especialista nas relações entre os Estados Unidos e a América Latina. “A economia será essencial. Será que ele consegue se reeleger sem uma economia em expansão?”

Por outro lado, observa Winter, Trump escolheu o momento de mais força da economia americana nos últimos dez anos para comprar a briga – e uma fase delicada para a China, que lida com a desaceleração da máquina de crescimento que assombra o mundo há duas décadas.

“É a clássica aposta de que a situação será pior para os chineses que para os americanos”, afirma Winter.

Mas um dos pontos espinhosos do conflito é que muitas das demandas dos Estados Unidos – mais espaço para as empresas americanas na China, respeito à propriedade intelectual, fim de subsídios – mexem no núcleo do modelo econômico chinês.

A exigência de Trump por mais equilíbrio nas contas entre os dois países é algo difícil de alcançar, pois a China simplesmente não comporta as metas de importações desejadas pelo Estados Unidos.

“O presidente disse diversas vezes que seu objetivo final em relação ao sistema de comércio internacional é zero tarifas, zero barreiras e zero subsídios”, disse Larry Kudlow, diretor do Conselho Econômico Nacional da Casa Branca, numa entrevista à rede CNBC. “O que estamos tentando obter é um comércio justo, livre e recíproco com a China.”

O que isso significa exatamente não está claro. Para muitos economistas, falta uma definição precisa do que seria uma vitória, e isso aumenta a incerteza do que está por vir.

Trump ameaçou elevar a 25% ou mais as tarifas impostas a US$ 300 bilhões de importados chineses. “Os 10% são por curto prazo, e sempre posso fazer muito mais ou muito menos dependendo do que acontecer em relação a um acordo”, afirmou o presidente americano.

Esse nível de tarifação teria impacto garantido no PIB americano, com alguns economistas estimando uma redução de 1 ponto percentual no crescimento. Os efeitos também se estenderiam pela economia mundial -- que já vive um momento de incerteza com a iminente saída do Reino Unido da União Europeia.

Impactos para o Brasil

O Brasil, por enquanto, assiste a tudo das margens. A guerra comercial trouxe alguns benefícios na exportação de soja para a China, mas o dólar voltou para a casa dos 4 reais com a turbulência. Em termos estratégicos, a posição parece ser de cautela.

Em um discurso no final do ano passado, o ex-secretário do Tesouro americano Henry Paulson disse que o mundo corre o risco de ser divido por uma “Cortina de Ferro econômica”. De que lado o Brasil ficaria?

“O governo brasileiro quer muito se aliar a Washington, mas teremos de ver o que acontecerá na disputa entre as alas ideológica e pragmática”, diz Winter. “Bolsonaro, seu filho Eduardo e o ministro [das Relações Exteriores] Ernesto Araújo são claramente anti-China”.

Mas os números não mentem: para o Brasil, os chineses são os parceiros comerciais mais importantes. Na opinião de Winter, Bolsonaro até pode querer endurecer contra a China, mas não antes de a economia brasileira melhorar.

“Bolsonaro copia o manual de Trump e governa para uma base estreita, mas muito energizada.” As bravatas e os maneirismos podem ser os mesmos; a diferença é que a economia americana vai muito bem – ao menos por enquanto.

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