Em mercados

Goldman Sachs alerta para 2ª década perdida do Brasil e fala em retomada mais lenta da história

Economia do País encontra o desafio de fazer um ajuste fiscal e trazer de volta tanto investimento quanto demanda, que estão em valores historicamente baixos

Dinheiro com bandeira do brasil
(Shutterstock)

SÃO PAULO - Os anos 80 são sempre lembrados como a década perdida do Brasil por conta da estagnação econômica e da hiperinflação. A década de 2010 a 2020, ao que tudo indica, andará no mesmo sentido - quando o assunto é o ritmo da atividade nacional. Em relatório, o Goldman Sachs aponta para o que vê como a mais longa e profunda recessão da história do País, que se soma à mais lenta das retomadas. 

No research, Alberto Ramos e Gabriel Fritsch, analistas de pesquisa econômica do banco nova-iorquino, lembraram que já estamos há nove trimestres no atual ciclo de recuperação, mas a economia continua devagar. Isso apesar da ociosidade nas indústrias e de condições favoráveis em termos de balança comercial, inflação, política monetária e condições financeiras. 

"Durante os nove trimestres após as grandes recessões de 1981-1983 e de 1989-1992, o Produto Interno Bruto (PIB) [brasileiro] cresceu 12,7% e 8,4%, respectivamente, mas na retomada atual, a expansão econômica foi de apenas 3,2%", destacam os analistas. O gráfico abaixo mostra isso, sendo "Q" a abreviatura de trimestre em inglês (quarter).

À direita, o gráfico destaca a duração do período da recessão (por exemplo, do segundo trimestre de 2014 ao quatro trimestre de 2016) e, abaixo, o quanto o PIB cresceu nos nove trimestres que se seguiram à recessão (no caso atual, 3,2%). 

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Além disso, o tamanho da retomada também é menor, sendo até assustador pensar que, após a leve contração de 2008-2009, o PIB real nove trimestres depois estava 15,9% acima dos níveis pré-crise. "Na verdade, em todas as nove recessões desde 1981 o ciclo de expansão que se sucedeu foi significativamente mais vigoroso que a recuperação atual", aponta o Goldman. 

O PIB per capita, que é a divisão do valor total do que é produzido na economia brasileira em um ano sobre o tamanho da população, ainda está 9,1% abaixo do pico. No gráfico abaixo, a linha vermelha mostra a evolução do PIB per capita na retomada atual, enquanto as tracejadas em cinza se referem a outros ciclos. 

Todos os componentes da demanda tem sido suaves e, comparado a outras recuperações cíclicas, a atual resposta da economia a investimentos tem sido extremamente fraca. O gráfico abaixo mostra nas colunas de azul mais escuro o PIB, nas de tom médio o consumo e nas mais claras o consumo. A retomada que começou em 2017 está em vermelho. 

Os analistas concluem que o investimento privado contribuiu com meros 0,8 ponto percentual ao crescimento do PIB nos últimos nove trimestres e o consumo só 3,3 pontos percentuais. Enquanto isso, nas últimas três retomadas, o consumo privado tinha contribuído com 6,9 pontos percentuais no crescimento médio, enquanto o investimento respondeu por 3,9 pontos percentuais. 

Ao mesmo tempo, o gasto do governo também não está conseguindo dar tração para a economia por conta dos altos déficits orçamentários. O consumo governamental caiu 0,1% cumulativamente nos últimos nove trimestres. 

"Chamou a atenção que a maioria das recuperações recentes foram movidas mais pela retomada do consumo privado do que pelo investimento. Ou seja, nesses ciclos, a economia jamais se beneficiou de um significativo aprofundamento da participação do capital que impulsionaria e sustentaria o ganho de produtividade no médio prazo", sentencia a equipe de análise do banco.  

O resultado é conhecido, foram os chamados "voos de galinha" da economia brasileira, que sempre bate nos gargalos de capacidade quando engata movimentos de expansão. Ao atingir esses gargalos, surgem desbalanceamentos internos, como o aumento da inflação e externos, como os déficits nas transações correntes. 

Por fim, o ciclo atual ainda tem a particularidade de vir com fracos níveis de vendas e estoques das indústrias, além dos setores de atacado e varejo. Os estoques desses setores tiveram uma contribuição negativa de 1,4 ponto percentual no crescimento nos últimos nove trimestres. Para os analistas, isso reflete a queda na confiança nos negócios, condições suaves de demanda e repetidas revisões para baixo nas perspectivas de avanço da atividade econômica desde 2016. 

O investimento agregado segue pequeno, em 15,8% do PIB, abaixo dos mais de 20% entre 2010 e 2013. A poupança nacional, por sua vez, está em 14,5% do PIB, demonstrando a necessidade de um ajuste fiscal para elevar a taxa de poupança do setor público. 

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No primeiro trimestre de 2019, o PIB seguiu esse caminho de decepção e apresentou uma queda de 0,2% na comparação trimestral. Em relação ao primeiro trimestre do ano passado, houve crescimento de 0,5%. 

Atualmente, a recuperação cíclica muito fraca em curso reflete o efeito da incerteza política sobre as decisões de gasto, mas também um dano estrutural mais importante aos principais motores de crescimento da economia nos últimos anos, avalia Alberto Ramos, economista-chefe para a América Latina do banco.

 

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