Em mercados

China: os estímulos à economia estão menos eficazes?

Gigante asiático anunciou novo programa de estímulos, mas economistas apontam que caminho mais sustentável passa por mudança no perfil do crescimento da atividade 

Bandeira China
(© 2015 Bloomberg Finance LP)

SÃO PAULO - Primeira queda anual na venda de veículos em mais de 20 anos, forte baixa na venda de smartphones e indicadores da indústria e de inflação cada vez mais desanimadores.

Locomotiva da economia mundial nos últimos anos, a China vem dando cada vez mais sinais de desaceleração (para os padrões chineses, claro, já que a previsão de crescimento do PIB em 2019 varia de 6% a 6,5% ao ano). Cada vez que é divulgado um número negativo – como os descritos acima, todos recentes – o medo se espalha pelos mercados.

Como reação aos dados ruins, a China costuma lançar mão de políticas de estímulos. A última delas foi anunciada na madrugada da terça-feira (15): um pacote que inclui redução de impostos, aumento de gastos públicos e melhora das condições de crédito para pequenas empresas. De acordo com a estimativa do JPMorgan, o plano deve injetar cerca de US$ 300 bilhões (ou 2 trilhões de yuans na economia, o equivalente a 1,2% do PIB.

Apesar das cifras expressivas, os analistas estão céticos. Será que medidas de estímulo são suficientes para evitar a desaceleração? Ou são apenas uma tentativa - frágil - de evitar o pior?

"No momento, o espaço para políticas monetárias é limitado e políticas fiscais como cortes de impostos são a ferramenta crucial", apontou à Bloomberg Cui Li, chefe de pesquisa macro na CCB International Holdings Ltd, em Hong Kong. 

Por outro lado, em meio a esse cenário, quanto mais as economias tomarem medidas para postergar a crise, maior ela será quando estourar, avalia Eduardo Cavendish, colunista do InfoMoney e sócio da Ciga Invest, assessoria de investimentos credenciada pela XP Investimentos. Ele ressalta que, entre o fim de 2015 e o início de 2016, houve uma desaceleração de magnitude semelhante à atual na economia chinesa, que foi revertida em meio a mais estímulos.

O momento, porém, era diferente. Os grandes bancos centrais mundiais, caso do BCE (Banco Central Europeu), Federal Reserve e Bank of Japan, estavam em um movimento forte de flexibilização monetária. Com essa ação coordenada, houve uma verdadeira enxurrada de dinheiro barato na economia mundial - o que ajudou a China a se recuperar economicamente.

Atualmente, o Fed está elevando juros e o BCE e o BoJ, ainda que continuem com taxas reduzidas, estão preocupados com seus balanços e tomando medidas para diminui-los, em linha com o que está acontecendo com o Fed. Em dezembro, o banco europeu encerrou oficialmente o seu programa de compra de ativos que colocou € 2,6 trilhões no sistema, pouco menos de um ano depois do anúncio do Fed, que iniciou a diminuição de seu balanço, ainda que a passos mais lentos do que o inicialmente esperado.

Proteja seus investimentos das incertezas: abra uma conta na XP e conte com assessoria especializada e gratuita!

Assim, o movimento atual encerra um ciclo de uma década de forte aumento dos balanços de ativos dos três principais BCs do mundo (Fed, BCE e BoJ), que passou de US$ 4 trilhões em 2008 para cerca de US$ 15 trilhões de 2018. Desde então, eles têm se reduzido e já chegam perto dos US$ 14 trilhões, de acordo com dados da Haver Analytics.

E as indicações são de que, a não ser que haja uma forte reversão nas expectativas, as autoridades monetárias devem seguir nessa direção. Ou seja, a China não deve contar com os BCs para a recuperação da sua economia - e isso está em parte minando o efeito de seus estímulos, ainda mais pelo forte perfil exportador do país e a sua expressiva integração com a economia global.

Um país endividado

Mas a redução dos estímulos por parte dos grandes BCs pode ser uma boa notícia no médio prazo. Isso porque um dos grandes efeitos dessa "era do dinheiro barato" foi o forte aumento das dívidas corporativas. Uma continuidade desse movimento poderia potencializar ainda mais uma eventual crise no futuro.

As dívidas corporativas das empresas globais (exceto bancos) com relação ao PIB estão atingindo recordes históricos. No caso da China, o endividamento privado cresceu de 112% do PIB em 2008 para 205% do PIB em 2018, enquanto a dívida do governo cresceu de 27% do PIB para 50% do PIB.

"Assumindo um PIB médio crescendo 8% no período, com uma inflação média de 3%, o crédito cresceu mais de 20% ao ano em média na China. Segundo metodologia do BIS [Bank for International Settlements], um crescimento tão rápido, junto com um nível tão alto em termos absolutos, gera um crise financeira", afirma Stephan Kautz, economista da NEO Investimentos e colunista do InfoMoney. 

Ao menos por enquanto, a China não passou por isso. Mas esse patamar já elevado torna mais difícil estimular a economia via crédito, ainda mais num ambiente de mais restrições monetárias.

"Assim, primeiro a China precisa 'limpar' seu balanço, especialmente das empresas, para que retorno seja positivo em atividade para cada novo estímulo de crédito", avalia Kautz. Desta forma, o "botão de estímulos" do país não quebrou, mas sim ficou mais fraco, afirma ele.

O caminho da mudança

O governo chinês vem tentando mudar o perfil de crescimento da economia chinesa de forma a estimular o consumo. O objetivo é torná-la menos dependente de grandes investimentos – e incentivos públicos. A dúvida é qual será o ritmo dessa transição.

Há alguns caminhos que podem acelerar a mudança, conforme apontou o Credit Suisse em relatório recente. Um deles é a melhora da alocação de crédito. "Naturalmente, o movimento de direcionar crédito para não-estatais seria muito mais rentável do que para as estatais. Mas, nos últimos anos, este movimento tem sido um grande desafio para o sistema financeiro chinês", afirmam os estrategistas do banco.

Caso houvesse essa mudança para uma política de concessão mais eficiente, o crescimento do PIB chinês poderia exigir menos crédito e, consequentemente, mitigaria as dúvidas com relação à sustentabilidade da dívida chinesa, além de melhorar o sentimento e trazer impacto positivo para a maioria dos ativos. Porém, apontam, esse deve permanecer por algum tempo como um dos maiores desafios para o governo local.

Um passo foi dado nesta sexta, com o anúncio do governo de medidas para encorajar o consumo, com medidas para estimular compra de carros e de eletrodomésticos. Enquanto isso, o Banco Popular da China segue com sua injeção recorde de recursos em resposta à desaceleração econômica. Apenas nesta semana, houve uma injeção de 1,14 trilhão de renminbis na economia chinesa, o equivalente a US$ 168 bilhões. Se as novas medidas surtirem efeito, a expectativa é de que os investidores tenham um período de maior tranquilidade. Mas, por enquanto, o cenário segue de apreensão sobre os rumos da economia chinesa. 

Proteja seus investimentos das incertezas: abra uma conta na XP e conte com assessoria especializada e gratuita!

 

 

Contato