Em mercados

Federal Reserve ignora maior lição de 2008

A lição foi clara: os bancos devem captar quando podem e antes que precisem

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(Bloomberg) -- A crise financeira de 2008 mostrou o que acontece quando o sistema bancário não tem base adequada de capital para absorver perdas.

Incapazes de levantar dinheiro junto a investidores ariscos, os bancos foram obrigados a reduzir a concessão de empréstimos exatamente no pior momento para a economia. Em última instância, apenas a credibilidade do governo dos EUA — e a injeção direta de mais de US$ 200 bilhões dos contribuintes — manteve essas instituições de pé.

A lição foi clara: os bancos devem captar quando podem e antes que precisem. A autoridade monetária dos EUA (Federal Reserve) aparentemente não aprendeu a lição.

A Lei Dodd-Frank, de 2010, impôs ao Fed exatamente a responsabilidade de forçar os bancos a construir um colchão de capital adicional em épocas de vacas gordas, quando a economia está crescendo e é relativamente fácil levantar recursos. A ideia do capital anticíclico funcionou em outros países, particularmente na Espanha.

A questão é quando ampliar essa proteção. Nos EUA, o momento atual parece acertado. A economia vem se expandindo há quase 10 anos, a inflação está próxima da meta do Fed e a expectativa é que o crescimento anual atinja um pico neste ano de aproximadamente 2,9%.

Os critérios para concessão de empréstimos a pessoas jurídicas estão se deteriorando embora os níveis de endividamento das empresas estejam perto de bater recorde. Do outro lado do Oceano Atlântico, Reino Unido, França e outros oito países europeus já ampliaram seus colchões de liquidez.

O Fed não fez isso. O motivo, em parte, é a interpretação da Lei Dodd-Frank. O banco central adotou uma regra segundo a qual vulnerabilidades sistêmicas precisam estar “significativamente acima do normal” antes de exigir capital adicional.

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O presidente do Fed, Jerome Powell, está entre os que acreditam que esse limiar não foi atingido. Quem é contra exigir mais capital também argumenta que os bancos americanos não precisam disso porque já estão melhor capitalizados do que as instituições europeias.

É verdade, mas melhor capitalizados não é o mesmo que adequadamente capitalizados. Na média, os seis maiores bancos dos EUA têm menos de US$ 7 em capital para cada US$ 100 em ativos. É mais do que tinham antes da crise de 2008, mas provavelmente não o suficiente para evitar problemas em uma situação similar.

Por exemplo, a equipe de economistas do escritório do Fed em Minneapolis calcula que os bancos precisam de mais que o dobro do capital para minimizar a probabilidade de resgates pelo governo. Mesmo se for plenamente implementada, a proteção anticíclica do Fed não chegaria perto de atingir isso.

Os integrantes do Fed precisam se perguntar: se não agora, quando? Se as regras os impedem de agir, é preciso mudar as regras. Quando os investidores tiverem certeza de que há problema no sistema, será tarde demais.

 

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