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Como Cristiano Ronaldo pode fazer a Itália voltar a ter o maior campeonato de futebol do mundo

Após ser o centro do mundo do futebol nos anos 90, a Itália afundou em uma crise, que pode mudar completamente com a chegada de CR7 a Turim

Cristiano Ronaldo
(Divulgação)

SÃO PAULO - O mundo do futebol virou o centro das atenções esta semana, mas não por conta da definição da final da Copa do Mundo, mas pelo anúncio da contratação de Cristiano Ronaldo pela Juventus. Agora a liga italiana, que por muito tempo foi considerada a melhor do mundo e que hoje é tratada como coadjuvante dos grandes torneios, pode reviver seus dias de glória.

Entre o fim dos anos 80 e início da década de 90, o campeonato italiano era a casa de grande parte dos maiores nomes do futebol mundial, como Maradona, Platini, Rijkaard, Van Basten, Zico, Falcão, Paolo Rossi, Maldini e Roberto Baggio. E isso se refletia na seleção nacional, que em 1982 conquistou o tricampeonato da Copa do Mundo, conseguindo ainda um terceiro lugar oito anos depois e o vice em 1994 com a derrota nos pênaltis para o Brasil.

Mas o que se viu nos anos seguintes foi uma decadência de todo o sistema futebolístico do país, passando por praticamente todos os times da Serie A, principal divisão da Itália, e que levou junto a seleção, que teve sua grande exceção em 2006 na conquista do tetra. Nas duas últimas copas o país caiu ainda na fase de grupos e este ano não conseguiu nem se classificar. Na Eurocopa, não passou das quartas de final em 2008 e nem em 2016.

O que explica a queda da Itália?
Não existe apenas um fator que justifique como a Itália conseguiu sair do protagonismo do futebol mundial para um país "esquecido" pelos torcedores, mas os escândalos ajudam a explicar o lado financeiro destes clubes, que foram punidos diversas vezes, não só perdendo dinheiro, mas deixando de ganhar.

O maior caso aconteceu ainda em 1980, enquanto o país era destaque. O escândalo chamado de "Totonero" foi descoberto pela polícia e envolvia venda de resultados, o que levou ao rebaixamento de clubes como Milan e Lazio, além da prisão de jogadores. Mas foi com o "Calciopoli", descoberto em 2006, que realmente se viu a derrocada da Itália.

Na ocasião, muitos times se envolveram em um esquema de escolha de árbitros, conseguindo assim favorecimento em determinados lances durante as partidas. Com isso, a Juventus teve seus títulos de 2005 e 2006 cassados, além de ser rebaixada para a segunda divisão. Além disso, times como Milan, Fiorentina, Lazio e Reggina foram punidos com perdas de pontos, iniciando o campeonato do ano seguinte com pontuação negativa.

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Com estas punições, as finanças dos clubes começaram a degringolar, mas mais do que isso, afastou patrocinadores e até mesmo jogadores que não queriam correr o risco de se envolverem nestes esquemas ilegais. Combinado a isso, especialistas afirmam que faltou aos clubes uma gestão melhor do futebol de base e uma estratégia financeira.

Um bom exemplo desta falta de um plano econômico se vê nos estádios pelo país. Em 1990, a Itália foi sede da Copa do Mundo, aproveitando os estádios que já tinha, fazendo apenas algumas reformas, o que em alguns casos não agradou os torcedores, caso do Delle Alpi, em Turim, que acabou demolido em 2008. Porém, com exceção da Juventus, o que se vê é um país cheio de estádios velhos e sem infraestrutura, o que já pesa bastante para os clubes quando comparado ao cenário visto no resto da Europa.

Focos de reação
Milão foi a primeira a esboçar uma reação neste cenário caótico do futebol italiano. Os dois maiores clubes da cidade, Milan e Internazionale, tiveram seus períodos de domínio no país usando a força - e dinheiro - de grandes magnatas que passaram a controlar as finanças de cada um. Mas isso foi apenas uma faísca, faltou uma estrutura melhor.

O grande nome nesta história, e que viria a ser o principal político de toda a Itália, é Silvio Berlusconi, que comprou o Milan ainda em 1986 e salvou o time da falência. Nos anos seguinte ele começou a injetar grandes quantias no clube - algo que tem sido comum hoje em outros países -, contratando alguns dos maiores jogadores da época, colocando os rubro-negros como a grande potencia da Europa.

Mas foi com seus próprios escândalos políticos que o magnata perdeu força e afundou até vender sua participação no Milan e acabar por encerrar o período de "farra" financeira. Coincidência ou não, parte desta história de auge e derrocada do futebol italiano se liga com a própria economia e política do país, que nos últimos anos foi derrubada por uma dura crise e agora tenta se reerguer.

O início dos anos 200 foram muito duros para o campeonato italiano, com casos de clubes como Fiorentina, Napoli e Parma decretando falência. Este último ainda fez isso duas vezes, sendo que na última, em 2015, acabou fazendo com que o time reiniciasse sua história no futebol amador.

Enquanto isso, a Inter de Milão, com o dinheiro do magnata do petróleo Massimo Moratti, conseguia fazer frente com seu rival de cidade. Usando a fortuna da família, ele conseguiu realizar grandes contratações para o time entre o fim dos anos 1990 até 2013, com destaque, por exemplo, para a chegada de Ronaldo. Roma e Lazio também tiveram histórias parecidas, mas todas duraram pouco.

O exemplo da Juventus
Por mais de uma década, a Juventus se tornou o grande exemplo do futebol italiano. Após a punição sofrida em 2006, o clube de Turim iniciou um projeto que levou a se tornar praticamente imbatível no país, com sete títulos consecutivos desde 2011 até a última temporada.

Um dos principais fatores para esta retomada do clube mais vitorioso da Itália foi a derrubada do estádio Delle Alpi para a construção de uma moderna arena. Com isso, o retorno financeiro foi praticamente imediato, refletido ainda no futebol, que se reergueu enquanto seus adversários estavam "parados no tempo".

Além disso, a "Velha Senhora" (apelido do clube) passou a adotar uma estratégia que hoje pode ser comparada ao Bayern de Munique, da Alemanha, comprando bons jogadores de clubes adversários, conseguindo bons negócios sem gastar muito, melhorando seu plantel e piorando os adversários.

A chegada de CR7
A chegada do melhor jogador do mundo a Turim coloca a Juventus ainda mais na frente de seus adversários, mas pode também revolucionar a Itália e trazer de volta alguns bons momentos para os torcedores da região. Com novos grandes executivos chegando a outros clubes, como o Milan novamente, é possível que vejamos uma "corrida" dos adversários da Juventus para também trazerem grandes nomes para seus elencos.

Mais do que isso, a visibilidade da "Velha Senhora" pode favorecer o campeonato como um todo. Segundo César Grafietti, Superintendente de Crédito do Itaú BBA, em artigo no site "No Ângulo", em apenas três dias desde o anúncio da contratação de CR7, as redes sociais da Juventus viram crescer em 1,4 milhão o número de fãs no Instagram, 1,1 milhão no Twitter e 500 mil no Facebook.

No dia da contratação, o valor das dações da Juventus na Bolsa de Milão dispararam 50%, após passar os últimos 12 meses oscilando apenas 5%. Grafietti destaca ainda de onde que o clube de Turim irá tirar os 100 milhões de euros para pagar a aquisição, que deve, em parte, vir da venda de atuais jogadores do elenco, como o argentino Gonzalo Higuaín, que deve trazer algo entre 40 e 50 milhões de euros.

O especialista explica que a Juventus tem tido receita de cerca de 300 milhões de euros nos últimos 3 anos. O resultado operacional, que é o que sobra das receitas depois de pagar todas as despesas com elenco e a operação do clube, fica na casa de 20 milhões de euros, e é este o valor que o clube tem para pagar a contratação de jogadores.

Porém, além da venda de outros atletas, o time ainda deve fazer muito dinheiro com marketing, venda de mercadorias e outros fatores ligados diretamente ao nome de Cristiano Ronaldo. Mas um dos pontos que mais chama atenção - e que tem gerado polêmica - é o uso da Fiat-Chrysler para arrecadar.

Tanto a montadora quando a Juventus têm a família Agnelli como principal acionista e é possível que a empresa aporte recursos em forma de patrocínio para ajudar no pagamento da contratação - fato que já levou a convocação de uma greve de funcionários e fez as ações da Fiat desabarem na bolsa. Apesar destes problemas, o caso deve ser mitigado pelo fato da UEFA ter regras financeiras rígidas para evitar este abuso por parte dos clubes.

"O campeonato italiano dos próximos anos tende a evoluir, com o fortalecimento do Milan e seu novo dono, o fundo americano Elliott, da Inter, Roma e Napoli, e isto aumenta a demanda pelo produto Futebol, aumenta suas receitas e fortalece as finanças", conclui Grafietti. A contratação de CR7 tem um grande potencial de fazer a Itália voltar ao centro do mundo do futebol, resta saber se os outros clubes aprenderam com os erros do passado.

 

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