Em mercados

De "tobagã" a "montanha-russa": a diferença nas expectativas para o PIB em 2016 e 2017

O ano de 2017 não deve reforçar a estatística da última década de ver o mercado chegar a dezembro mais pessimista do que estava em janeiro

Montanha Russa
(Reprodução Wikicommons)

SÃO PAULO - Não é segredo que a dinâmica da economia é em boa parte guiada por expectativas, seja de grandes investidores e empresários, seja de consumidores e trabalhadores. As decisões de investimento, reajuste de preços e compra, por exemplo, são baseadas no cenário que os agentes econômicos esperam que irá se concretizar nos meses à frente. A mira do mercado, no entanto, passa por ajustes à medida que novos fator vêm à tona ou que o desempenho da economia vai se mostrando melhor ou pior que o esperado inicialmente.

Levantamento do economista Marcel Caparoz, da RC Consultores, mostra que em sete dos últimos dez anos, o mercado acabou o ano mais pessimista do que começou, com projeções para o PIB (Produto Interno Bruto) chegando a cair até 4,26 pontos porcentuais (p.p.) em 12 meses. Em 2017, no entanto, o especialista projeta que, até dezembro, as expectativas para a atividade econômica vão melhorar, diferentemente do que ocorreu com as estimativas para 2016

Ano Primeira
projeção 
Última 
projeção 
Diferença
 
2007 3,5% 5,19% 1,69 p.p.
2008 4,50% 5,60% 1,10 p.p.
2009 2,44% -0,24% -2,68 p.p.
2010 5,20% 7,61% 2,41 p.p.
2011 4,50% 2,87% -1,63 p.p.
2012 3,30% 0,98% -2,32 p.p.
2013 3,30% 2,30% -1,00 p.p.
2014 2,00% 0,14% -1,86 p.p.
2015 0,55% 3,71% -4,26 p.p.
2016 -2,95% -3,43% -0,48p.p.
Média      1,94 p.p.
Fonte: RC Consultores


O gráfico abaixo ilustra as mudanças de percepção do mercado referentes ao PIB do ano passada coletadas pelo Relatório Focus, do BC (Banco Central). As estimativas começam em janeiro de 2015 e se estendem até dezembro de 2016 e como as projeções foram se deteriorando à medida que a recessão piorava e a crise política se intensificava, a curva assumiu uma forma de "tobogã". Em 24 meses, as previsões dos economistas tombaram de avanço de 1,80% para queda de 3,48%, diferença de 5,28 p.p.. O resultado efetivo do PIB de 2016 será divulgado no dia 7 de março de 2017 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

 

 

Caparoz destaca que a discrepância só não foi maior porque houve melhora nas estimativas a partir de maio de 2016, quando a ex-presidente Dilma Rousseff foi afastada do Palácio do Planalto para o julgamento de seu impeachment. “Quando houve mudança de governo, você teve otimismo muito forte, com a reação dos principais indicadores de confiança, valorização da bolsa. Depois, predominou a interpretação que o novo governo vai demorar a solucionar todos os problemas, que está resolvendo um ou outro mais emergencial, mas não todos”, explicou. A partir daí, segundo o economista, começou uma onda de pessimismo que se espalhou pelo mercado como um “efeito manada”, levando a novos cortes nas estimativas tanto para 2016 quanto para 2017.

Este movimento tem se evidenciado recentemente com os cortes mais frequentes das projeções de economistas. Nesta segunda-feira (17), o FMI (Fundo Monetário Internacional) reduziu a estimativa para o PIB de 2017 de crescimento de 0,5% para alta 0,2%. Entre dezembro e janeiro, o Itaú Unibanco revisou por duas vezes sua previsão para o PIB deste ano, passando de alta de 2% para avanço de 1%. Ainda assim, o número esperado pelo banco ainda é o dobro da expectativa do mercado, segundo o Focus. Ao longo de 2016, as projeções coletadas para a atividade econômica em 2017 caíram de crescimento de 1% para alta de 0,5%, - passando pela mínima de 0,2% em abril à máxima de 1,38% em setembro - como mostra o gráfico abaixo.

 

A volatilidade nas projeções deve se manter até o final do ano, mas de maneira limitada, segundo o economista da RC Consultores. O ano de 2017 também não deve reforçar a estatística da última década de ver o mercado chegar a dezembro mais pessimista do que estava em janeiro. Se as projeções de Caparoz se confirmarem, o gráfico das expectativas do relatório Focus para 2017 deve ganhar a forma de uma "montanha-russa".

Depois do fundo do poço em abril de 2016, do pico em setembro e do novo “vale” que se desenha agora, devemos ver um movimento de recuperação até o fim do ano, com as projeções esboçando uma reação e se aproximando da mesma alta de 1% esperada no início de 2016. "Mas não tem nada de extraordinário que permita esperar uma ‘explosão’ nas projeções para uma alta de 2%, por exemplo", afirmou.

O economista acredita apenas um "ajuste um pouco mais pra cima". "O ano de 2016 foi muito imprevisível, com uma influência forte das questões políticas”, detalhou. “Agora, o cenário começa a melhorar e o corte da Selic tem capacidade de trazer de volta a confiança do empresário e, aos poucos, do consumidor também”, estima.

Caparoz pondera que, se do lado econômico os indícios são positivos, com o afrouxamento monetário permitindo uma recuperação da construção e do setor automotivo, por exemplo, é preciso monitorar os desdobramentos políticos. “Em 2016, o mercado aprendeu a lidar com a imprevisibilidade política. Depois de um ano, já sabe filtrar melhor os acontecimentos e os efeitos de novas fases da Lava Jato, por exemplo, tendem a ser diluídos”. O economista pondera, no entanto, já existem grandes novas delações no radar que podem revelar "alguma grande surpresa" a ponto de gerar "instabilidade muito forte neste ano" a ponto de contaminar as previsões.

 

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