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China cresceu no máximo 5% em 2015 e mercado ainda não precificou isso, diz economista

Os dados da China podem ter sido maquiados e a situação do país deve ser pior do que a que o mercado vê; mas não é hora para pânico

Roberto Dumas Damas
(Divulgação)

SÃO PAULO - É praticamente um fato no mercado que quando a China traz um índice de atividade econômica menor do que o esperado as bolsas caem e quando ela anuncia estímulo as bolsas sobem. Mas e se as informações que temos recebido dos órgãos oficiais do governo chinês estiverem descaradamente maquiadas para parecer que o país cresce mais do que efetivamente faz?

Pode parecer uma afirmação bem pesada, mas é o que sustenta o economista do Insper Roberto Dumas Damas, autor do livro "Economia Chinesa: transformações, rumos e necessidade de rebalanceamento do modelo econômico da China". Segundo ele, é absurdo pensar que uma economia baseada em um modelo de uso intensivo de capital e com apenas 50,5% do PIB (Produto Interno Bruto) focado em serviços conseguiu crescer 6,9% em 2015 com o consumo de energia no país caindo 0,2% no mesmo período. 

Apesar disso, Dumas ressalta que não é hora para pânico e que o governo da segunda maior economia do mundo não perdeu o rumo do país. Os chineses, para ele, ainda têm muito combustível para acelerar o crescimento e suavizar o "soft landing" que já se anuncia mais turbulento do que gostariam os investidores. 

Confira a entrevista:

InfoMoney: Você está falando que o número pode estar mais fraco do que o que foi divulgado ou que ele pode ficar pior em 2016 devido à queda no consumo de energia. Qual é a repercussão disso no mercado?
Roberto Dumas: Não é nada boa. É ruim para o peso colombiano, para o peso chileno, bastante para o rand da África do Sul, para o dólar australiano, e para todas as outras moedas de economias que dependem de hard commodities. É uma péssima notícia, porque o crescimento econômico de 2015 parece ter sido de 5% para baixo [contra os 6,9% divulgados pelo governo chinês]. Isso porque o consumo de energia, principalmente em uma economia intensiva de capital, deveria ter uma correlação mais robusta com o crescimento econômico. Além disso, o volume de cargas transportado nas ferrovias caiu 10,5%. Com tudo isso acontecendo, a gente tem que se perguntar: como assim, o PIB sobe quase 7%? 

IM: Quanto teria crescido o PIB da China então?
RD: Acho que de 4% a 5%, o que não está precificado pelo mercado. 
O que os analistas falam é que a atividade do país vai desacelerar para 6%. Ou seja, o preço de hard commodities, com esses níveis de crescimento da China e retroalimentado pela queda preço de petróleo, deve cair. As commodities não estão precificadas para esse crescimento tão baixo.

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IM: E quanto a China deve crescer em 2016?
RD: Não sei quanto vai ser, mas com certeza será abaixo de 6%. Vai de 2,5% a 5%, mas não vai ser menor do que isso. De outro modo eles iriam acabar com o rebalanceamento econômico em curso e teriam que fazer o que eles sempre fazem neste tipo de situação: política fiscal expansionista e os 4 grandes bancos do país soltando dinheiro. 

O governo chinês sempre teve essa prática de suavizar os dados econômicos, tanto para baixo como para cima. Quando a economia crescia 16%, eles diziam que era 12%. Em 1989, quando teve o incidente do massacre da Praça da Paz Celestial, só o governo achou que subiu o PIB. Foi claramente um ano de recessão econômica. 

Para isso não ocorrer de novo, o governo chinês pode soltar um estímulo e o mercado provavelmente vai ter um movimento forte de alta. Mas isso acarretará numa sobrevalorização, porque o país não teve um crescimento tão grande quanto o divulgado.

IM: Dentro deste contexto, você falou em nossa última conversa que o governo da China não tinha o risco de perder a mão nos estímulos e entrar em uma crise. Você segue com essa opinião ou estes novos dados de consumo de energia e transporte de mercadorias em ferrovias criou uma nova realidade?
RD: Continua sem risco porque o governo chinês nunca mais vai cometer aquele erro de 1989. Eles não deixam movimento social escalar. Eu não vejo a menor possibilidade de mudança política na China. O governo tem arma para mexer na economia. Eles podem crescer 20% se quiserem. É só jogar dinheiro de estímulo fiscal e mandar os grandes bancos emprestarem para todo mundo. Mas isso vai acabar com todo o plano de rebalanceamento. Como é que eles vão falar que querem estimular o consumo e crescerem com qualidade se voltarem a estimular um aumento da produção para exportação com custo baixo de mão-de-obra? Acontece que a guinada que eles planejaram foi mais brusca que o previsto e o soft landing começou a ter turbulência. Então o governo vai intervir e, com isso, o desavisado vai comprar bolsa no longo prazo, mas não faça isso. Porque é só um ajuste, e um ajuste de algo que não está precificado. 

Mas antes que comece o pânico e as especulações sobre crise, a conta capital é fechada. Isso está sob controle. Crise não dá, mas vamos ter um "suadouro" nos mercados. Se o negócio continuar assim, vai ter em três ou quatro meses um estímulo, a bolsa vai disparar, a moeda vai se apreciar e depois vai cair tudo de novo. Vai ser sempre assim até o pessoal perceber que isso é um ajuste e que a China precisa abrir a curva do seu crescimento. 

 

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