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Brasilidade se constrói com entendimento

Pesquisadores estrangeiros e nacionais tem demonstrado o risco de nós prosseguimos neste modelo predatório do desmatamento que pode ameaçar a oferta de água para os reservatórios do sul do país e do continente

Amazônia
(MÁCIO FERREIRA / AG. PARÁ/FotosPúblicas)

por Nelson Azevedo*

Corremos o sério risco de ver o Brasil se separando do Brasil como se a brasilidade fosse privilégio daqueles que se dizem representantes da sociedade. As recentes medidas de corte das contrapartidas físicas do Amazonas traduzem esse movimento de um separatismo vesgo. E como não há conhecimento da nossa realidade, posto que não há comprometimento, as medidas costumam ser alopradas. Ainda está presente no imaginário social a medida atabalhoada do decreto que tentou negociar a reserva de cobre do norte da Amazônia, Renca, uma iniciativa do presidente Michel Temer em sua viagem de negociação com o governo chinês. São problemas facilmente contornáveis se nós fizermos as contas daquilo que nós somos aquilo que nós recolhemos daquilo que nós recebemos do governo central. Contornáveis na medida em que houver disposição para o diálogo justo e aberto. E aqui está o nosso maior gargalo, a falta de uma interlocução sadia.

Em artigo recente na mídia nacional, o presidente Antonio Silva, da FIEAM, entidade que congrega a indústria local, demostrou como estatísticas robustas os dados dessa desigualdade apontando saídas inteligentes e competentes em torno das alternativas de desenvolvimento da Amazônia. A interferência federal, entretanto, tem sido tão danosa que, setores como o de Concentrados, o que mais gera emprego, interioriza a economia e mais exporta, é penalizado com redução de vantagens que, oferecidas publicamente, atraíram empresas a investir nesta região remota e desprovida de infraestrutura competitiva e presença articulada da União.

Pesquisadores estrangeiros e nacionais tem demonstrado o risco de nós prosseguimos neste modelo predatório do desmatamento que pode ameaçar a oferta de água para os reservatórios do sul do país e do continente. Falta aos gestores a clareza de que a indústria instalada no Amazonas, ao gerar uma oferta de emprego significativa da região e no resto do país, impede que a população busque na floresta a própria sobrevivência. Ora, em lugar de promover a desindustrialização com medida sem sentido, muitas delas direcionadas a tapar o buraco da contravenção que hoje a polícia e a justiça estão apurando, porque não utilizar parte da riqueza aqui gerada para gerar mais riquezas, regionalizar o desenvolvimento e distribuir para os municípios empobrecidos as oportunidade que ficaram , por isso mesmo, concentradas na capital.

Queremos segurança jurídica para trabalhar e gerar riqueza com liberdade, flexibilidade e competência. Ninguém pode mudar as regras de uma partida depois que trila o apito. Como diria Winston Churchill, o governo tem olhado para os empresários como um lobo a ser caçado ou uma vaca a ser ordenhada. Muito mais conseguiria, em termos de geração de emprego, renda e impostos se, ao menos nos olhasse como o cavalo que puxa a carroça da prosperidade, onde a carga que mais pesa é a máquina pública, onerosa, pesada, perdulária e persecutória. Ou mudamos essa equação ou esvaziamos o setor produtivo, empurrando-o na direção de quem o respeita.

O Amazonas, juntamente com os demais estados da Amazônia Ocidental, além do Amapá, pelo reconhecimento de seus acertos com apenas 8% da contrapartida fiscal do país, tem cumprido um papel central no Acordo do Clima. Preserva 150 milhões de hectares enquanto o Brasil já deu provas de que não cumprirá seu compromisso de reflorestar 12 milhões desmatados pelo inépcia da gestão inconsequente. Ora, que caminho nos resta, além da legalidade constitucional? Dos 92% dos incentivos utilizados em outras regiões, quem devolve tantos ativos na direção do país e tem um saldo tão favorável ao nosso desempenho, na economia sustentável, na geração de emprego, local, regional e nacional, dentro do figurino da brasilidade efetiva? Ou nos resta - mobilizados em dimensões políticas amazônicas - insistir no caminho inteligente e transparente do entendimento de verdade em nome do interesse geral?

(*) Nelson é economista, presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgicas e vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas. E-mail: nelson.azevedo@fieam.org,br

 

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