Análise

Maior gestora de bonds do mundo se empolga com “novo Brasil”, mas aponta um grande risco

Gestora com US$ 1,5 trilhão em ativos vê possibilidade de Selic abaixo de 9% em janeiro de 2018; contudo, Lava Jato é apontada como principal risco para o cenário

A Pimco, maior gestora de bônus do mundo, com US$ 1,5 trilhão em ativos, divulgou nesta sexta-feira, 21, uma análise otimista sobre o Brasil, em que vê uma “reviravolta impressionante” na política econômica brasileira desde o impeachment de Dilma Rousseff e estima que o atual ciclo de corte de juros, iniciado esta semana pelo Banco Central, pode levar a Selic a cair para 9% até janeiro de 2018 ou para um nível ainda mais baixo, de acordo com relatório divulgado nesta sexta-feira. A Lava Jato, porém, é apontada como um dos principais riscos para o cenário.

“O impeachment abriu caminho para um presidente centrista, mais amigável aos negócios, que tem uma equipe econômica capaz de conseguir fazer as coisas”, afirmam os estrategistas da Pimco para mercados emergentes, Yacov Arnopolin e Lupin Rahman. De volta aos Estados Unidos após uma viagem ao Brasil, os dois gestores acreditam que, se o presidente Michel Temer conseguir avançar com as reformas e medidas que podem desencadear “um círculo virtuoso” de mudanças mais profundas no País após as eleições de 2018.

“Um retorno sustentado da confiança provavelmente vai aumentar o investimento externo direto e os fluxos de portfólio”, afirmam os dois economistas no relatório. Esse movimento estimularia ainda os empresários a investir mais e também os consumidores, ajudando a acelerar a alta do Produto Interno Bruto (PIB). Nesse cenário, a Pimco ressalta que papéis de renda fixa do Brasil continuam a apresentar “oportunidades atrativas”. Um dos reflexos pode ser a volta da melhora do rating soberano do Brasil, rebaixado várias vezes nos últimos anos pela crise fiscal e a recessão.

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Com a confiança no governo dando sinais de melhora, o Brasil pode estar no caminho de uma recuperação, que levaria os juros novamente para um dígito e deixaria o País com chances de ter melhora do rating soberano, de acordo com a Pimco. Tudo vai depender, ressalta o documento, da habilidade de Temer seguir avançando com a agenda de reformas no Congresso.

“Uma economia preparada para se recuperar. Um presidente comprometido com a implementação de reformas. Um governo com técnicos competentes e com combate à corrupção. Um conjunto de novos presidentes para tocar empresas estatais ineficientes. Um Banco Central que entrou em um ciclo de corte de juros. Um país com mercado de capitais líquido e profundo. Alguém acreditaria em nós se disséssemos que esse país é o Brasil?”, afirmam os dois gestores logo no início do relatório.

Riscos
Apesar da perspectiva positiva, os dois estrategistas ressaltam que desafios importantes persistem na economia brasileira. A relação entre a dívida bruta e o PIB deve terminar a década em 90%, patamar mais alto entre os emergentes. “As reformas não conseguem alterar a trajetória de curto prazo da dívida. Elas podem meramente buscar evitar uma trajetória ainda pior”, afirmam os dois gestores no relatório, destacando que as medidas propostas por Temer precisam de mais de um ciclo político para serem efetivas, ou seja, vão além das eleições de 2018.

A Lava Jato também é apontada no relatório como importante fator de risco, principalmente se envolver círculos mais próximos do governo. Nesta semana, o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, foi preso. A Pimco também chama atenção para o risco de que a opinião pública não receba bem as reformas, sobretudo a da Previdência, em meio ao aumento do desemprego. Esta insatisfação pode repercutir no resultado das eleições de 2018.