Guru da Bovespa

Luiz Barsi revela um dos seus maiores arrependimentos na Bolsa: ter comprado ações da Oi

“Às vezes o dividendo alto pode seduzir o investidor, mas a falta de alinhamento da gestão pode levar a empresa a uma direção perigosa”, diz Barsi

Por  Paula Barra -

SÃO PAULO – Depois de contar como garantiu a compra de dois investimentos de sucesso este ano – as ações da Vale e Banco do Brasil -, assim como sua nova aposta na Bolsa (as units da Taesa), Luiz Barsi, um dos maiores investidores pessoas físicas da BM&FBovespa, conta sobre um dos seus maiores arrependimentos: as ações da Oi.

Em seu mais recente artigo ao site Suno Research, Barsi fala sobre a importância do investidor ter consciência que nem todos os investimentos terão bons resultados e que nem sempre olhar o dividendo corrente levará a melhor decisão na Bolsa.

Confira abaixo a íntegra da coluna desta semana de Luiz Barsi:

Nos últimos relatórios foram tratados investimentos de sucesso recentes (Vale e BB) assim como um que está sendo realizados atualmente, que é a Taesa. 

É muito importante o investidor ter a consciência que nem todos os investimentos terão bons resultados. 

Quando eu era jovem eu não tinha a experiência que eu tenho hoje. E mesmo com a experiência de hoje, às vezes a análise de um investimento acaba não dando certo. 

Todos os investidores, mesmo os de sucesso, tem alguns resultados ruins em seus currículos. Um investimento recente que tive perdas foram com as ações preferenciais da companhia de telefonia Oi (código em bolsa OIBR4).

Alguns anos atrás, o presidente da empresa deu declarações afirmando que a empresa pagaria R$ 2 bilhões de dividendos por ano. A empresa valia cerca de R$ 20 bilhões em bolsa. Portanto, esse dividendo representava um dividendo de 10% sobre o preço das ações. 

Infelizmente, ao longo dos anos a empresa seguiu uma trajetória de deterioração de seus resultados e aumento da sua divida. A empresa também pagou mais dividendos do que seus resultados permitiam o que contribuiu ainda mais para o aumento da divida. 

Como consequência as ações começaram a perder valor, e em um momento a empresa afirmou que os dividendos de R$ 2 bilhões seriam cortados para R$ 500 milhões. 

Como as ações tinham caído de R$8,00 para R$2,00, a proporção de 10% de dividendos estava compatível e as ações foram mantidas.  

Um tempo depois, a Oi resolveu fazer um agrupamento de ações. Se você tivesse mil ações que valiam R$ 2,00, após o agrupamento você teria cem ações valendo R$ 20,00. O valor de seu investimento e sua participação na empresa não mudam. 

Essas ações que passaram a ser negociadas a R$20,00 se desvalorizaram de maneira intensa seguindo a deterioração financeira da empresa. Chegaram a valer R$ 0,80. A perda do valor investido chegou a mais de 95%. 

Como as ações ordinárias da Oi (código em bolsa OIBR3) tinham caído ainda mais que as preferenciais, eu resolvi trocar as ações preferencias que eu tinha por ações ordinárias. 

Nos meses seguintes, as ações ordinárias recuperaram de maneira mais rápida que as preferenciais, e estão sendo negociadas a cerca de R$2,70. 

A lição a ser tirada desse investimento é que analisar a qualidade da administração e do quadro societário é muito importante. 

Aquela promessa de pagar R$2 bilhões de reais por ano não era sustentável. A empresa precisava se endividar para pagar aqueles dividendos. E essa compromisso da gestão com esse pagamento excessivo colocou a empresa em uma trajetória de risco.  

Às vezes o dividendo alto pode seduzir o investidor, mas a falta de alinhamento da gestão pode levar a empresa a uma direção perigosa. Portanto, fique atento na administração de uma empresa que você tem pretensões de se tornar acionista.

Alguns investidores cometem outro tipo de erro. Compram ações de uma empresa muito boa, mas se empolgam com os primeiros ganhos e vendem muito cedo e não se beneficiam de uma valorização ainda maior. 

Por exemplo, as ações da Klabin se valorizaram mais de cem vezes desde que fiz o investimento no final da década de 1990. Se tivesse vendido quando as ações tivessem valorizado 50% ou 100%, quanto eu teria deixado de ganhar?

Como faço investimentos de longo prazo, com a pretensão de me tornar um parceiro do projeto empresarial, raramente vendo as ações.  Desta forma, o erro de vender muito cedo não é um erro comum para aqueles que têm uma abordagem de investimento como a minha.

Um erro que também é comum é estudar e analisar uma empresa e investir menos do que deveria. É um erro de arrependimento. No meu caso, poderia ter comprado ainda mais ações da Klabin, infelizmente na época não me senti seguro para fazer aquele investimento. 

Outro arrependimento foi não ter comprado ações do Itaú quando valiam centavos. O Itaú nunca foi uma ação que pagava bons dividendos, porém sempre conseguiu crescer muito acima da média dos demais bancos, sobretudo realizando aquisições de outras instituições. 

Outros bancos, como o Banco Noroeste e Banco Bandeirantes, pagavam um dividendo maior que o Itaú na época. O dividendo maior destes bancos acabou me seduzindo e deixei de lado as ações do Itaú. Esses outros bancos listados não chegaram a ser um mau negócio, pois foram adquiridos por outros bancos, porém investir em ações do Itaú teria sido um negócio ainda melhor. 

Portanto, somente olhar o dividendo corrente nem sempre leva a melhor decisão. Uma administração de excelência pode não distribuir muito dividendo hoje, mas é capaz de criar muito valor aos investidores com uma abordagem de longo prazo. Porém, na época não estava tão claro que a administração do Itaú era tão melhor que os demais bancos. Olhar pelo retrovisor é fácil. Às vezes as coisas só ficam claras em retrospecto.

Nas próximas semanas trataremos sobre temas relacionados à análise qualitativa da gestão de uma empresa, um tema de extrema importância para aqueles que buscam ser investidores de longo prazo em uma empresa.

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