Juros elevados e corrida por eleitor devem marcar cenário de 2026, apontam analistas

Fernando Genta, economista chefe da XP Asset, e Thomas Traumann, cientista político, veem país polarizado, incerteza fiscal e eleitor decisivo atento à segurança, renda e custo de vida

Vinicius Alves

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As projeções para 2026 indicam um cenário desafiador para o Brasil, marcado por um espaço limitado para cortes na taxa de juros, persistente incerteza fiscal, estruturas eleitorais robustas (o que pode significar mais gastos públicos) e um eleitor focado em questões práticas do cotidiano.

Essa análise foi apresentada pelo economista-chefe da XP Asset, Fernando Genta, e pelo cientista político Thomas Traumann, durante debate sobre a economia e o ambiente eleitoral do próximo ano, realizado nesta quinta-feira (27), no Grand Hyatt São Paulo, no evento XP Anual Meeting.

Genta avalia que, independentemente do momento em que o Banco Central decida iniciar um novo ciclo de afrouxamento monetário, 2026 não deve abrir margem para grandes reduções da taxa básica.

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Calendário eleitoral e fiscal

Segundo ele, o calendário eleitoral, a fragilidade fiscal e o nível de incerteza reduzem o espaço para movimentos amplos da política monetária.

“Dadas todas as expectativas do calendário eleitoral e tudo o que se espera do fiscal, não vai ter espaço para um grande corte”, afirma.

“Estamos naquele ponto de dúvida sobre a capacidade do governo de avançar nos ajustes necessários.”

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Do lado político, Traumann sustenta que o país seguirá dominado por uma lógica binária. “Temos um país tão polarizado que impede a existência de um terceiro candidato competitivo”, diz.

“Cerca de 45% votam em Lula; outros 45% votam contra Lula. O resto é um campo muito estreito e volátil.”

Eleitor decisivo

É dentro desse campo estreito que se concentra a atenção dos estrategistas. Traumann identifica esse grupo como majoritariamente formado por mulheres, chefes de família, entre 35 e 40 anos, nas grandes cidades do Sudeste.

Um eleitorado que, segundo ele, vive o cotidiano da insegurança, do transporte, da escola dos filhos e do aperto financeiro.

Para explicar o comportamento desse segmento, o cientista político lembra o conceito da “política da dor”, termo popularizado em análises eleitorais nos EUA. “É o que atinge a pessoa no dia a dia. É essa dor que vai definir a eleição.”

“É uma eleição decidida por 2%. Qualquer fissura mexe no resultado”, afirma. “Se o bolsonarismo mais duro estiver neutralizado e houver uma aliança que vá até o PSD, a oposição entra favorita”, acrescenta.

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O pano de fundo, segundo Traumann, é um movimento global de alternância motivada pelo sentimento de incômodo e desejo de mudança.

“O mundo inteiro está alternando de posições políticas. No Uruguai, Chile, Argentina, Estados Unidos. Existe uma sensação de inconformismo que favorece narrativas de mudança.”