Carne

JBS (JBSS3) e Marfrig (MRFG3): Impactos de plano de Joe Biden devem ser limitados, dizem analistas

Preço da carne estaria alto por outros motivos e não pelo fato de o mercado americano de proteínas estar concentrado

Por  Vitor Azevedo -

Após o presidente americano Joe Biden se mostrar incomodado com os lucros e com os dividendos dos frigoríficos atuantes nos Estados Unidos e anunciar um plano na última terça-feira (4) para diminuir o poder dessas empresas – que, segundo ele, teriam aproveitado da pouca concorrência para aumentar preços no país -, analistas e gestores se debruçaram sobre a questão.

Com essa notícia, na última segunda-feira (3), os papéis da JBS fecharam com queda de 4,22%, enquanto as ações da Marfrig recuaram 3,62%. As duas empresas são players atuantes nos Estados Unidos, com as vendas no país representando cerca de 75% da receita de ambas.

Por sinal, o resultado das companhias na maior economia do mundo impulsionou as ações em 2021, com ganhos de mais de 70% para os ativos.

Dessa forma, o anúncio gerou receio para os investidores em papéis das empresas, mas as sinalizações são de que, por enquanto, não há grandes motivos com o que se preocupar.

Concentração no mercado de proteína americano não é algo novo

As duas empresas, somadas à Cargill e à Tyson, são responsáveis por cerca de 85% do volume total da carne vendida nos EUA – algo, porém, que não é tão novo assim, segundo avalia o Morgan Stanley.

“Claro, o alto nível de concentração nos EUA ajudou os principais players a repassarem preços nos últimos anos. Mas a consolidação da indústria da carne no país não é algo tão novo assim. Na verdade, já é algo visto há mais de uma década”, comentaram os analistas do Morgan Ricardo Alves e Victor Tanaka.

Os dois analistas pontuam ainda que a recente alta dos preços da carne se deu por outros problemas. “Embora a demanda por carne bovina tenha sido muito forte com a volta da alimentação fora de casa e com o consumo na China e nos Estados Unidos muito aquecido, o lado da oferta ainda é altamente restrito, já que o gado do Brasil e da Austrália está caindo”, explicaram.

Além disso, de acordo com Alves e Tanaka, o fato de a Argentina, outro importante produtor mundial, estar com a exportações restritas também pesa. Pesou também o fato de, nos EUA de Biden, os frigoríficos estarem enfrentando problemas com a falta de mão de obra, algo que não deve ser resolvido no curto e no médio prazo.

Os analistas Leonardo Alencar e Pedro Fonseca, da XP, vão no mesmo caminho, apesar de apontarem outro fator que seria o motivo principal da elevação do preço, esse mais no lado da demanda. “A principal razão para demanda para permanecer resiliente apesar dos preços mais altos, foi a ajuda do governo distribuída durante a pandemia, não uma distorção no poder de precificação, em nossa opinião”, comentaram.

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Dessa forma, o Morgan Stanley questiona se o plano de Biden, que prevê a injeção de US$ 375 milhões para financiar o desenvolvimento de plantas menores e para buscar inserir novos players no mercado, será realmente efetivo. “Considerando que nem as fábricas existentes estão sendo capazes de operar em plena capacidade e que encontrar mão de obra é uma questão crítica para a indústria atualmente, é difícil acreditar que players menores, com escala limitada, seriam capazes de resolver o problema”, comentaram.

Para Alves e Tanaka, há o fato ainda de a quantia anunciada pelo governo Biden ser pequena. “Uma quantia semelhante poderia acrescentar apenas cerca de 1.500 cabeças por dia, ou 1% do total”

Por fim, o Morgan Stanley destaca que não houve, no anúncio do governo americano, nenhuma sinalização de que haverá controle de preços, o que afasta temores sobre a operação das brasileiras JBS e Marfrig. “O ruído político é sempre uma fonte de preocupação para quem acompanha o mercado de proteínas, mas, à primeira vista, o plano não parece ter grandes implicações de longo prazo para as companhias”, afirmaram os analistas.

Os analistas do Morgan possuem recomendação overweight (exposição acima da média do mercado) para os ativos JBSS3, com preço-alvo de R$ 54, ou potencial de valorização de 49,3% em relação ao fechamento da véspera.

A XP acredita que as margens dos frigoríficos nos EUA cairão em breve, mas não pela iniciativa do presidente do país. “A contração nas margens deve acontecer em função do aumento do gado, dos custos trabalhistas mais altos, da escassez de mão-de-obra – provavelmente o principal problema no curto prazo – e uma pressão nos preços dos grãos”, finalizaram.

Mesmo assim, a corretora manteve sua recomendação de compra para as ações ON da JBS, com preço-alvo em R$ 51,80, ante R$ 36,10.

Investigação sobre JBS no radar dos investidores

Além do anúncio do governo Biden, outra questão, mais específica sobre a JBS, entrou no radar dos investidores. Parlamentares dos EUA e da Europa pediram, na última quarta-feira (5), a abertura de uma investigação contra a JBS (JBSS3), por conta de suas práticas comerciais. No primeiro momento, os impactos não atingem diretamente o faturamento da companhia, mas podem trazer prejuízos à marca.

“A noticia é negativa para a JBS (JBSS3), pois contribui para minar a imagem da empresa no exterior, embora ainda não constitua nenhuma medida concreta que prejudique os resultados da empresa”, comentou a Ativa Investimentos em seu morning call. 

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