Especulador: principal vilão do mercado ou um mal necessário?

Apesar da modalidade ser mal vista, especialistas explicam que até o mais conservador é no fundo um especulador

Graziele Oliveira

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SÃO PAULO – O especulador sempre foi visto como um vilão dos mercados acionários e sempre lembrados em momentos de crise como os motivadores daquele período de contração econômica. Quem pode esquecer o pepel atribuído aos hedge funds na crise de 2008? A esta modalidade especial de fundos foi atribuída, erroneamente, a responsabilidade pelo cataclisma financeiro que se abateu sobre o mercado naquele ano.

Assim, segundo os especialistas, o crédito ruim atribuído à modalidade dos especuladores no mundo dos investimentos não tem muita razão de ser. “Especulador, na origem da palavra, [espe: primeiro e cular: olhar], é aquele que enxerga antes de todos o que vai acontecer. É um bom estrategista. Confundimos especulador com o manipulador de mercado”, destaca o educador financeiro Mauro Calil.

Essa é a mesma opnião de Marcio Cardoso, sócio diretor da Título Corretora. “É uma palavra feia e cheia de estigmas. Ele [o especulador] tem uma importância no mercado pois é o tomador de risco, aquele que acredita em um determinado movimento. É importante, sempre foi e sempre será, pois ele está ali para dar liquidez ao mercado em momentos em que não há”, explica.

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Segundo Calil, de algum modo, todo mundo que forma uma poupança é um especulador, pois no futuro ele quer ter um montante maior do que tem hoje. Deste modo, para Calil, trata-se do mesmo caso daquele investidor que compra um imóvel pensando em não pagar mais aluguel, ele também estaria especulando.

“Ele está olhando lá na frente e antevendo o que vai acontecer. Além disso, o especulador no mercado financeiro, aquele que entra e sai com muita frequência, é necessário pois ele dá liquidez ao mercado. O manipulador é que é negativo”, diferencia Calil.

Cardoso, da Título Corretora, vai além: “se você tivesse pessoas que só se baseassem em modelos matemáticos ou técnicos, você teria um mercado mais justo, no sentido de limitado e restrito, porque todo mundo trabalharia da mesma forma. O especulador tem a função de desarbitrar o mercado”, diz.

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Quem pode especular?
Se a sua estratégia hoje, por exemplo, exige que você mantenha certas ações por um curto período de tempo para objetivar o retorno desejado, você pode ser considerado um especulador ou um “trader” do mercado. Não há nada de negativo nisso.

Para fazer essas compras e vendas nos momentos certos, o especulador pode levar alguns segundos, meses ou até anos se levarmos em conta o exemplo daquele que compra um imóvel, como mencionou Mauro Calil. Entre os métodos de análise mais utilizados para especular, está a análise técnica.

Para o estrategista-chefe da SLW Corretora, Pedro Galdi, é possível classificar o especulador entre as modalidades de investidores. “Você tem diferentes tipos de investidor. O especulador normalmente é aquele que compra papéis não tão tradicionais, olhando para gráficos ou podendo ser mais agressivo. Ele está no dia-a-dia, é um investidor dentro de uma série de perfis que existem, pois aproveita um oportunidade de mercado”, analisa Galdi.

Na mesma linha está o analista-chefe da Gradual Corretora, Paulo Esteves. Para ele, todo mundo é especulador e este perfil pode ser considerado, na pior das hipóteses, um mal necessário ao mercado, pois faz a contraparte do investidor que não tem um perfil tão agressivo. “O pequeno [investidor] pode especular também, é uma espécie de aposta que você está fazendo, e isso independe do montante”, diz Esteves.

Segurança
Quem não se recorda do mais famoso de todos os manipuladores do mercado no Brasil, Naji Nahas? Entre as décadas de 70 e 80, Nahas chegou, por meio de sua holding, a controlar 7% das ações da Petrobras e 12% dos papéis da Vale em circulação. Sua figura pública, no entanto, começou a se deteriorar em 1989, com a quebra da bolsa de valores do Rio de Janeiro, quando foi acusado de tomar dinheiro emprestado para negociar ações para si próprio por meio de laranjas.

Porém, os especialistas acreditam que uma situação semelhante dificilmente se repetiria no mercado atual. Segundo Esteves, o mercado brasileiro está menos sujeito às grandes variações dos manipuladores, em função do significativo aumento do volume dos negócios diários, além da maior transparência adquirida nos últimos anos. “Tem especulação inteligente, que demanda trabalho intelectual e desenha cenários. A especulação rasteira é aquela que vai em cima da fofoca, dos rumores ou de insider [information] e essa deve ter essa conotação negativa”, diz Esteves.

Assim. fica a dica dos especialistas consultados pelo Portal Infomoney: todos podem especular caso a sua estratégia peça por algo do tipo, desde que não tenha informação privilegiada e que não prejudique o mercado.