Entenda como as decisões da Fed Funds Rate afetam os mercados como um todo

Juro básico dos EUA impacta retrato das bolsas, renda fixa, risco e câmbio; expectativas cumprem papel fundamental

Publicidade

SÃO PAULO – Dias de reunião do Federal Reserve habitualmente são marcados por ansiedade sobrenatural dos investidores. Além da reação do mercado na data do evento, as expectativas acerca da postura da autoridade monetária norte-americana estendem os reflexos do encontro para intervalo de tempo ainda mais abrangente.

De maneira geral, a reunião do Fomc (Federal Open Market Committee) figura para os mercados internacionais como o ator principal de uma agenda de indicadores. Nenhuma ocorrência traz tantas repercussões e desdobramentos sobre o movimento dos negócios ao redor do globo.

A atual situação da economia norte-americana aliada às crescentes pressões inflacionárias representa ainda um tempero adicional ao evento. Aumenta a responsabilidade do colegiado, e a tarefa dos analistas em projetar antecipadamente a atualização do juro fica cada vez mais difícil, ainda que respaldada por eventuais declarações dos membros votantes do colegiado.

Treinamento Gratuito

Manual dos Dividendos

Descubra o passo a passo para viver de dividendos e ter uma renda mensal previsível, começando já nas próximas semanas

E-mail inválido!

Ao informar os dados, você concorda com a nossa Política de Privacidade.

Tal resposta dos investidores resume a importância da ocorrência. Não se trata apenas de efeitos isolados sobre a maior economia do mundo. O rumo da taxa básica de juro norte-americana impacta os mercados como um todo. Seus movimentos são sentidos não só no humor dos investidores ou na tendência dos índices acionários, mas na renda fixa, câmbio, indicadores de risco; conjuntura econômica de fronteiras além dos limites territoriais norte-americanos.

Entenda a taxa

Interpretar os desdobramentos de uma alteração na Fed Funds Rate parte necessariamente do entendimento da taxa. A Fed Funds relaciona a margem das operações no mercado financeiro que possuem lastro tanto em títulos públicos quanto nas taxas interbancárias, que não deixam de acompanhar a meta de juro do banco central.

Resumindo: aumento no juro remete imediatamente a aperto monetário, encarecimento do crédito; enquanto uma redução na taxa representa facilidade de financiamento pela incidência de juros menores, estímulo ao fluxo de investimentos, afrouxo monetário.

Continua depois da publicidade

Por se tratar da maior economia do mundo, os movimentos da Fed Funds têm tanta importância. O fluxo de investimentos na bolsa brasileira, por exemplo, se deve em grande proporção aos famosos fundos e investidores estrangeiros. Apenas esta premissa já explica em grande parte a reação dos mercados ao evento.

Começando pela bolsa…passando pela renda fixa

Começando pela bolsa, uma redução no juro básico norte-americano tende a impulsionar o fluxo de investimentos na renda variável, exatamente pelos tópicos descritos anteriormente. Com maior volume de investimentos e liquidez, a tendência natural é de impulso aos índices acionários de Wall Street.

É aí que entra o impacto sobre a bolsa brasileira. O grande número de aplicações provenientes destes fundos e investidores estrangeiros no mercado doméstico associa a resposta de Wall Street ao desempenho do Índice Bovespa.

Uma outra abordagem fica por conta do impacto do custo do crédito sobre as empresas listadas em bolsa. Juros mais altos ou baixos influenciam diretamente os balanços financeiros das empresas de capital aberto, impactando assim o preço das ações. Não obstante, a variação da taxa básica de juro enquanto medida de controle de inflação também mexe com as expectativas não só dos investidores, mas também no lado produtivo, no que concerne às estimativas de comportamento de preços e tomada de decisões de investimento diante deste quadro, o que não passa despercebido pelas cotações dos ativos.

Outra repercussão imediata do evento é na renda fixa. Os títulos públicos e demais alternativas de aplicação na renda fixa em grande parte são atrelados às taxas básicas de juro. Alta no juro básico, assim, sugere maiores taxas de retorno para as notas de renda fixa, em outras palavras maior atratividade desta opção frente à renda variável, conseqüente, maior procura pelas mesmas.

Este desdobramento também influencia na relação com as ações. Um aumento no juro básico amplia a atratividade da renda fixa e reforça a idéia do impacto positivo de quedas na Fed Funds Rate para as ações. O caso contrário, de redução no juro básico, favorece uma migração para a renda variável e tende a refletir negativamente na demanda pela renda fixa.

Impacto na cotação do dólar

No mercado interno estes desdobramentos também evidenciam a entrada de capital estrangeiro no Brasil e conseqüentemente trazem a cena outro mercado, o de câmbio. Um estímulo à aplicação na renda variável amplia a procura dos investidores estrangeiros pelas ações brasileiras, mais arriscadas, porém com potenciais de valorização superiores aos ativos norte-americanos.

A mesma linha de raciocínio pode ser adotada nas aplicações de renda fixa. Uma alta no juro norte-americano eleva a atratividade dos títulos dos EUA frente aos papéis brasileiros, sendo que o contrário também é válido.

Sendo assim, o impacto de mudanças na Fed Funds Rate sobre a renda fixa e variável doméstica também é sentido na relação dólar/real. A entrada de capital externo pressiona a cotação da moeda norte-americana frente à brasileira, com a fuga de divisas estrangeiras gerando o efeito contrário. Esta afirmação parte basicamente da relação entre oferta e demanda de dólares no mercado interno.

Risco-Brasil também sente

Especificamente pelos impactos na renda fixa é que a variação da Fed Funds Rate incide sobre o indicador de risco-Brasil, tendo em vista que o mesmo é calculado a partir da relação entre os títulos do Tesouro norte-americano (Treasuries) e da dívida externa brasileira negociados no exterior (Globais).

Os papéis assegurados pelo Tesouro dos Estados Unidos apresentam risco nulo ao investidor, pois relacionam país com histórico de pagamentos em dia e sem sobressaltos, com maior facilidade para captar dinheiro a uma taxa muito inferior a países com histórico recente de problemas de crédito.

Sendo assim, a disputa dos títulos destes países pelos investidores depende do prêmio de risco de cada país. Como é mais seguro aplicar na nota do governo dos EUA, o título brasileiro tende pagar ao investidor um prêmio por assumir o risco de ter escolhido um Global.

O papel das expectativas

Além dos desdobramentos imediatos de uma alteração em seus patamares, a Fed Funds Rate também gera profundas repercussões nos mercados a partir das expectativas dos analistas para seu rumo.

Como grande parte dos movimentos são antecipados na bolsa, por exemplo, parcela considerável do real impacto da notícia já vem precificada a cada projeção divulgada.

Esta afirmação remete diretamente ao movimento desta quarta-feira (25). A estabilidade da Fed Funds Rate tende a manter os fundamentos dos mercados inalterados, mas por estas “expectativas” que responde o impulso sentido pelas bolsas.

A enorme ansiedade gerada pela notícia em si desta vez foi de encontro às projeções anteriores. A manutenção do juro confirmou as expectativas, validando precificações anteriores e apagando esta ansiedade.