É hora de comprar ações? Veja para qual perfil de investidor vale a pena

Faz sentido acreditar que o pior já passou, se lembrarmos do dia em que o Ibovespa chegou a 29.435 pontos

SÃO PAULO – Após o movimento de queda nas primeiras semanas do mês, o Ibovespa revela alguma recuperação, quebrando novamente a barreira dos 50 mil pontos. Mas ainda nada parecido com os resultados do indicador no período pré-crise.

Ainda assim, a grande maioria acredita que o pior já passou, principalmente se lembrarmos do dia 27 de outubro do ano passado, quando o Índice Bovespa chegou a 29.435 pontos.

Neste contexto, faz sentido quem nunca investiu no mercado de ações, ou que saiu dele em meio à turbulência, questionar se vale a pena apostar na Bolsa agora, isto é, se este momento resguarda uma oportunidade, que pode até ser única. Afinal, o futuro é imprevisível e a força desta crise está aí para comprovar a tese do amanhã incerto.

“Aos poucos, a Bolsa está entrando num ciclo de alta de forma mais tranquila. É provável que, nos próximos quatro, cinco meses, haja alguma volatilidade, mas o intenso sobe-e-desce observado nesta crise não deve se repetir nos próximos dois anos”, opina o coordenador de Finanças do Faap MBA, Carlos Ayres.

Já para o professor de Finanças da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Wilson Nakamura, há sinais claros de que a economia mundial está se recuperando, sendo que, nos países emergentes, isso se dá mais rapidamente. “Porém, ainda não há clareza com relação ao comportamento da economia daqui para frente”, admite.

Posso me expor?

A maioria dos investidores sem muita experiência na Bolsa pode estar se questionando se é hora de se expor. A resposta que qualquer consultor financeiro daria é: “Depende”. Então ele perguntaria: “Qual o seu perfil de investidor? Você topa se arriscar?”. Outra questão que não faltaria é “Qual seu horizonte de investimento?”.

Vamos por partes. Para o investidor arrojado, este é um momento “excelente”, na opinião de Ayres. “Esse tipo de investidor se aproveita da volatilidade para vender quando há uma alta, aguardando nova baixa para comprar. Há papéis que caíram 10% em julho e, em apenas dois pregões, se recuperaram”, diz.

Nakamura concorda que existem oportunidades para quem não teme o risco. Neste caso, dá para alocar até 40% dos recursos disponíveis para investimento na Bolsa. Quem administra a própria carteira deve até pensar em papéis menos negociados, desde que acompanhe de perto o mercado, o desempenho das empresas e dos setores.

Para Mauro Calil, professor e educador financeiro do Centro de Estudos e Formação de Patrimônio Calil & Calil, o investidor agressivo pode incluir na carteira small caps de empresas que estão neste momento se livrando de uma dívida ou de um problema contábil. “Se elas realmente conseguirem dar a volta por cima, poderão render bons lucros”, explica.

Conservador deve permanecer conservador

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“Porém, minha recomendação para o conservador é ficar fora, por enquanto”, aconselha Nakamura. O motivo é a incerteza quanto ao futuro e o forte componente emocional envolvido quando o assunto é investimento. Não dá para entrar em pânico e realizar prejuízo! “Aguarde mais notícias nos jornais antes de fazer a aposta. Acredito que, na segunda metade deste semestre, o cenário futuro ficará mais claro”.

O professor do Mackenzie diz que, caso o investidor conservador fizer questão de entrar na Bolsa, seria melhor que não aplicasse mais de 10% dos recursos disponíveis para investimento em ações. Além disso, as blue chips devem ser a preferência. O restante pode ser alocado em poupança, renda fixa e fundos multimercados que apresentem risco médio, ou seja, que não sejam alavancados com derivativos, ações de segunda linha ou opções.

Calil concorda com a questão das blue chips, que são fundamentais para aqueles que fogem do risco. “É possível que as pessoas que nunca tenham investido antes se sintam perdidas, porque há 400 empresas listadas na Bolsa. Meu conselho é escolher as sólidas, de primeira linha, que possuem mercado cativo. Mesmo assim, o horizonte de quem aplica em renda variável é sempre de longo prazo. Eu diria cinco anos”.

Ayres, por sua vez, recomenda ao conservador ações de empresas que distribuem bons dividendos. “Os dividendos de algumas companhias estão no mesmo patamar do período anterior à crise, ou apenas um pouco menores. Ações de bancos podem ser interessantes, porque essas instituições pagam dividendos mensalmente”.

Em sua opinião, para esse investidor, comprar boas ações pode valer a pena, dado o retorno na comparação com a renda fixa. “Em seis meses ou um ano, a rentabilidade dessas ações deve superar com larga margem a da renda fixa”.

E o moderado?

Nakamura diz que o patamar atual do Ibovespa também traz oportunidades aos moderados. Mas estes não devem alocar mais de 25% dos recursos disponíveis no mercado de ações. Ayres, por sua vez, recomenda a esse perfil de investidor assumir um pouco mais de risco, apostando em setores impactados negativamente pela crise, mas que estão sendo “reativados” pouco a pouco, como o petrolífero e o de commodities.

Para o educador financeiro do Calil & Calil, a carteira do moderado deve ser um misto de blue ships e small caps ou mid caps. Outra alternativa fica com os contratos de mercado futuro, que, dentro de um limite de risco, possibilitam bons ganhos.

Ele afirma que a Bolsa é interessante para todos os perfis de investidores, ainda mais no momento atual. “Não tem mais jeito. Com a queda da Selic, cai a rentabilidade da renda fixa. As pessoas que quiserem construir patrimônio não têm outra alternativa que não o mercado de ações”, opina. “A renda fixa está perdendo rentabilidade até mesmo para a poupança, cuja rentabilidade é baixa”.

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Nakamura finaliza lembrando que todo investidor, independentemente de sua postura com relação ao risco, deve direcionar certa quantia a blue chips, por conta da crise. “Ações de empresas como Petrobras e Vale são convenientes para qualquer investidor de bolsa de valores”.