Altas e baixas

De salto de 200% à queda de 47%: as ações do Ibovespa que mais brilharam e as que mais decepcionaram em 2016

Rali de commodities impulsionou Vale e siderúrgicas, enquanto papéis de exportadoras sofreram com a queda do dólar

SÃO PAULO – A maior parte dos investidores da Bovespa teve um bom motivo para comemorar o ano de 2016: o benchmark da bolsa brasileira, o Ibovespa, teve alta de 38,94%, encerrando a 60.227 mil pontos, no seu melhor ano desde 2009. Essa foi também a primeira vez que o índice encerrou após três anos seguidos de perdas.  

2016 começou com perspectivas de que seria um ano negativo para o índice, em meio às estimativas econômicas ruins para o Brasil, o cenário de desaceleração da economia chinesa e de apatia nas projeções de crescimento global. Contudo, a maior parte das ações que compõem o Ibovespa foi beneficiada pela reviravolta nos mercados: o rali de commodities sustentou a disparada dos papéis das siderúrgicas, destaque de queda em 2015. Apenas 9 ações das 58 do índice fecharam em baixa anual. 

Um breve resumo do desempenho das commodities no ano:

Petróleo (Brent): +24%
Minério de ferro (porto de Qingdao, na China): +90%
Ouro: +7,6%
Prata: +15,2%
*Cobre: +16,3% 

Voltando, o índice também foi beneficiado pela mudança no cenário político nacional, com o impeachment de Dilma Rousseff, que foi substituída por Michel Temer, considerado mais pró-mercado e que anunciou mudanças como programa de concessões e medidas para reduzir o déficit.

Ao mesmo tempo, os passos do Federal Reserve para elevar os juros nos EUA (que finalmente ocorreu em dezembro) foram acompanhados de perto pelo mercado brasileiro. Apesar de, em novembro, a eleição de Donald Trump ter elevado a probabilidade de uma alta de juros mais rápida e intensa pela autoridade monetária americana e ter feito o dólar subir na reta final, a divisa americana caminha para a maior baixa anual em pelo menos seis anos. No acumulado do ano, a queda foi de 17,69%, na sua primeira desvalorização frente ao real desde 2010 e com a maior queda desde 2009. Com isso, as ações de empresas exportadoras foram as que mais sofreram na bolsa este ano.

Confira os principais destaques de 2016:

Vale e siderúrgicas brilham, mas Petrobras não fica atrás…
Bolha, estímulos do governo da China, eleição de Donald Trump nos EUA. Independentemente da justificativa (e da perspectiva da sustentabilidade da alta), as commodities metálicas tiveram um ano bem positivo, caminhando para fechar o período com fortes ganhos após cinco anos consecutivos de baixa. Em destaque, está o minério de ferro: a commodity negociada em Tianjin fechou a última quarta-feira a US$ 79,80, acumulando ganhos de 86% em 2016. O cobre e o níquel também registraram valorizações, mas menos expressivas. 

Esse foi um dos motivos para que os “patinhos feios” do Ibovespa em 2015 tenham se tornado as estrelas de 2016. Bradespar (BRAP4, R$ 14,85, +199,92%) , Metalúrgica Gerdau (GOAU4, R$ 4,80, +189,16%), CSN (CSNA3, R$ 10,85, +171,25%), Usiminas (USIM5, R$ 4,04, +164,52%), Vale (VALE3, R$ 25,68, +98,24%; VALE5, R$ 23,49, +130,69%) e Gerdau (GGBR4, R$ 10,80, +133,32%), registraram um desempenho impressionante e ao menos dobraram de valor durante o ano.

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Além do noticiário macroeconômico, as empresas também deram boas notícias para os investidores. A Usiminas concluiu com sucesso a renegociação da dívida, enquanto a Vale anunciou diversos desinvestimentos de ativos non-core, melhorando as perspectivas para a companhia. 

Além das siderúrgicas, a Petrobras (PETR3, R$ 16,94, +97,67%; PETR4, R$ 14,87, +121,94%) também foi destaque e praticamente dobrou de valor ao longo de 2016. Além do impeachment melhorar as perspectivas para a companhia em meio às indicações de menor intervencionismo e a entrada de Pedro Parente no comando da estatal, a alta dos preços do petróleo (com o brent em alta de 50% no ano) em meio às perspectivas de uma redução da oferta em 2017 guiaram as altas no ano.

O ano termina com um saldo positivo para a petroleira brasileira, que encerra o período com uma nova política de preços de combustíveis e anúncio de acordo para venda de ativos. A companhia não conseguiu cumprir a meta de desinvestimentos de US$ 15,1 bilhões para 2015/2016 mas, conforme destacou o Credit Suisse, mostrou um grande comprometimento com relação à essa política. “O ano de 2016 deve ser marcado como um dos mais turbulentos da historia da Petrobras. Mesmo dentro deste contexto, a gestão da companhia conseguiu entregar um trabalho impressionante e que deve se sobrepor as dificuldades e deixar 2016 caracterizado como um ano de virada. A empresa fecha o ano e deixa a impressão que tem mais por vir”, apontaram os analistas do banco.

“Turbulência” para Embraer e ações de papel
Enquanto as ações listadas acima tiveram motivos para comemorar, outras tiveram um ano para ser esquecido. E muitas delas foram justamente destaque de alta em 2015.

Este é o caso das empresas do setor de papel e celulose, que sofreram em 2016 com a forte queda do dólar e também com a turbulência nos preços da commodity (que se estabilizaram mais perto : a Fibria (FIBR3, 31,89, -37,46%), Klabin (KLBN11, R$ 17,72, -22,79%) e Suzano (SUZB5, R$ 14,20, -22,37%). 

O preço da celulose amargou uma queda de 9,68% na China neste ano, passando de US$ 584,65 para US$ 528,06 a tonelada, chegando a atingir uma mínima de US$ 458,81 em setembro. Assim, apesar da forte queda anual, a commodity apresentou uma recuperação significativa, que também foi acompanhada pelo desempenho de Fibria e Suzano. Apesar de registrarem uma das maiores perdas do índice, as ações da Fibria subiram 70% e as da Suzano subiram 51% desde a mínima registrada em agosto. 

Esse desempenho positivo evitou que elas amargassem a “lanterna” do Ibovespa no ano, que ficou com os papéis da Embraer (EMBR3, R$ 16,00, -46,72%). Os papéis registraram baixa de cerca de 50% no ano por meio de uma conjunção de fatores: queda do dólar, o que afeta as ações da companhia por ela ser exportadora, seguidos balanços abaixo do esperado pelo mercado e guidance mostrando desaceleração da companhia. Em 29 de julho, os papéis fecharam em queda superior a 15%, após a empresa divulgar um prejuízo atribuível aos acionistas de R$ 337,3 milhões no segundo trimestre de 2016. 

Naquele trimestre, a companhia informou também que provisionou US$ 200 milhões em outras despesas operacionais relacionadas à investigação sobre alegação de “não conformidade” com o U.S. Foreign Corrupt Practices Act (FCPA). A SEC (Securities and Exchange Commission) e o Departamento de Justiça dos Estados Unidos questionam a companhia por suspeitas de irregularidades na venda de aeronaves fora do Brasil desde 2010. Aliás, as notícias sobre investigações dominaram o noticiário sobre a empresa em 2016, com diversas notícias sobre suspeita de pagamento de propina em um negócio fechado em Moçambique, o que aumentou a turbulência para os papéis. 

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