Luz no fim do túnel

Cogna aproveita cenário ruim para promover sua “mais impactante mudança” no ensino superior: o que os analistas acharam?

Após balanço, companhia anunciou reestruturação com foco em segmento premium e hibridização; Credit destacou ver movimento como positivo, mas mantém cautela

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Cogna
Cogna (Imagem: Divulgação)

SÃO PAULO – A companhia do setor de educação Cogna (COGN3) vem chamando muito a atenção do investidor pessoa física no ano de 2020. Afinal, após a forte queda de suas ações no auge do temor do mercado por conta da pandemia do novo coronavírus (entre 21 de fevereiro e 2 de julho, os papéis caíram 37,38%, enquanto o Ibovespa caiu 15,35%), dos pregões de 2 a 30 de julho os papéis tiveram um verdadeiro salto, de 36,71%.

Mesmo com a perspectiva de resultados ruins, ainda mais levando em conta o impacto da pandemia nos resultados, os investidores ficaram empolgados principalmente com abertura de capital da subsidiária Vasta na Nasdaq, que aconteceu no dia 31 de julho.

Contudo, desde então, os papéis só sabem cair, acumulando uma perda de 31% até o pregão da última quinta-feira (20), o que fez inclusive com que diversos investidores que entraram no mercado de opções para apostar na alta da ação da companhia vissem seus papéis virarem “pó” (veja mais clicando aqui). No acumulado do ano até o pregão da véspera, os ativos COGN3 caíam 42,52%, enquanto o Ibovespa tinha baixa de 12,26%.

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Com isso, o resultado da Cogna, que foi divulgado na noite da última quinta, seria acompanhado de perto pelos investidores, também para dar um sinal para os investidores sobre as medidas que a companhia está adotando – e assim, dar mais clareza sobre as perspectivas para a companhia durante a a pandemia.

Como era de esperar, a companhia reportou resultados fracos, sendo bastante afetada pela queda de receita e elevação da inadimplência. A Cogna que, além da marca Vasta, conta com Kroton, Saber e Platos, teve um prejuízo ajustado de R$ 140 milhões de reais, ante lucro de R$ 267 milhões registrado um ano antes.

A receita líquida, por sua vez, teve queda de 21% na comparação anual, a R$ 1,37 bilhão, tanto como reflexo do menor faturamento no ensino superior quanto pela maior evasão dos alunos do ensino infantil e dos anos iniciais do ensino fundamental.

Em meio a isso, o lucro antes de impostos, juros, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês), ficou negativo em R$ 139,5 milhões, comparado ao valor positivo de R$ 267 milhões registrado um ano antes, também sob influência de itens ligados à compra da Somos, maior provisão para perdas esperadas com calotes no ensino superior e nos produtos de parcelamento.

A companhia ainda destacou ter adotado no período medidas mais restritivas de rematrícula, evitando que débitos antigos fossem renovados. Isso, no curto prazo, gerou aumento da evasão e das provisões para perdas – contudo, ela destacou que “a base remanescente é mais saudável e permite resultados em patamares mais sustentáveis no longo prazo”.

Ela ainda fez uma provisão adicional para devedores duvidosos (PDD) no valor de R$ 328 milhões  no trimestre, para fazer frente à potencial ao aumento de inadimplência nos próximos trimestres devido à Covid-19.

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Em relatório de análise, o Credit Suisse destacou a perda de alunos nos campus de ensino superior, que foi de 17% no segundo trimestre em igual período de 2019. De acordo com os analistas do banco, a crise econômica causada pela pandemia atingiu uma Cogna já debilitada. O ensino superior tem sido um dos principais problemas para a companhia, em meio a perdas de margens ao longo dos anos.

Ainda sobre a evasão de alunos, o banco suíço faz um alerta: “a empresa declara não ter reduzido o quadro de professores, o que levanta uma bandeira vermelha de um possível excesso de custos nos próximos trimestres”.

Por outro lado, os analistas viram como positiva a decisão da Cogna de evitar matrículas com renovação de dívidas antiga, o que elevou a evasão e as provisões para devedores duvidosos, mas também “melhorou a qualidade da base de alunos restante”.

Impactante mudança

A companhia ainda fez um anúncio que será acompanhado de perto pelo mercado: como consequência da pandemia, a Cogna destacou que alunos antes resistentes ao ensino digital agora preferem um curso híbrido equivalente. Assim, destacou, ela aproveitará “para fazer a maior e mais impactante mudança no segmento de ensino superior já conduzida pela empresa”.

Desta forma, os cursos presenciais vão passar por uma reestruturação para versões via ensino à distância, reduzindo os custos da companhia. Em teleconferência, Rodrigo Galindo, presidente da Cogna, ressaltou que a maior parte das ações para isso devendo ocorrer entre a segunda metade de 2020 e o início de 2021.

Com isso, pretende-se reduzir o tamanho da operação, reduzir a quantidade de unidades, reposicionar o portfólio com foco em cursos mais nobres e fazer o reposicionamento de marca em algumas praças. A expectativa é ter uma empresa mais enxuta, com mais margem e geração de caixa.

Esse movimento acontece diante de um cenário em as provisões para inadimplência deverão continuar pressionando a margem da companhia no segundo semestre deste ano, disseram os executivos, justamente por conta da política mais restritiva de renegociação de dívida de alunos inadimplentes, o que deve gerar impacto nas rematrículas do segundo semestre.

“Estamos mais restritivos com alunos que geram pouco caixa. Estamos fazendo redução do presencial e queremos fazer isso de forma ágil e intensa e focar no EAD e plataformas digitais, o que deve ajudar o crescimento da geração de caixa no médio e longo prazos”, apontou.

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Durante a teleconferência, os executivos da companhia destacaram ainda que a Cogna reduzirá a atuação de sua unidade de ensino superior Kroton para focar os negócios em cursos de mensalidades elevadas, considerados “premium”, projetando inclusive eventuais aquisições em áreas como medicina.

“Premium não é só medicina, mas é um deles…Não descartamos oportunidades de aquisição. Temos quatro escolas hoje e pretendemos ampliar exposição”, disse Galindo.

A Kroton ainda deixará de oferecer produto próprio de financiamento (PEP) a partir de 2021. A penetração na captação de alunos caiu a 6% no segundo semestre, ante nível de 12% em 2019. A gestão destacou que isso só será possível em meio ao maior foco no segmento premium e pela expansão da oferta de cursos online, mais baratos que presenciais.

O Credit Suisse apontou ver como positiva a vontade declarada pela companhia de reformular os negócios, com a mudança para cursos híbridos e foco no segmento premium sendo alavancas essenciais para a companhia. Contudo, os analistas seguem cautelosos com a companhia até perceberem sinais mais fortes de recuperação.

Os analistas do banco possuem recomendação underperform (desempenho abaixo da média do mercado) para os ativos COGN3, com preço-alvo de R$ 6,00, cerca de 9% menor frente ao fechamento da véspera.

Vale destacar que, na última quarta-feira (19), o Credit iniciou a cobertura para as ações do setor de educação, avaliando que a ação deve ter um desempenho pior do que dos seus pares pelo fato da empresa estar posicionada em um segmento que tem maior exposição à compressão de renda, além de haver preocupação com o aumento da alavancagem e excessiva exposição a crédito estudantil.

Além disso, apontou o Credit no relatório, o balanço mais apertado poderia ser uma limitação às possibilidades de aquisições – sendo que, na teleconferência, a companhia não descartou ir novamente às compras.

Segundo aponta a Levante Ideias de Investimentos, no pilar financeiro, a empresa tem sólida posição de caixa de R$ 3,7 bilhões. Isso porque, embora a dívida líquida some R$ 4,8 bilhões, apenas 15% dela vencem nos próximos 12 meses (R$ 720 milhões), sendo o pagamento mais relevante datado para agosto de 2021. A relação dívida líquida/Ebitda ficou pouco abaixo de 3 vezes em junho de 2020.

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O nível de endividamento ainda não considerada a abertura de capital da Vasta, aponta: “o IPO da Vasta levantou R$ 2 bilhões para a Cogna, dinheiro importante para a companhia manter sua estratégia de seguir crescendo via aquisições”, ressalta a equipe de análise da Levante. Além do IPO, a Cogna já havia levantado outros R$ 2,6 bilhões com a realização de uma oferta de ações (follow-on) em fevereiro de 2020.

Sobre a Vasta, por sinal, ela terá um papel importante, conforme destacou a companhia, apontando que ela está muito bem posicionada para suportar a transição da escola brasileira para a nova realidade mais digital. “O IPO traz recursos e garante autonomia para que a Vasta enriqueça ainda mais sua plataforma de serviços e consolide o mercado de conteúdo para escolas de ensino básico”, afirmou.

A Vasta presta serviços educacionais, tanto de conteúdo pedagógico quanto de gestão administrativa, a outras escolas. Entre esses negócios estão, sistemas de ensino como Anglo e Pitágoras, além de quatro editoras de livros didáticos, escolas de idiomas e a plataforma digital Plurall, usada atualmente por mais de 1 milhão de alunos que estão tendo aulas online durante a pandemia. Entre as vantagens da Vasta, estão as suas ferramentas digitais.

“O mundo pós-pandemia deve trazer mudanças nos sistemas de ensinos 100% presenciais. Entendemos que o processo de hibridização do ensino que já vinha acontecendo no ensino superior será fortemente acelerado neste novo cenário e a Cogna está em uma boa posição para capturar valor com essa nova realidade no médio e longo prazo”, destaca a Levante.

O cenário ainda é de cautela para as ações da companhia, mas os novos planos podem ter animado o mercado: no início da sessão desta sexta, os papéis chegaram a cair 7,15%, a R$ 6,10, mas zeraram as perdas na reta final do pregão.

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