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Leilões do BC foram positivos, mas com efeito limitado na cotação do dólar

Moeda americana fechou em baixa em relação ao real e outras moedas de emergentes

dólar
(Shutterstock)

SÃO PAULO — O Banco Central quebrou um tabu de uma década e vendeu dólares no mercado à vista nesta quarta-feira (21), contrariando sua postura de preservação das reservas internacionais para uso apenas em casos de crises cambiais extremas. O efeito sobre a cotação do dólar, no entanto, foi limitado, mas a operação foi bem-recebida por analistas.

O dólar comercial chegou a cair até 0,85% pela manhã, quando atingiu a mínima de R$ 4,0152, mas amenizou a baixa ao longo da tarde e fechou com desvalorização de 0,585%, cotado em R$ 4,0261 na compra e R$ 4,0279 na venda. 

Pela primeira vez desde a crise de 2009, o Banco Central vendeu dólares à vista das reservas internacionais, atualmente em mais de US$ 380 bilhões. A autoridade ofertou até US$ 550 milhões, mas houve demanda por apenas US$ 200 milhões.

Até agora, em momentos de alta da moeda americana, a autoridade monetária leiloava contratos de swap cambial tradicional, que equivalem à venda de dólares no mercado futuro (o BC emite os títulos e o tomador recebe a variação do dólar mais uma taxa de juros em dólar, chamada de cupom cambial).

Feitas em reais, essas operações não afetam as reservas internacionais, mas têm impacto na posição cambial do Banco Central e aumentam os juros da dívida pública do país.

Agora, o BC começou a atuar de maneira diferente. Além dos US$ 550 milhões que serão ofertados por dia no mercado à vista, de 21 a 29 de agosto, ele também se comprometeu a comprar diariamente o mesmo valor em contratos de swap cambial reverso, que funcionam como compra de dólares no mercado futuro (o BC recebe a oscilação do dólar e quem toma o ativo receberá a variação do juro em reais).

Com isso, o BC vendeu hoje 4.000 contratos de swaps reversos, proporcionais aos US$ 200 milhões vendidos no mercado à vista. Se tivesse vendido todos os US$ 550 milhões no mercado à vista, a oferta de swaps reversos teria sido de até 11.000 contratos. 

"O Banco Central tem aproximadamente US$ 69 bilhões em swaps cambiais tradicionais. Ele pretende manter sua posição vendida, por isso está fazendo a operação casada de venda no mercado à vista com swaps reversos", diz Cleber Alessie, operador de câmbio da H.Commcor. 

Como não conseguiu vender toda a sua oferta no mercado à vista, o BC também rolou contratos de swaps tradicionais durante a tarde, que passaram a ter novo vencimento nos meses de maio e julho de 2020.

"Com a troca de postura, o Banco Central mostra que está atendendo à demanda maior por dólares no mercado à vista. Isso porque a conjuntura mudou. Há um receio de desaceleração da economia global, tem a crise da Argentina e a guerra comercial entre os EUA e a China, além do fraco desempenho da economia brasileira", explica Alessie. 

Sobre a menor demanda registrada no leilão de hoje, o mercado entendeu que isso está na curva de aprendizagem, já que foi a primeira operação no mercado à vista feita pelo BC em uma década e também a primeira de uma sequência de operações até o dia 29.

“Não houve a substituição integral, acredito que por decisão do BC sobre em que nível aceitar as propostas”, disse Carlos Kawall, economista-chefe do Banco Safra, à Bloomberg. “É tudo uma questão de custo-benefício. Tem de entender até onde o BC está disposto a ir. Hoje acaba sendo um de teste de temperatura.”

“Hoje foi a primeira experiência e o BC vai reavaliando ao longo do tempo. O BC também está desconfortável porque quem paga o cupom cambial é ele; não deve estar satisfeito com o cupom elevado. A expressão da escassez de dólar à vista é o cupom cambial elevado.”

Cenário externo

Os leilões do BC no dia ajudaram a manter a cotação do dólar em queda hoje, mas a moeda seguiu uma tendência internacional. O dólar perdeu força contra a maioria das moedas emergentes nesta quarta-feira — o real foi a terceira que mais se valorizou contra a divisa americana, atrás apenas do rand sul-africano, do rublo russo e do peso colombiano. 

As atenções no exterior ficaram por conta da ata da última reunião do Fomc, o comitê de política monetária do Fed, o banco central dos Estados Unidos. Segundo o documento, a maioria dos membros do Fed decidiram cortar os juros no mês passado como um ajuste pontual, ou seja, não necessariamente foi o início de um ciclo de afrouxamento monetário no país.

O teor da ata não foi uma surpresa para os investidores, que seguem ansiosos pelo discurso do presidente do Fed, Jerome Powell, na sexta-feira. Ele pode indicar se a autoridade continuará cortando os juros ou não. Há uma pressão enorme do mercado pela continuidade do ciclo de cortes, apoiada pelo presidente dos EUA, Donald Trump.

Hoje no Twitter, Trump ressaltou que o país precisa de um "grande corte" nos juros e que o mercado, porém, "não pode contar" com Powell, criticando abertamente a postura mais dovish do presidente do Fed. Powell, por sua vez, defende a cautela em relação ao ciclo de aperto monetário já que não se sabe ainda com exatidão até que ponto a guerra comercial de Trump com os chineses vai afetar o desempenho da indústria americana.

Para o Brasil, o melhor cenário seria a continuidade do ciclo de corte de juros nos EUA, já que isso forçaria que os investidores internacionais continuassem a ter que tomar mais risco em países emergentes (ou seja, injetando mais dinheiro nessas economias) ao invés de ficar na segurança dos títulos públicos americanos, que são considerados os ativos mais seguros do mundo. 

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