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Saiba o que é "carry trade" e por que ele pode trazer dor de cabeça ao BC

Se o controle trouxe investimento para o Brasil nos últimos meses, operações especulativas podem trazer um efeito negativo no longo prazo

Banco Central
(REUTERS/Ueslei Marcelino)

Investidores estrangeiros trouxeram US$ 28 bilhões em capital especulativo para o Brasil nos últimos 12 meses. O movimento foi favorecido pelas altas taxas de juros e também pela estabilidade da moeda em função do esforço do Banco Central em controlar o câmbio. Esse capital tem ajudado o País a financiar o déficit de suas contas externas no curto prazo, mas pode se tornar um problema no longo prazo. Uma notícia ruim nos mercados, uma crise, pode fazer com que os investidores levem este dinheiro embora, o que pode causar uma forte alta no dólar e pressionar a inflação.

O Banco Central diz que estes recursos estão sendo aplicados em títulos de longo prazo e representam a confiança do investidor em ativos financeiros nacionais. Mas o que analistas, executivos de bancos e economistas dizem é que boa parte do dinheiro, apesar de estar em títulos de longo prazo, chegou por meio de um tipo de investimento tipicamente especulativo chamado "carry trade".

A expressão em inglês não tem tradução para o português, mas não é difícil de entender. Basicamente o que o investidor estrangeiro faz é tomar dinheiro emprestado a juros baixos em países como Estados Unidos ou Japão e aplicar este mesmo recurso em países de juros mais altos. O ganho está na diferença entre esses dois juros, que pode chegar a 10% ao ano. Para o investidor estrangeiro, é um retorno extraordinário. Os japoneses, por exemplo, só ganham 0,53% ao ano se aplicarem em títulos de seu país.

Mas o "carry trade" é uma operação arriscada, pois depende da variação da moeda em que o recurso for aplicado. Se o dólar sobe, a perda pode ser grande e é por esse motivo que este capital é tão volátil e vai embora rapidamente com qualquer mudança de expectativa. Por isso, este tipo de investidor busca uma combinação de juro alto e moeda estável.

Faixa cambial
Desde o ano passado, o BC vendeu US$ 94 bilhões para estabilizar o mercado por meio de um instrumento financeiro chamado "swap cambial". Nos últimos meses, entretanto, essa estabilização começou a parecer artificial e tem sido comum no mercado se dizer que o BC estabeleceu uma faixa em que o câmbio pode flutuar. O economista Affonso Celso Pastore é enfático em dizer que o BC está usando o câmbio para combater a inflação e estabeleceu uma faixa para que o câmbio fique entre R$ 2,20 e R$ 2,35. Estaria assim induzindo a entrada desse capital especulativo.

Para Pastore, um dos problemas de se evitar artificialmente a desvalorização do real em relação ao dólar é que o BC está financiando suas contas com dívida e com capital volátil.

O déficit externo já foi de US$ 50 bilhões e hoje está em US$ 80 bilhões. Esse déficit precisa ser equilibrado com a entrada de capital estrangeiro. Quando estava na casa dos US$ 50 bilhões, era todo financiado com a conta de "investimentos estrangeiros diretos", segundo Pastore. Essa conta representa basicamente o investimento feito em produção, nas empresas. Mas de um ano para cá, segundo Pastore, apenas 40% do déficit está sendo financiado com esse tipo de capital. Uma boa parte (US$ 28 bilhões) é financiada com capital especulativo.

Por meio de sua assessoria de imprensa, o BC informou que entre 80% e 85% de seu déficit hoje é financiado com investimento estrangeiro direto.

Risco
Mas além do problema para as contas externas, o que preocupa no capital especulativo é a forma como ele pode ir embora. Estes recursos começaram a entrar com força, segundo o economista Antonio Madeira, da MCM Consultoria, em junho do ano passado, quando o BC reduziu o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que era de 6%. O objetivo foi se prevenir de uma onda de retirada de dólares do País, quando o Fed, o BC dos EUA, começasse a tirar estímulos à economia e atrair capital para os EUA.

Para executivos de grandes bancos como Santander e Bradesco, o investidor ainda está em busca de "carry trade". Mas esse é um investimento que está cada vez mais arriscado por causa de uma expectativa geral de que em algum momento o dólar comece a se valorizar.

O diretor da corretora de câmbio NGO, Sidnei Nehme, diz que a forma como o BC está segurando o câmbio está no limite. Ele diz que os US$ 94 bilhões em swaps vendidos pelo BC podem começar a demonstrar uma fraqueza do real. Os bancos que hoje dão liquidez para essas operações também estariam no limite. O BC não comenta o assunto, mas uma fonte ligada ao órgão diz "não há limite para a venda de swaps". 

 

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