Turbulência no vizinho

Bolsa argentina cai 4% e peso tem queda de 3% após moratória e pedido de renegociação com FMI

Mercado do país vizinho mais uma vez reage aos anúncios do governo em meio à crise argentina

SÃO PAULO — Os mercados na Argentina têm uma sessão negativa após o ministro das Finanças, Hernán Lacunza, anunciar na quarta-feira (28) a extensão no prazo de pagamento para dívidas de curto prazo para investidores institucionais, e destacar que o governo do presidente Mauricio Macri pretende renegociar os termos do acordo com o FMI. 

Logo na abertura dos negócios, o Merval, principal índice de ações da bolsa argentina, registrava queda de 4,34%, a 24.351 pontos, de acordo com cotação das 11h39 (horário de Brasília). 

Já o peso argentino recuava 3%, a 59,9 por dólar, após ter registrado queda de 24% desde o último dia 12, quando a derrota de Maurício Macri nas eleições primárias praticamente tornou nula a chance de reeleição em outubro, com a chapa Alberto Fernández-Cristina Kirchner sendo apontada como a favorita. Enquanto isso, o Merval já caiu 45% desde as primárias. 

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Já o risco-país subia para níveis não vistos desde 2005. Os spreads dos títulos do nosso país vizinho em relação aos Treasuries, que medem o risco de default, aumentaram 172 pontos-base, para 2.244, segundo o índice de títulos de mercados emergentes do JP Morgan. 

Na coletiva de imprensa da véspera, Lacunza anunciou que, da dívida de curto prazo, apenas as pessoas físicas donas de papéis do governo serão pagas na data correta.

Para investidores institucionais, 15% serão quitados no prazo do vencimento, 25% daqui a três meses e 60% em seis meses. Lacunza informou ainda que está renegociando a dívida de US$ 56 bilhões com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e que os débitos de longo prazo também deverão ser renegociados.

De acordo com um membro do governo Macri ouvido pelo jornal O Estadão de S. Paulo, a medida não se trata de um calote, e sim de um “reperfilamento dos vencimentos, sem desconto no valor devido nem nos juros”.

Especialista em economia internacional, o economista Livio Ribeiro, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), disse que o debate em torno do calote é uma “questão semântica”. “O que ela (Argentina) disse de forma explícita é que as datas e taxas pactuadas não serão cumpridas porque não consegue pagar e está propondo estender os prazos.”

Para o economista-chefe do Banco Votorantim, Roberto Padovani, “os primeiros sinais de calote” da Argentina terão contágio em todos os países emergentes, sobretudo nesse momento de forte aversão ao risco do mercado internacional.

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Além do impacto financeiro, a renegociação da dívida da Argentina traz reflexos preocupantes para a economia brasileira, em especial para a indústria. Na avaliação do economista Livio Ribeiro, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), no médio prazo, a desaceleração da Argentina deve desorganizar a cadeia de valor entre Brasil e Argentina. “A demanda final do país vizinho por bens produzidos aqui vai colapsar.”

Do total das exportações brasileiras, 5% são destinadas ao país vizinho. Já dos embarques do setor industrial, esse número chega a 20%.

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(Com Agência Estado)