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Por que, na bolsa, os EUA estão ganhando a guerra comercial com a China

Desde que a disputa começou, há pouco mais de um ano, o mercado americano tem tido um desempenho bem melhor que o chinês

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(Shutterstock)

SÃO PAULO - Há pouco mais de um ano, o presidente Donald Trump começou a colocar em prática alguns de seus planos protecionistas comentados desde a campanha eleitoral. O mais bombástico por seus potenciais efeitos sobre a economia mundial é a batalha comercial com a China. 

A disputa entre os dois países começou há pouco mais de um ano, quando Trump anunciou sobretaxas para aço e alumínio. Depois de ameaças de ambos os lados, a tensão diminuiu no fim de 2018, depois de Trump ter adiar por três meses um pacote de tarifas para bens chineses. Os analistas passaram a achar que os países estavam perto de fechar um acordo, mas essa previsão perdeu força em maio, quando o presidente americano decidiu seguir em frente com as taxas e deixou mais difícil um acordo.

Se os países decidirem aplicar sanções duras um ao outro, as duas economias devem sofrer -- e ainda é cedo para dizer qual sairá mais prejudicada. Na bolsa, porém, os Estados Unidos largaram na frente. Desde março de 2018, quando Trump iniciou a "guerra" com as taxas para o aço e alumínio, o índice S&P 500, da Bolsa de Nova York, subiu 9,20%, enquanto o índice Xangai Composite, da bolsa chinesa, caiu 13,29%.

Isso significa que os investidores acham que os Estados Unidos têm mais chances de vencer a guerra comercial? Não necessariamente. Especialistas ouvidos pelo InfoMoney acreditam que a diferença de desempenho se deve, em grande medida, às particularidades de cada mercado. 

"Os Estados Unidos são um grande centro financeiro, enquanto a China tem uma bolsa com muitas incertezas geradas pelo próprio governo, com poucas informações. São eles mesmos [chineses] que interferem na bolsa", afirma Ari Santos, trader da H. Commcor.

Thiago Salomão, analista da Rico Investimentos, afirma que as bolsas dos EUA e China não são "instrumentos comparáveis, embora parecidos". "Isso porque a bolsa americana é 'profissional', enquanto a bolsa chinesa tem uma forte predominância de investidor pessoa física, o que torna a bolsa de lá mais suscetível a altos e baixos".

Na China, cerca de 85% dos investidores cadastrados são pessoas físicas, enquanto nos EUA é o inverso: pouco mais de 80% do mercado está na mão de grandes investidores.

Salomão pondera, no entanto, que há alguma lógica no raciocínio de que os EUA estão ganhando: os dados sobre a economia do país estão melhores que o esperado. "Isso tem deixado Trump mais forte na hora de negociar com a China", explica. Por outro, ele lembra que a bolsa americana só tem ganhado força quando saem notícias sobre um eventual acordo -- não fosse isso, o desempenho seria pior.

Olhando apenas para 2019, o mercado chinês leva pequena vantagem sobre Wall Street. Até agora, o índice Xangai Composite avançou 14,4% no ano, contra 12,7% do S&P 500. 

Guerra fria tecnológica

Em relatório publicado esta semana, analistas do Bank of America projetam uma queda entre 20% e 30% para o S&P 500 caso o governo americano imponha tarifas sobre bens chineses que afetariam uma parcela maior de consumidores e empresas.

Isso sem considerar o que alguns já estão chamando de "guerra fria tecnológica", movimento que teve início em meados de maio quando Donald Trump anunciou uma restrição para grupos americanos em negócios com empresas estrangeiras do setor de telecomunicações consideradas perigosas para a segurança nacional, caso da Huawei.

Esta disputa foi adiada brevemente após o presidente americano dar um prazo de três meses para que as restrições comecem a vigorar, mas, se nada mudar até lá e as medidas realmente ocorrerem, é quase certo que a China irá retaliar.

Em impactos imediatos, provavelmente haverá um boicote a produtos americanos, desvalorização da moeda chinesa e endurecimento das regras para empresas dos EUA operarem na China. Só para a Apple, uma proibição da venda de seus produtos no gigante asiático poderia reduzir os ganhos da empresa em 29%, segundo o Goldman Sachs.

A cronologia da disputa

Ainda em 2016, durante a campanha eleitoral, Donald Trump indicou que iria rever uma série de acordos comerciais que os EUA tinham com outros países. Mas foi apenas em março de 2018 que ele decidiu iniciar diretamente a disputa contra os chineses, justificando que havia um grande déficit comercial com a China (os EUA estariam comprando mais do que vendendo para os asiáticos).

E assim, em março, Trump anunciou a criação de novas taxas para a importação de aço e alumínio, que passaria a ser de 25% e 10%, respectivamente. Neste caso, apesar da China ser o principal alvo, a medida teve impacto em diversos outros países, incluindo o Brasil.

Em 1º de abril, Pequim anunciou tarifas de US$ 3 bilhões sobre bens dos EUA, acirrando o clima entre as duas nações. Em junho, o presidente americano informou que aplicaria tarifas de US$ 50 bilhões em produtos chineses, o que, segundo ele, seria "uma resposta às práticas comerciais desleais da China ao longo dos anos". 

Em setembro, os dois países voltaram a bater de frente: Trump colocou nova tarifa de 10% sobre US$ 200 bilhões em bens da China, que no dia seguinte faz uma retaliação e impõe taxas sobre US$ 60 bilhões de produtos vindos dos EUA. Apesar disso, em dezembro o presidente americano recuou e suspendeu este aumento de tarifas.

Em seguida, o clima se acalmou por todo o primeiro trimestre deste ano, voltando a esquentar apenas no início de maio, quando a Casa Branca informou um aumento de 10% para 25% nas tarifas para US$ 200 bilhões em produtos da China. O gigante asiático, por sua vez, já informou que vai retaliar.

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